domingo, 8 de junho de 2014

Histórias do Paraná - 300 loiras bem geladas e um garanhão quente

Histórias do Paraná - 300 loiras bem geladas e um garanhão quente

300 loiras bem geladas e um garanhão quente
Ivo Nalce

Thomas Plantagenet Bigg-Wither com esse nome todo era inglês — afinal ninguém tem culpa de ter nascido na Inglaterra, e também ninguém tem culpa de ter nascido no Paraná — e como todo inglês era meio chegadinho a uma cerveja bem gelada.
Bigg-Wither foi um engenheiro que veio ao Paraná em junho de 1972, contratado pela Paraná and Mato Grosso Survey Expedition, seja lá que diabo isso for, e ficou três anos aqui no Paraná, demarcando a Colônia Thereza.
Seu primeiro contato com a "Terra das Araucárias" foi em Antonina, onde desembarcou com outros engenheiros ingleses.
Foram todos se instalar com armas e bagagens no único hotel da cidade de propriedade de um Sr. Pascoal.
Bigg-Wither, no excelente livro que escreveu sobre suas experiências no Paraná, desconfia que a placa do hotel foi colocada quando eles chegaram e retirada quando eles se foram, talvez para economizar o letreiro exposto ao inclemente sol dos trópicos.
Bigg-Wither repara que as casas de Antonina, então com 1.200 habitantes, não tinham chaminés e a fumaça da cozinha saia pelo vão das telhas, talvez para poluir dentro de casa e não a natureza, e poucas janelas eram envidraçadas.
Durante os três dias que ficaram no hotel do Sr. Pascoal, tomaram várias cervejas inglesas Bass and Co. para combater o calor, afinal naquele tempo não existia Coca-Cola.
Mais tarde, no interior do Paraná, Bigg-Wither descobriu que muitas garrafas de cerveja inglesa, depois de consumidas, eram enchidas com cerveja nacional e vendidas como importadas, igualzinho como se faz com o uísqui hoje.
Quando iam sair do Hotel, o Sr. Pascoal, depois de horas calculando, apresentou a nota.
Bigg-Wither viu então que segundo a conta do hoteleiro eles tinham bebido 300 garrafas de cerveja em três dias, o que, convenhamos é meio muito.
Como não tinham conhecimento desse costume brasileiro de se somar até a data nas contas, Bigg-Wither pagou sem bufar e seguiu viagem...
Em Ponta Grossa, ficou na fazenda de um conterrâneo, Mr.
Edenborough.
Contou das cervejas e o Mister contou para ele como tratar com tratantes.
Edenborough, reparando que os cavalos brasileiros eram muito pequenos, importou um enorme puro-sangue inglês, o primeiro no Paraná, e meteu-o nas corridas de canchas retas, uma mania nacional na época. O cavalo inglês ganhou todas as corridas que participou, enchendo de grana seu compatriota fazendeiro.
Quando velho, abandonou o turfe, ajudou a enriquecer mais ainda seu proprietário, cobrindo as eguinhas brasileiras, para reprodução.
Assim, Mr. Edenborough se vingara das cervejas falsificadas que era obrigado a tomar.

Ivo Nalce é historiador.

sábado, 7 de junho de 2014

Histórias do Paraná - Mão Negra e os bicheiros

Histórias do Paraná - Mão Negra e os bicheiros

Mão Negra e os bicheiros
Rodrigo Pereira Gomes

No início deste século, durante pouco mais de dois meses do segundo semestre de 1909,
os jornais da então mais que pacata Curitiba ocuparam-se de um estranho personagem, a quem apelidaram de "A Mão Negra". O sujeito, segundo o "Diário da Tarde", tinha "o feio hábito de entregar-se a escrever missivas anônimas". Eram, ainda segundo o jornal, "cartas ameaçadoras" endereçadas "a vários comerciantes desta praça".
Que ameaças eram essas? Quais eram os comerciantes ameaçados? Curioso, essas perguntas em momento algum foram respondidas pelo "Diário" ou outro jornal qualquer da provinciana Curitiba.
Os nomes dos ameaçados já corriam de boca em boca entre a população, a cidade não falava de outra coisa.
Os jornais ainda sim, preferiam gastar papel em catilinárias quase diárias contra o "pândego das cartas anônimas que vem sobressaltando diversos comerciantes". Nada porém de revelar seus nomes.
Por quê?
A resposta fica sugerida em algumas outras notícias a respeito das façanhas do "Mão Negra". No final de outubro daquele ano, uma das cartas do famigerado personagem caiu nas mãos do chefe de polícia. A carta, segundo os jornais, denunciava a existência na cidade de diversos banqueiros do jogo do bicho, já então praticado ao arrepio da lei, sem contudo citar-lhes nomes. (Não seriam eles os mesmos respeitáveis cidadãos curitibanos que estavam sendo ameaçados?)
Os jornais dessa época também nos dão conta que "Mão Negra", em outra carta enviada semanas antes ao Dr. Costa Carvalho, figura bastante conhecida na cidade, avisava que um sueco de nome Rytling, sem familiares na cidade, haveria de se suicidar por causa do jogo do bicho. O que, destacava o "Diário da Tarde", "acabou realmente por se confirmar, com a horrível auto-eliminação do sueco Rytling na Praça Osório".
Mas surpreendente, mesmo, é que o jornal não tenha desconfiado
— ou não quis desconfiar — que o sueco, em vez de suicidar-se, tenha sido "suicidado". Afinal como pode alguém saber antecipadamente que um determinado sujeito vai se suicidar semanas depois? O chefe de polícia, suspeita-se, bem que desconfiou, mas preferiu fazer de conta que a bronca não era com ele.
Toda essa história acabou de forma tão misteriosa como começou.
De um dia para o outro, os jornais simplesmente deixaram de falar
no "Mão Negra" e em suas cartas ameaçadoras. E o assunto acabou por esquecido em pouco tempo.
O mais provável é que os "respeitáveis comerciantes da praça de Curitiba" que estavam sendo ameaçados, na verdade metidos com a jogatina proibida, resistiram o quanto puderam às tentativas de achaque do misterioso "Mão Negra". Isso até receberem o duro recado do "suicídio" do sueco.
Então, amedrontados, pagaram ao achacador, e a história do "Mão Negra"acabou por isso mesmo.
Se não foi assim, o que afinal teria se passado nesses pouco mais de dois meses de 1909 na (quase) pacata cidade de Curitiba?

Rodrigo Pereira Gomes, de São José dos Pinhais, funcionário público aposentado.

Histórias do Paraná - A fézinha

Histórias do Paraná - A fézinha

A fézinha
Mauro Goulart

"Titio" era um dos carcereiros da Prisão Provisória do Ahú, em Curitiba.
De idade indefinida, mas que poderíamos dizer "aí pela casa dos sessenta", fazia seu expediente à noite.
Sempre de chinelos, cujo ruído do arrastar quando andava permitia identificar, ao longe, quando vinha pelos corredores da prisão.
Quepe caído sobre os olhos e cobrindo uma calva não total devido a uma rala penugem de cor não identificada presente nas têmporas e no occípito.
Mesma sorte não tinham as gengivas, estas já totalmente abandonadas pelos dentes e normalmente desguarnecidas da dentadura.
Desleixado, "Titio" carregava a dentadura, surrada, suja e com dentes faltando, no bolso da camisa.
Quando ia mordiscar alguma coisa, sacava o exótico instrumento, como que um par de óculos jogando-a dentro da boca, onde se encaixava com impressionante rapidez.
Sempre que ia iniciar uma conversa dava um piparote na aba do quepe lançando-o para trás, pigarreava, e um eterno palito de fósforo, que corria de um canto a outro de seus lábios, adquiria vertiginosa velocidade.
Figura simpática, não fossem algumas manias constrangedoras e certas opiniões nada animadoras. Éramos em 15 presos, inicialmente, naquela cela, e uma das suas "conjecturas filosóficas" prediletas era: "Se Jesus Cristo, no meio de 12 apóstolos, tinha um traidor, imagine vocês aqui em quinze?" Decididamente, para quem estava preso por motivos políticos, em pleno AI-5, sendo visitado periodicamente pelos diversos órgãos de repressão, estas palavras não podiam ser identificadas como sendo daquelas "para elevar a moral".
O "Titio" pintava e bordava.
Acenava com vantagens, desde que "algum", "não como corrupção, mas como contribuição para pagar o ônibus e outros gastos menores", caísse no seu bolso.
Volta e meia nos apresentava uma lista de "contribuições voluntárias", feitas também por "iniciativa voluntária", dos presos de uma determinada galeria, como a arrecadação de alguns cruzeiros para ajudá-lo a cumprir o seu honorário mister.
Numa ocasião, o Ahú amanheceu alvoroçado.
Um grande banqueiro do jogo do bicho havia sido preso.
Como dizia Tatarovich, contrabandista iuguslavo: "Peixe dos grandes caiu no rede".
Mas estas novidades logo eram assimiladas, e o banqueiro deixou de ser figura notória em pouco tempo.
Logo, logo, já estava conversando conosco, embora tivesse sido alertado por toda a carceragem que: "aquela turma de estudantes comunistas era barra pesada".
Homem de conversa fácil, logo travou amizade.
Inclusive, vez ou outra, ia jogar um futebol de salão conosco, na nossa famosa 1 hora e meia de sol que tínhamos por dia.
Em pouco tempo, contávamos nossas aventuras (ou desventuras, sei lá). Embora homem de conversa fácíl, era extremamente zeloso de seus negócios, normalmente evitava comentar suas atividades.
Mas, num certo dia, numa roda de chimar-rão, depois que o falecido Sargento Alberi, que havia participado do episódio conhecido como a "Guerrilha do Coronel Cardin" contou as torturas que havia sofrido, o nosso — já
— amigo banqueiro do jogo do bicho desabafou: "Olha pessoal, ter sido preso por ser banqueiro de bicho é fogo.
Mas, fogo mesmo, foi no segundo dia em que estava preso, na minha cela, quando entra um carcereiro velhinho, totalmente banguela, andando arrastando o chinelo de dedo, dá um piparote na aba do quepe jogando-o para trás, e com um pequeno bloco de papel na mão, fala todo cordial: - "Boa noite, pessoal.
Quem quer fazer uma fézinha?"
Mauro Goulart, médico, ex-líder estudantil, foi preso político.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Histórias do Paraná - O salto do Néco Maluco

Histórias do Paraná - O salto do Néco Maluco

O salto do Néco Maluco
Kit Abdala

Quando cheguei em Francisco Beltrão, em meados de 1959, o grande drama dos beltronenses era a viagem até Curitiba.
Quando o tempo estava bom levava-se dois dias de viagem.
Quando chovia, o tempo de viagem era totalmente imprevisível. A solução seria comprar um avião.
Fomos conhecer o aeroporto que na época era um simples caminho de roça.
Entrei em contato com o então prefeito Ângelo Comilotti e consegui uma motoniveladora.
Alargamos e balizamos a pista e em seguida construímos o primeiro hangar do Sudoeste do Paraná que ainda hoje é considerado o melhor da região.
Para inauguração da nova pista e do novo hangar resolvemos fazer a primeira festa aérea de Francisco Beltrão.
Comprei um avião Cessna 195, de seis lugares, e fui a São Paulo em busca de três pára-quedistas.
Conseguimos os mesmos e voltamos a Beltrão dois dias antes da tão esperada festa. A maioria da população de Francisco Beltrão e do Sudoeste do Paraná jamais havia visto um pára-quedista de perto.
Começamos a anunciar pela Rádio Col-méia que viria o famoso "Néco Maluco", cuja maior façanha era se atirar de pára-quedas a 1000 metros e
só abrir o mesmo a 100 metros do chão.
Ninguém acreditava no que era anunciado.
Levantamos vôo e saímos distribuindo folhetos a todas as vilas do Sudoeste.
Foi um verdadeiro sucesso.
Veio gente de todas as partes para assistir e conhecer o famoso saltador "Néco Maluco". Dois pára-quedistas saltaram antes, para delírio da platéia presente. O Néco Maluco, todo de branco, ficou cumprimentando a galera presente.
Todos ficaram encantados com a simpatia do Néco.
Chegou a hora do terrível salto. O avião, ao se dirigir para a pista com a porta aberta do lado direito, mostrava o Néco já de pára-quedas acenando a sua mão, principalmente para as belas e joviais representantes do sexo feminino, a quem ele já havia conquistado.
Um possante alto-falante foi instalado no campo de aviação, onde através de um microfone eu irradiava todos os movimentos para maior compreensão dos presentes.
No momento mais emocionante da festa, anunciei o salto do "Néco".
- Atenção pessoal, prestem muita atenção que o Néco vai realizar o salto mais espetacular do mundo !"
A população inteira ouviu o possante avião reduzir a sua potência e todos acompanharam o salto do Néco.
E o Néco vinha rodopiando e nada de abrir o pára-quedas e eu no microfone:
- "Não se assustem, o pára-quedas vai abrir só a 100 metros."
E o corpo vinha rodopiando, rodopiando, até se estatelar no potreiro vizinho ao aeroporto.
Foi um Deus no acuda!
O Dr. Arizone bateu na sua reluzente careca e disse: "estas festas nunca dão certo".
Um advogado presente chorava como uma criança
- "era meu amigo, como pode morrer assim..."
O povo saiu na corrida.
Pularam a cerca e trouxeram o corpo de um boneco, todo vestido de branco, que eu havia colocado de madrugada dentro do avião, que estava no hangar, sem ninguém perceber.
O Zambom, velho gringo de guerra, foi o primeiro a chegar perto do boneco.
Com aquele sotaque "Piemontês" de Caxias do Sul, ele disse: - "óia aqui Quito, quando eu pulei a cerca, rasguei a camisa de ir na missa aos domingos, quando eu cheguei lá e vi que era um boneco me deu vontade de matá o boneco..." A risada foi geral, e sem dúvida alguma esta passagem ficou na historia de Beltrão.
Kit Abdala, médico em Francisco Beltrão

Histórias do Paraná - A Primeirona

Histórias do Paraná - A Primeirona

A Primeirona
Roberto de Souza Brandão

Atentem para a escalação deste timaço: Hauer, Labusch e Dietrich; Iwersen, Iusksch e Theo Obladen, Kastrup, Maschke, Leo Obladen, C. Shlemker e Fritz Essenfelder.
Até parece a seleção alemã que levou a Jules Rimet na copa de 1954. Na verdade, trata-se dos onze saudáveis jovens curitibanos que, longínquo 24 de outubro de 1909, um domingo, disputaram como os "Ingleses" de Ponta Grossa a primeira partida de futebol interclubes realizada no Paraná. Com esses nomes, não era estranhável que fossem mais conhecidos como os "Alemães". Daí que algum gaiato até pode dizer que a primeira partida de futebol no Paraná foi internacional, Ingleses X Alemães.
Os "alemães", como se diz no jargão esportivo, defendiam as cores do glorioso "Turnverein" que, pouco tempo depois, se transformaria no não menos glorioso "Coritiba Foot-Ball Club". Vem dessa época seu apelido de "Coxa Branca", por razões que parecem óbvias, embora o apelido de "Coxa Rosa" também não lhe caísse mal.
Já os pontagrossenses, apesar de mais conhecidos então como "os ingleses", tinham uma folgada maioria de jogadores brasileiros de certidão e nome.
Na histórica primeira partida, ou "match" como se dizia então, eles foram a campo com Ayres, Frederico e Debu; Charles Wright,Joca e Maravalhas,J. Dawes, Monteiro, Silva Jardim, Flávio Guimarães e Salvador.
Alem de jogar em casa, no "ground" do Alto do Cemitério, os pontagrossenses ainda levavam a vantagem de ter o "referee", vulgo juiz, o inglês Magnus Flygare, funcionário da American S. Brasilian Engineering Ca, empresa encarregada de construir a ferrovia que ligaria o Paraná a São Paulo e ao Rio Grande do Sul.
Mas é maldade pensar que o "team" pontagrossense venceu o embate, por um gol a zero, graças a essa vantagem.
O "team" curitibano perdeu, ou deixou de ganhar, por puro azar, sabe como é. Futebol é uma caixinha de surpresas... Pelo menos é isso que sugeriu uma testemunha privilegiada desse primeiro match futebolístico, o repórter Aldo da Silva, do "Diário da Tarde": "Os Teutos (ou seja, os Alemães) desenvolveram no segundo tempo um ataque enérgico e se não conseguiram marcar pontos devem simplesmente ao não conhecimento do terreno e ao acaso", escreveu Silva na pormenorizada reportagem que o "Diário da Tarde" publicou dois dias depois, na primeira página.
Nela, sobram elogios desbragados, também para o primeiro cartola coxa, o presidente do "team" Frederico Rummert, além de descrições do tipo: "as arquibancadas do Foot-ball Club Ponta-grossense estavam repletas de espectadores que se derramavam pelos lados do campo, e todos pareciam ansiosos para ver o início do match..."
Embora não se saiba de outros repórteres que, em jogos posteriores, tenham atribuído a derrota de uma equipe ao desconhecimento do campo - afinal todo campo de futebol é praticamente igual: retangular, com medidas fixas, gramado e dois conjuntos de traves — o atilado Aldo Silva fez escola na nossa crônica esportiva.
Pois foi como convidado especial de um dos clubes, o Turnverein, que ele cobriu a partida de estréia do nosso futebol.
Nessa condição ele viajou para Ponta Grossa, hospedou-se no melhor hotel da cidade, foi a jantar e baile — tudo na mordomia. E até hoje, dizem não há coisa que um cronista esportivo goste mais que uma bela mordomia.
É bem verdade que Aldo Silva não estava só. Também incorporado à delegação do Turnverein como convidado especial estava o repórter Luiz Schlemker, do "Der Beobaether", informativo da colônia alemã em Curitiba.
Mas esse, como apenas seus patrícios entenderam o que aconteceu, a historia acabou por absolver.
Roberto de Souza Brandão, comerciante em Curitiba