terça-feira, 25 de novembro de 2014

Histórias do Paraná - Sangue frio e decisão

Histórias do Paraná - Sangue frio e decisão

Sangue frio e decisão
Ayrton Ricardo dos Santos

O conhecimento, sangue frio, rapidez de raciocínio e decisão são atributos que, na medida em que se apresentam, qualificam os médicos.
O Dr. Iseu Costa — a quem devo as pontes de safena que carrego e me prolongam a vida — nos presenteou, a todos, com uma bonita e circunstanciada biografia em excelente edição da Fundação Santos Lima: "Szymon Kossubudzki — patrono do ensino da Cirurgia no Paraná".
Esse notável médico polonês
— conta-nos Iseu - já formado e com 38 anos de idade, emigrou para o Brasil em 1907. Clinicou em São Mateus do Sul, Ponta Grossa e, a partir de 1912, passou a residir em Curitiba.
Inaugurou, em 1916, o ensino cirúrgico na Universidade, regendo a cadeira de Propedêutica Cirúrgica, Prestou relevantes serviços à coletividade, principalmente como médico e professor de medicina, mas, também, como poeta, teatrólogo e jornalista.
Faleceu nesta capital, em 1934, aos 65 anos de idade.
Há uma passagem na vida desse eminente polonês — narrada pelo professor Aluisio França - que vale a pena ser lembrada, a exaltar nele os atributos mencionados.
Certa manhã, depois da habitual visita a seus pacientes, quando deixava a Santa Casa, já na rua, deparou com uma mulher que trazia uma criança no colo e desesperadamente gritava:
- Salvem minha filha!
O médico, ante a criança cianosada, a respirar com extrema dificuldade, não teve dúvidas no diagnóstico que se impunha: laringite diftérica, com obstruções das vias áreas superiores. Não hesitou.
Sacando do bolso um canivete, prontamente incisou a traquéia, de modo a permitir o acesso do ar aos pulmões.
Para assegurar a permeabilidade das vias respiratórias apanhou a ponteira de um lápis — como antigamente se usava — e introduziu a cânula improvisada na ferida operatória... As retificações técnicas e assepsia foram feitas mais tarde, depois que a criança, com respiração assegurada, estava salva.

Ayrton Ricardo dos Santos, médico

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Histórias do Paraná - A lâmpada indulgente

Histórias do Paraná - A lâmpada indulgente

A lâmpada indulgente
Marçal Maciel de Araújo

Foi lá pelos idos de 43-44. Há cinqüenta anos atrás.
Vivíamos em clima de excitação. Lá longe, uma guerra se propagava, e da qual nós participávamos. Tínhamos uma Força Expedicionária lutando na Itália.
Estávamos aqui todos contagiados pelo ardor cívico, embalados pelos hinos patrióticos.
Mas era preciso uma conscientização geral da realidade que a todos contagiava.
Acompanhávamos passo a passo o desenrolar da luta. O radio não cessava de transmitir os seus boletins, dando conta do fragor da luta em todas as frentes de batalha.
Os dias, os meses vão passando, e todos nós vamos assimilando a idéia em potencial, o significado do que está acontecendo no mundo. Nós também estamos comprometidos com esta causa que envolve toda a humanidade.
Acordamos para este momento que vai se precipitando. Já agora estamos amadurecidos e damos o passo a frente.
Por que não? Vamos entrando para a História.
Um povo jovem cheio de energia vai se lançando a luta.
Também nós, aqui em casa, somos convocados, urge que façamos alguma coisa, algo que já está sendo feito lá no teatro da guerra.
Precisamos estar preparados para qualquer surpresa.
As autoridades providenciam e a data é marcada. O plano vai ser executado. A Rádio Clube PRB-2 a posto transmite todo o esquema do serviço. E rápido.
Na hora aprazada a Cidade entra em Black-out completo.
Com recomendação rigorosa, severa, que todas as luzes fossem desligadas. O inimigo sobrevoando a Cidade, na calada da noite, e não podendo vê-la, vai-se embora. — Curitiba há cinqüenta anos atrás era bem menorzinha. A B-2 transmitia todo o programa elaborado pelas autoridades. E quando o nosso prezado locutor Wilson vai em frente, dando todos os detalhes do plano deflagrado, apontando aqui e ali alguns focos de luz inadvertidamente acesos.
Eis que surge no "painel" a lâmpada da Capela do Santíssimo, da Catedral. O ambiente nervoso que dominava aquela noite (histórica) levou o nosso combativo Wilson a reclamar que aquela lâmpada votiva (também) fosse apagada.
Eu morava no prédio ao lado da Catedral, e lá da sacada presenciei este momento. E nesta hora aparece solícito, apressado, o sacristão Isidoro Canestraro, para abater a luz do Santíssimo.
Era necessário a comunhão de todos. E assim, a pequenina lâmpada do Santíssimo, que a tradição religiosa determina sempre ficar acesa, naquela noite se apaga, obediente aos reclamos da locução
Na noite escura como breu, nem mesmo o piscar de um perdido vagalume.

Marçal Maciel de Araújo, aposentado do INSS

domingo, 23 de novembro de 2014

Histórias do Paraná - Descapitalização de Curitiba

Histórias do Paraná - Descapitalização de Curitiba

Descapitalização de Curitiba
Oney Barbosa Borba

Curitiba está comemorando centenário de sua descapitalização nos dois sentidos, político e financeiro: deixou de ser capital do Paraná e seu Tesouro ficou vazio.
Os "maragatos" tendo seu quartel-general no Desterro, depois de muitas escaramuças e entreveros, invadiram o Paraná pelo litoral e pelo interior, objetivando ocupar pontos estratégicos, com mais recursos para avançar sobre São Paulo, cuja população não morria de amores para com a ditadura florianista.
Nós paranaenses éramos, então, ligados às atividades dos comerciantes ervateiros, dos industriais madeireiros, dos tropeiros pecuaristas e politicamente divididos quase ao meio, entre "pica-paus" e "maragatos". O povão, sem liderança própria, titubeava entre os dois campos. O funcionalismo público, classe mais esclarecida, estava dividido: a maioria acomodatícia, sempre ao lado da situação, apoiando o emprego, isto é, o governo; alguns poucos, reclamadores contumazes, timidamente torcendo pelos revolucionários.
Em janeiro de 1894, os revolucionários enfrentavam resistência oposta na Lapa, mas com a queda em suas mãos das cidades de Paranaguá, Antonina, Morretes e rendição dos governistas, após a morte do Gal.
Carneiro, o comandante do 5o Distrito, Gel. Pêgo Junior, apavorou-se, e com ele o vice-presidente em exercício Dr. Vicente Machado.
Este tratou logo de assinar o decreto transferindo a capital para Castro. O decreto é de 18 de janeiro. O Dr. Vicente quis seguir os feitos do decreto, fugindo para Castro. O general ponderou-lhe que a cidade de Castro já estava nas mãos revolucionárias.
Gumercindo Saraiva, comandante dos revolucionários, tomou Curitiba sem combate. A cidade estava desgovernada.
Ele impôs o empréstimo de guerra para toda a região ocupada.
Organizaram-se comissões para arrecadar dinheiro.
Da comissão central fizeram parte o Barão do Cerro Azul e mais duas dezenas de notáveis curitibanos, gente bem posta na sociedade.
Comissão numerosa de pessoas mas mixada de recursos. Não chegou a arrecadar mais do que 300 contos de réis.
Realmente, Curitiba era uma cidade financeiramente descapitalizada.
Os curitibanos estavam empobrecidos.
Com a ordem de retirada dos revolucionários do território paranaense, o exército restaurador se mexeu de Itararé para alcançar a cidade de Castro.
Na altura da Cruz das Almas a vanguarda deu uns tiros que atingiram a torre da igreja, como que avisando sua aproximação. Aí os membros da câmara revolucionária tiveram tempo para debandar. O exército tomou a cidade assustada.
Com ele veio o castrense Dr. Vicente Machado que oficialmente instalou a capital do estado, em 12 de abril de 1894, cumprindo, assim, o decreto n° 24, de 18 de janeiro do mesmo ano. O governo constitucional, custodiado pelo exército florianista, nada fez civilmente; mi-litarmente, no entanto, alcançou alguns retirantes que fugiam para Guarapuava, ocasião em que o ferreiro Max Flugel foi degolado, o mesmo acontecendo com o juiz nomeado para Guarapuava, o Dr. Francisco Peixoto Lacerda Werneck.
Curitiba voltou a ser capital quando a tropa sob o comando do Cel.
Fermino Pires Ferreira entrou na cidade, abandonada pelos revolucionários.
Então, o Dr. Vicente Machado assinou o decreto n° 25, em 29 de abril, revogando o decreto n° 24, restabelecendo a capital novamente em Curitiba.

Oney Barbosa Borba, escritor, residente em Castro

sábado, 22 de novembro de 2014

Histórias do Paraná - Estrangeirices

Histórias do Paraná - Estrangeirices

Estrangeirices
Orlando Strobel

Não era fácil a vida de imigrantes europeus que vinham tentar a vida no Brasil do século passado.
Que o diga meu antepassado Christian August Strobel.
Ele chegou em novembro de 1854, com a esposa grávida e três filhos pequenos. A viagem durou seis semanas, tendo havido 36 mortes a bordo do veleiro Florentin — seis mortes por semana quase uma por dia.
Ao chegar na Colônia Dona Francisca (Joinville), Christian ficou desolado com o que viu, razão pela qual resolveu subir ao planalto paranaense.
Fez a jornada de 14 dias a pé, via litoral, junto com seu amigo Weigang, tendo chegado em Curitiba em princípios de 1855.
Uma noite, na trilha do Itupava, no pé da serra, os dois viajantes chegaram a uma choupana de onde se ouvia um forte barulho.
Lembrava o malhar de cereais quando o mesmo era descascado.
Quando se aproximaram da moradia, constataram trata-se de uma dança chamada "fandango". O dono da casa recebeu-os com uma refeição e convidou-os para participar da dança.
Dança, aquilo? Os dois nunca tinham visto, até então, este modo de dançar.
Na realidade, pelos padrões europeus, aquilo não era uma dança e sim um bater com os pés no chão.
A música, uma moda monótona cantada por um ou dois tocadores de violão.
Nesta viagem tiveram também a primeira oportunidade de provar o chá brasileiro — a erva mate.
Um dia, um caboclo ofereceu-lhes chimarrão.
Como já estava anoitecendo e a claridade era pouca, o Weigang, não podendo distinguir o que havia dentro da cuia e julgando tratar-se de uma sopa, mexia com a bombilha no conteúdo e se servia.
Christian indagou o que era e ele respondeu, entre um engasgo e outro: "Eu não sei, mas esta ‘colher’ é que eu não sei manejar!" Logo o dono da casa voltou e por meio de gestos mostrou que, em vez de tomar, devia-se chupar pelo canudo a infusão.
Depois desta explicação, o mate agradou muito aos dois.
Após conseguir ocupação como carpinteiro em Curitiba, Christian mandou vir a família, que veio a pé e em lombo de burro, subindo por São Bento, numa viagem de muitos dias.
Próximo a Ambrósios, foram recebidos por uma família cabocla.
Ao partir, na manhã seguinte, a senhora trouxe um prato cheio de bolinhos de farinha de milho, dando a entender que eram um presente para as crianças.
Christinne apanhou com umas das mãos um bolinho, provou e apontando-o com a outra mão perguntou: "Mais? Mais?" E em alemão, a palavra milho escreve-se e fala-se "MAIS" (maisena). Naturalmente, a dona da casa trouxe outra porção.
Christinne aceitou e perguntou novamente: "Mais? Mais?" A dona da casa riu, e veio com uma terceira porção de bolos, a qual Christinne só aceitou depois de muita insistência.
As duas ficaram se olhando por algum tempo e em seguida despedi-ram-se.
Ambas devem ter percebido que teria havido algum mal entendido.
Mas qual?

Orlando Sírobel é engenheiro Civil, texto baseado em memórias de Gustav Hermann Strobel, avô do autor

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Histórias do Paraná - Falta alguém no Panteon

Histórias do Paraná - Falta alguém no Panteon

Falta alguém no Panteon
Túlio Vargas

Ao contrário do Panteon dos Heróis, levantado na Lapa, cujos nomes estão registrados perpetuamente, houve outras figuras intimoratas durante a invasão federalista, cujos feitos audazes ficaram no esquecimento.
Quando em janeiro de 1894 as tropas de Gumercindo Saraiva iniciaram o cerco ao povoado de Tijucas do Sul, o comandante da praça coronel Ismael Lago, determinou a retirada das mulheres dos soldados.
Estas resistiram à ordem, propondo-se a lavar roupa e prestar outros serviços domésticos.
Foi em vão. O chefe militar proibiu a presença delas no acampamento, mandando-as para Curitiba.
Uma exceção fora feita em favor da mulher de um sargento do 5o Batalhão de Engenharia.
Nas suas memórias de Revolução, Cândido Muricy descreve que ela "era uma mulata forte, de notável atividade, guiava uma carrocinha de duas rodas puxadas por um burro grande e que, por isso, era empregada na condução de coisas do hospital.
Todos a conheciam por Maria, a "Cantineira". A princípio ocupava-se, também, da lavagem de roupas de algumas oficiais.
Depois tornou-se a melhor e a mais solícita enfermeira que podíamos desejar.
Mulher decidida que, mais tarde, durante os terríveis combates, de revólver em punho, desafiando as balas inimigas, ajudou a socorrer os feridos e a conduzi-los da linha de frente para o hospital de sangue, onde várias vezes auxiliou os médicos nos curativos, preenchendo, também, espontaneamente a função de cozinheira dos doentes."
Muricy lembra ainda que foi ela a primeira a dar o alarme da aproximação da vanguarda revolucionária, atentos aos mínimos movimentos que se processavam na mataria das baixadas.
Veio gritando, espavorida: "Esta aí o inimigo! Preparem-se! Já estão brigando com a guarda que vem fugindo..." O tiroteio crescia e os primeiros sinais do ataque prenunciava a tempestade bélica.
"A violência da arremetida indicava a certeza que o inimigo tinha da vitória." Maria não se atemorizou como o volume das hostilidades.
Dividia-se na atenção e nos cuidados aos feridos que tombavam sob a fuzilaria. E, quando podia, municiava nas linhas de frente as posições de defesa. A desproporção entre as forças rebeldes e legais, aquelas em maioria esmagadora, demonstrava a inutilidade da resistência.
No dia 19 de janeiro deu-se a capitulação, quando Curitiba e Paranaguá já se encontravam em poder dos federalistas.
Nada mais se escreveu sobre a Maria "Cantineira". Não se sabe se sobreviveu à feroz batalha.
Que fim levou? Não recebeu condecorações, nem o reconhecimento de um registro nos boletins militares.
Mistura de Maria Quitéria, Ana Néri e Anita Garibaldi, ela faz parte daquela legião de desconhecidos que fazem a história no anonimato, sem esperar recompensa.
Sua proeza merece uma investigação mais profunda dos estudiosos da Revolução para que se lhe resgate a memória e se pratique justiça ao seu heroísmo, como anjo tutelar que foi.

Túlio Vargas, ex-deputado e membro da Academia Paranaense de Letras