Histórias do Paraná - Um dia sabor Coca-Cola
Um dia sabor Coca-Cola
Celso Antonio Rossi
Corria o ano de 1948. Jacarezinho fervilhava.
A cidade, uma das pioneiras do interior do Paraná a ter o seu cinema, acabara de participar da inauguração do moderníssimo Cine Éden, que substituía o antigo Éden Theatro, então erguido na praça Rui Barbosa, no longínquo ano de 1927 e que servira de palco aos mais importantes filmes e peças teatrais da época.
Plácido Bertozzi, seu entusiasmado proprietário, era um homem progressista.
Incansável na programação das "fitas", trazia para a cidade sempre os grandes lançamentos das capitais.
Aos domingos, monumentais matinês reuniam a gurizada daqueles tempos que acompanhava com rara fidelidade os capítulos dos seriados que se sucediam semanalmente, verdadeiros precursores, quem sabe, das novelas amais.
Nas revistas da época ("O Cruzeiro", "Revista do Rádio", "Seleções"...) as propagandas povoavam a imaginação de tantos quanto as les-sem: era o lançamento dos carros "Nash", "o aristocrata das estradas"..., ou o "som sinfônico" da Standar Eletric na apresentação de sua rádio-eletrola...; ou a Royal, "anunciando a melhor máquina de escrever jamais oferecida"...
Mas, dentre todas elas, uma chamava mais a atenção: a da Coca-Cola...
Com suas letras entrelaçadas, na cor vermelha, a meninada de então ficava a imaginar quando é que poderia saborear aquele refrigerante que se via nos filmes americanos e que embora de cor muito escura parecia trazer junto de si um sonho encantado da juventude...
Plácido Bertozzi mantinha em seu moderno cinema um barzinho que à época era por todos denominado de "bombonière", dirigido pelas filhas e até pelos netos, que se revezavam naquele pequeno serviço. E Plácido, sentindo o anseio da criançada, não teve dúvidas: mandou um portador até São Paulo, que trouxe algumas garrafas do misterioso refrigerante, e num domingo de matiné, entre surpresos e incrédulos, tínhamos à nossa frente a tão esperada Coca-Cola...
Mas ninguém se atrevia a ser o primeiro a ir tomá-la: E se o seu sabor não fosse como a propaganda dizia? ... Por fim, uma das netas de Plácido Bertozzi não teve dúvidas: abriu a garrafinha e, ante o olhar admirado e invejoso de todos que ali se encontravam, sorveu gostosamente a misteriosa bebida.
Dali para a correria ao pequeno balcão, foi um segundo.
Todos gritando, com as notas de cruzeiros balançando pelo ar, queriam ser atendidos logo, queriam experimentar (finalmente!) a "mundialmente famosa" mas, mais do que isto, queriam contar aos demais que já haviam tomado aquele refrigerante dos seus sonhos.
A quantidade, porém, era pequena para tanta gente.
Os que tinham conseguido comprar, eram invejados pelos outros que, encabulados e arrependidos pela indecisão não tiveram outro jeito a não ser aguardar a próxima remessa, que só chegou uns trinta dias depois.
Dali para diante, o interesse continuou o mesmo, pois o nosso desejo era de nos igualarmos aos jovens modernos das cidades grandes, para que pudéssemos também ser admirados pelas meninas de nossa cidade.
Até que a Coca-Cola entrou na rotina de nossas vidas, mas, para quem participou daqueles momentos na sala de espera do Cine Éden, defronte à sua bombonière, por certo que jamais terá se esquecido daquele distante dia de 1948, quando a Coca-Cola chegou a Jacarezinho.
Celso Antonio Rossi, advogado e diretor da Faculdade Estadual de Direito do Norte Pioneiro (jacarezinho)
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Histórias do Paraná - Jeitão paranaense
Histórias do Paraná - Jeitão paranaense
Jeitão paranaense
Oney Barbosa Borba
O francês Simon Eclache se encontrava na cidade de Castro quando os paulistas empunharam as armas contra a ditadura de Getúlio Vargas, em Julho de 1932. O francês residia em Cachoeirinha, hoje Arapoti.
Queira voltar para sua casa, mas os trens somente funcionavam para a guerra contra os paulistas.
Os poucos caminhões e carros haviam sido requisitados.
Sem condução para o levar, ele resolveu ir a pé mesmo.
Com a malinha nas costas, ao se aproximar de Piraí foi detido por um major da coluna comandada pelo Generaljoão Francisco.
João Francisco, coronel de galpão, comissionado no posto de general das tropas defensoras da ditadura, era riograndense da fronteira, conhecido pelo apelido de "tigre do Caverá". Diziam ser atrabilário, malvado e violento.
Os "guascas" da fronteira ao se despedirem diziam assim: "chegarei hoje mesmo lá, se Deus quiser, João Francisco e sua mulher..." Pelo casamento, até a mulher se transmudava em tigrona...
Simon Eclache foi recambiado no dia 29 de julho e entregue a Durval Marins, delegado de polícia de Castro, "para o fim de averiguar minha identidade e meus propósitos", como contou ele, posteriormente, em carta dirigida ao jornal da terra. O francês estava deveras apavorado com a exibição jactanciosa de seus captores.
Ele não conhecia esta gente.
Durval Marins teve que explicar-lhe que havia rompido um movimento rebelde em São Paulo e que as forças do governo ditatorial de Vargas cercaram as fronteiras paulistas, cortando as comunicações, para aguardar a rendição dos rebeldes.
Era uma questão de tempo. E ele, Simon, devia aguardar na delegacia que a poeira da guerra baixasse.
Naturalmente, os bombachudos não gostaram de ouvir o sotaque anasalado de Simon e implicaram com ele.
Era bom evitar contato com essa gente que andava armada e gostava de exibir-se no poder.
Antes de voltar para sua residência Simon endereçou carta sobre sua estada em Castro.
"A fidalguia e solicitude do preclaro Sr. Durval Marins, as bondosas atenções de todos os membros da Guarda Municipal, e a própria hospitalidade do carcereiro, digo-o em toda sinceridade e não por vã retórica, muito me penhoraram para com a cidade de Castro, que desta insólita maneira vim a conhecer."
"Desfeitas como bolhas de sabão as dúvidas que sobre mim pairavam, foi com real prazer que readquiri minha liberdade, que, aliás, apenas sofreu restrição muito relativa, pois fora-me poupado o vexame de ser hospedado numa cela."
"Como cidadão francês e homem educado, devo meus agradecimentos às autoridades e ao povo de Castro, e, de modo particular ao Sr Alfredo Gueniat e exma.
Sra. À cidade de Castro tão linda no quadro, tipicamente paranaense em que se acha engastada, desejo testemunhar meu reconhecimento. (a) Simon Eclache".
Paranaense é ser assim: cordial e cavalheiresco, principalmente com os estranhos, porque faz questão de ser e parecer bom.
Oney Barbosa Borba, escritor, residente em Castro
Jeitão paranaense
Oney Barbosa Borba
O francês Simon Eclache se encontrava na cidade de Castro quando os paulistas empunharam as armas contra a ditadura de Getúlio Vargas, em Julho de 1932. O francês residia em Cachoeirinha, hoje Arapoti.
Queira voltar para sua casa, mas os trens somente funcionavam para a guerra contra os paulistas.
Os poucos caminhões e carros haviam sido requisitados.
Sem condução para o levar, ele resolveu ir a pé mesmo.
Com a malinha nas costas, ao se aproximar de Piraí foi detido por um major da coluna comandada pelo Generaljoão Francisco.
João Francisco, coronel de galpão, comissionado no posto de general das tropas defensoras da ditadura, era riograndense da fronteira, conhecido pelo apelido de "tigre do Caverá". Diziam ser atrabilário, malvado e violento.
Os "guascas" da fronteira ao se despedirem diziam assim: "chegarei hoje mesmo lá, se Deus quiser, João Francisco e sua mulher..." Pelo casamento, até a mulher se transmudava em tigrona...
Simon Eclache foi recambiado no dia 29 de julho e entregue a Durval Marins, delegado de polícia de Castro, "para o fim de averiguar minha identidade e meus propósitos", como contou ele, posteriormente, em carta dirigida ao jornal da terra. O francês estava deveras apavorado com a exibição jactanciosa de seus captores.
Ele não conhecia esta gente.
Durval Marins teve que explicar-lhe que havia rompido um movimento rebelde em São Paulo e que as forças do governo ditatorial de Vargas cercaram as fronteiras paulistas, cortando as comunicações, para aguardar a rendição dos rebeldes.
Era uma questão de tempo. E ele, Simon, devia aguardar na delegacia que a poeira da guerra baixasse.
Naturalmente, os bombachudos não gostaram de ouvir o sotaque anasalado de Simon e implicaram com ele.
Era bom evitar contato com essa gente que andava armada e gostava de exibir-se no poder.
Antes de voltar para sua residência Simon endereçou carta sobre sua estada em Castro.
"A fidalguia e solicitude do preclaro Sr. Durval Marins, as bondosas atenções de todos os membros da Guarda Municipal, e a própria hospitalidade do carcereiro, digo-o em toda sinceridade e não por vã retórica, muito me penhoraram para com a cidade de Castro, que desta insólita maneira vim a conhecer."
"Desfeitas como bolhas de sabão as dúvidas que sobre mim pairavam, foi com real prazer que readquiri minha liberdade, que, aliás, apenas sofreu restrição muito relativa, pois fora-me poupado o vexame de ser hospedado numa cela."
"Como cidadão francês e homem educado, devo meus agradecimentos às autoridades e ao povo de Castro, e, de modo particular ao Sr Alfredo Gueniat e exma.
Sra. À cidade de Castro tão linda no quadro, tipicamente paranaense em que se acha engastada, desejo testemunhar meu reconhecimento. (a) Simon Eclache".
Paranaense é ser assim: cordial e cavalheiresco, principalmente com os estranhos, porque faz questão de ser e parecer bom.
Oney Barbosa Borba, escritor, residente em Castro
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Histórias do Paraná - O tesouro da Fortaleza
Histórias do Paraná - O tesouro da Fortaleza
O tesouro da Fortaleza
Luiz Romanguera Netto
A fazenda Fortaleza, hoje dividida em muitas outras fazendas, tem histórias contadas pelos seus antigos moradores que nos deixam perplexos.
Uma dessas divisões, a fazenda Três Meninas, fica no alto da chapada, de onde se descortina um dos panoramas mais bonitos do Paraná. Assim é que, para o seu lado sul, quase que em toda a extensão do horizonte, enxerga-se em primeiro plano a cidade de Tibagi e, em outra linha, o famoso "Canhão do Guartelá"; a leste, a serra das Fumas; ao norte, a cidade de Ventania; e, a oeste, a fazenda Monte Alegre, com seus intermináveis reflorestamentos. A vista alcança, em qualquer uma das direções, de 30 a 50 quilômetros.
E uma parte central do Estado, divisora entre o norte e o sul, onde poucas pessoas passam, a não ser aquelas que por lá vivem ou trabalham. Não é um lugar de passagem, se bem que a rodovia Transbrasiliana, já paga pelo governo federal (é o que dizem) e sem ter sido concluída, cruza o topo dessa chapada.
Nesse cenário maravilhoso, encontramos parte da história ainda por ser desvendada, de vez que até hoje, não se sabe o que aconteceu com o tesouro de José Félix da Silva, o senhor da Fortaleza.
Lá pelos idos do século XIX, mais ou menos em 1817, houve uma briga muito grande entre os índios que habitavam a região do Tibagi e os moradores da fazenda, saindo perdedores - é claro - os primeiros, ficando em uma restinga de campo para mais de cem mortos. O local, hoje denominado de "mortandade", ostenta muitas ossadas que, ocasionalmente, são desenterradas pelos tratores, em permanente trabalho de aração de terra.
Contam as histórias que José Félix, depois dessa investida e ainda mais por problemas pessoais com sua esposa Onistarda, que por diversas vezes tentara matá-lo, resolveu esconder o seu tesouro, reservando para mais tarde contar o local em que o enterrara.
Assim foi que um dia mandou seus capatazes, com uns peões e alguns escravos, fazer o rodeio do gado na Fazenda de Monte Alegre, afastando quase todos da sede da Fortaleza.
Chamou um escravo de confiança e com ele colocou as bruacas (mala de couro) em cima da mula, enchendo-as com seus have-res de maior valor.
Ali colocou as barras de ouro, os diamantes, as pratas e as moedas, produto da venda de muitas mulas e gado, além de algumas alfaias.
Pegou seu cavalo e ferramentas de sapa e, com o escravo, saiu ao raiar da manhã, indo até um lugar onde havia um ribeirão.
Ai chegando, desviou-o de seu curso e enterrou as bruacas no seu leito, para depois retorná-lo ao curso normal.
Naquela cova não ficara só o tesouro.
Ficaram também o escravo e a mula, mortos a faca.
Manoel Ignácio , seu neto, a quem iria contar o local onde ficara enterrado o tesouro, só ficou sabendo parte do acontecido, pois era muito jovem e a mulher de José Felix conseguira seu intento de envenenar o marido antes que este confidenciasse toda a história ao menino.
Assim foi que o segredo morreu com ele.
Até hoje, seguidamente aparecem pessoas que sonharam ou tiveram avisos e dizem saber onde ele está. Por falta de procurar é que ele ainda não foi encontrado.
Se um dia será encontrado não sei, mas que está bem guardado isso está, ainda mais com o fantasma do escravo a lhe proteger, duvido que tão cedo remexam em sua cova.
Luiz Romaguera Neto, membro do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Paraná
O tesouro da Fortaleza
Luiz Romanguera Netto
A fazenda Fortaleza, hoje dividida em muitas outras fazendas, tem histórias contadas pelos seus antigos moradores que nos deixam perplexos.
Uma dessas divisões, a fazenda Três Meninas, fica no alto da chapada, de onde se descortina um dos panoramas mais bonitos do Paraná. Assim é que, para o seu lado sul, quase que em toda a extensão do horizonte, enxerga-se em primeiro plano a cidade de Tibagi e, em outra linha, o famoso "Canhão do Guartelá"; a leste, a serra das Fumas; ao norte, a cidade de Ventania; e, a oeste, a fazenda Monte Alegre, com seus intermináveis reflorestamentos. A vista alcança, em qualquer uma das direções, de 30 a 50 quilômetros.
E uma parte central do Estado, divisora entre o norte e o sul, onde poucas pessoas passam, a não ser aquelas que por lá vivem ou trabalham. Não é um lugar de passagem, se bem que a rodovia Transbrasiliana, já paga pelo governo federal (é o que dizem) e sem ter sido concluída, cruza o topo dessa chapada.
Nesse cenário maravilhoso, encontramos parte da história ainda por ser desvendada, de vez que até hoje, não se sabe o que aconteceu com o tesouro de José Félix da Silva, o senhor da Fortaleza.
Lá pelos idos do século XIX, mais ou menos em 1817, houve uma briga muito grande entre os índios que habitavam a região do Tibagi e os moradores da fazenda, saindo perdedores - é claro - os primeiros, ficando em uma restinga de campo para mais de cem mortos. O local, hoje denominado de "mortandade", ostenta muitas ossadas que, ocasionalmente, são desenterradas pelos tratores, em permanente trabalho de aração de terra.
Contam as histórias que José Félix, depois dessa investida e ainda mais por problemas pessoais com sua esposa Onistarda, que por diversas vezes tentara matá-lo, resolveu esconder o seu tesouro, reservando para mais tarde contar o local em que o enterrara.
Assim foi que um dia mandou seus capatazes, com uns peões e alguns escravos, fazer o rodeio do gado na Fazenda de Monte Alegre, afastando quase todos da sede da Fortaleza.
Chamou um escravo de confiança e com ele colocou as bruacas (mala de couro) em cima da mula, enchendo-as com seus have-res de maior valor.
Ali colocou as barras de ouro, os diamantes, as pratas e as moedas, produto da venda de muitas mulas e gado, além de algumas alfaias.
Pegou seu cavalo e ferramentas de sapa e, com o escravo, saiu ao raiar da manhã, indo até um lugar onde havia um ribeirão.
Ai chegando, desviou-o de seu curso e enterrou as bruacas no seu leito, para depois retorná-lo ao curso normal.
Naquela cova não ficara só o tesouro.
Ficaram também o escravo e a mula, mortos a faca.
Manoel Ignácio , seu neto, a quem iria contar o local onde ficara enterrado o tesouro, só ficou sabendo parte do acontecido, pois era muito jovem e a mulher de José Felix conseguira seu intento de envenenar o marido antes que este confidenciasse toda a história ao menino.
Assim foi que o segredo morreu com ele.
Até hoje, seguidamente aparecem pessoas que sonharam ou tiveram avisos e dizem saber onde ele está. Por falta de procurar é que ele ainda não foi encontrado.
Se um dia será encontrado não sei, mas que está bem guardado isso está, ainda mais com o fantasma do escravo a lhe proteger, duvido que tão cedo remexam em sua cova.
Luiz Romaguera Neto, membro do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Paraná
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Histórias do Paraná - As hortências do Coronel
Histórias do Paraná - As hortências do Coronel
As hortências do Coronel
Hélio Teixeira
Há quem diga que o episódio ajudou a distenção lenta e gradual promovida pelo General Ernesto Geisel, na presidência da República.
Mas tudo nasceu de uma pequena nota perdida numa edição de sábado do jornal "O Estado do Paraná", narrando uma conferência que deveria ser singela do Lions Clube de Ponta Grossa, proferida pelo então Coronel Tarcísio Ferreira, comandante do 13° BIB. Enquanto Geisel distendia, a imprensa tinha "contraturas musculares" no trato de questões políticas, controlada pela censura federal e pela auto-censura.
Mas o bravo coronel Tarcísio soltou a língua diante dos atônitos "leões" pontagrossenses, fazendo severas críticas ao regime militar e especificamente ao presidente da República.
Na época, 1978, eu chefiava a sucursal da revista "Veja", no Paraná, e telefonei ao coronel comandante do BIB.
- Coronel, o senhor confirma o teor da sua conferência no Lions?
- Sim, meu filho, por quê?
- E que a ‘Veja" teria interesse em obter uma entrevista sua.
- Estou às ordens.
Venha para cá e às 18 h conversamos em minha casa.
A esta altura, o jornalista Luis
Manfredini, do "Jornal do Brasil", em Curitiba, fizera o mesmo e, para economizar no transporte, partimos ele, eu e o fotógrafo do jornal carioca, Carlos Sdroyewski, em busca da acalentada entrevista.
O velho gravador "National" gastou duas fitas de 45 minutos em perguntas e respostas, narrando o que seria toda uma articulação militar, com tentáculos em todo o país, visando sua rápida democratização.
Logo, muito distante da tese da gradualidade proposta por Geisel.
Para completar a reportagem, marcamos que, no dia seguinte, o coronel Tarcísio, às 8 horas da manhã, estaria podando as frondosas hortências do seu jardim e, na esquina, munido de uma poderosa tele-objetiva, o lépido Carlinhos Sdroyewski o fotografaria.
Palavra dada, palavra cumprida. O coronel, as hortências, o farto material para redação.
Aliás, generosas latinhas de cerveja foram consumidas num apartamento do Hotel São Marcos, em Ponta Grossa, por mim e por Manfredini, na retirada das declarações gravadas. "Tenho a maior força de blindados da 5a Região.
Meus contatos estão tanto no III como no I, II e no IV Exércitos.
Veja aqui minhas passagens de avião para São Paulo, Recife, etc.." O detalhamento de suas atividades com severas críticas ao presidente da República e ao regime davam a garantia a mim e a Manfredini que tínhamos uma verdadeira bomba na mão. E põe bomba nisso.
No final de semana, a "Veja", "Jornal do Brasil" e ainda "O Estado de São Paulo", com suas respectivas agências de notícias, levavam ao país as considerações nada simpáticas do coronel Tarcísio.
Resultado: as hortências do coronel não foram mais podadas por ele.
Foi aberto um IPM pelo comando da 5a Região Militar contra o coronel, que acabou preso, foi reformado e posteriormente absolvido num julgamento em que servi de testemunha. O coronel Tarcísio Ferreira pode ter superdimensionado suas articulações e seus blindados.
De qualquer forma, sua postura de se abrir à imprensa contribuiu para o Brasil retornar o caminho da democracia.
Hélio Teixeira, jornalista
As hortências do Coronel
Hélio Teixeira
Há quem diga que o episódio ajudou a distenção lenta e gradual promovida pelo General Ernesto Geisel, na presidência da República.
Mas tudo nasceu de uma pequena nota perdida numa edição de sábado do jornal "O Estado do Paraná", narrando uma conferência que deveria ser singela do Lions Clube de Ponta Grossa, proferida pelo então Coronel Tarcísio Ferreira, comandante do 13° BIB. Enquanto Geisel distendia, a imprensa tinha "contraturas musculares" no trato de questões políticas, controlada pela censura federal e pela auto-censura.
Mas o bravo coronel Tarcísio soltou a língua diante dos atônitos "leões" pontagrossenses, fazendo severas críticas ao regime militar e especificamente ao presidente da República.
Na época, 1978, eu chefiava a sucursal da revista "Veja", no Paraná, e telefonei ao coronel comandante do BIB.
- Coronel, o senhor confirma o teor da sua conferência no Lions?
- Sim, meu filho, por quê?
- E que a ‘Veja" teria interesse em obter uma entrevista sua.
- Estou às ordens.
Venha para cá e às 18 h conversamos em minha casa.
A esta altura, o jornalista Luis
Manfredini, do "Jornal do Brasil", em Curitiba, fizera o mesmo e, para economizar no transporte, partimos ele, eu e o fotógrafo do jornal carioca, Carlos Sdroyewski, em busca da acalentada entrevista.
O velho gravador "National" gastou duas fitas de 45 minutos em perguntas e respostas, narrando o que seria toda uma articulação militar, com tentáculos em todo o país, visando sua rápida democratização.
Logo, muito distante da tese da gradualidade proposta por Geisel.
Para completar a reportagem, marcamos que, no dia seguinte, o coronel Tarcísio, às 8 horas da manhã, estaria podando as frondosas hortências do seu jardim e, na esquina, munido de uma poderosa tele-objetiva, o lépido Carlinhos Sdroyewski o fotografaria.
Palavra dada, palavra cumprida. O coronel, as hortências, o farto material para redação.
Aliás, generosas latinhas de cerveja foram consumidas num apartamento do Hotel São Marcos, em Ponta Grossa, por mim e por Manfredini, na retirada das declarações gravadas. "Tenho a maior força de blindados da 5a Região.
Meus contatos estão tanto no III como no I, II e no IV Exércitos.
Veja aqui minhas passagens de avião para São Paulo, Recife, etc.." O detalhamento de suas atividades com severas críticas ao presidente da República e ao regime davam a garantia a mim e a Manfredini que tínhamos uma verdadeira bomba na mão. E põe bomba nisso.
No final de semana, a "Veja", "Jornal do Brasil" e ainda "O Estado de São Paulo", com suas respectivas agências de notícias, levavam ao país as considerações nada simpáticas do coronel Tarcísio.
Resultado: as hortências do coronel não foram mais podadas por ele.
Foi aberto um IPM pelo comando da 5a Região Militar contra o coronel, que acabou preso, foi reformado e posteriormente absolvido num julgamento em que servi de testemunha. O coronel Tarcísio Ferreira pode ter superdimensionado suas articulações e seus blindados.
De qualquer forma, sua postura de se abrir à imprensa contribuiu para o Brasil retornar o caminho da democracia.
Hélio Teixeira, jornalista
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Histórias do Paraná - Tudo ou nada na Jeca
Histórias do Paraná - Tudo ou nada na Jeca
Tudo ou nada na "Jeca"
Murilo Walter Teixeira
Cena concebida em Guarapuava nos anos quarenta.
Um piá, meio debochado, com seus onze anos bem vividos, chega próximo à turma e vai logo convidando para um jogo de "búrico".
Calça curta.
No bolso do lado esquerdo uma boa quantidade de bolas de gude. Pés no chão. O de-dão esfolado de algum tropicão. A poeira impregnada com resíduos de sangue localiza-se no canto da unha do dedão.
Na canela, uma linha transversal provocada por algum espinho.
Ainda se vê um pingo de sangue coagulado que principiava a escorrer.
No joelho da perna direita sinal de algum ferimento provocado por algum tombo; a "casca" da ferida em cicatrização destoava de sua pele clara.
- Querem jogar no "turco"ou na "nela"? — disse o guri.
No turco, cada parceiro, dois ou mais, colocam (caseiam) a bola em linha reta.
De uma certa distância procura-se atingir a primeira bola.
Aquele que o fizer, terá direito em prosseguir no jogo.
Ganha se acertar em mais de uma. O adversário "caseia" outra bola.
A "nela" é uma cavidade feita no solo (panela), arredondada com o calcanhar.
Haviam aqueles exímios nesse trabalho.
Joga-se de uma certa distância nesse buraco tentando introduzi-lo ou mesmo afastando a bola do adversário para dificultá-lo na ação de acertara a "nela". Era o tudo ou nada na "jeca". Esta "jeca" era a jogadeira de cada um.
Aquele que primeiro pronunciasse esta frase estaria livre do assédio do adversário e permitia, se possível, atingir a jogadeira do adversário, afastando o mais longe do palco da disputa.
Além das bolas normais com os mais diversos coloridos, havia aquelas especiais: pioquinho ou piolhinho.
Uma bola minúscula de uma cor forte com frisos de cores diversas. O carretão era grande, chegando ao tamanho de uma bola de ping-pong.
Para não escorregar nos dedos, os jogadores provocavam pequenas fraturas no vidro, dando mais segurança e facilidade em acertar a dos adversários.
Alguns, com força e maestria, rachavam ao meio a bola atingida, causando dissabor e humilhação, mormente ao ver sua "preciosa" jogadeira nesse estado.
O terreno nesse pequeno espaço ficava limpo, permitindo que os jogadores apresentassem as suas façanhas de craque.
Após algum tempo de peleja, até que alguém estivesse "liso", sobrando, às vezes, somente a jogadeira, desciam as ladeiras para algumas braçadas nos inúmeros "pocinhos" dos riachos que circundavam a cidade de Guarapuava.
Num colégio religioso do município de Prudentópolis, as freiras, não permitindo esse tipo de lazer, constantemente tomavam dos jovens as bolas de gude e introduziam por uma fresta no assoalho da casa, na esperança de acabar de vez com tal divertimento.
Mas algum jovem astucioso e audaz embrenhava-se pelo pequeno espaço do porão e, com certa dificuldade, recuperava seus "búricos". Curiosas, as freiras não atinavam como aqueles alunos adquiriam continuamente ditas bolas, num círculo interminável.
Murilo Walter Teixeira, dentista em Guarapuava
Tudo ou nada na "Jeca"
Murilo Walter Teixeira
Cena concebida em Guarapuava nos anos quarenta.
Um piá, meio debochado, com seus onze anos bem vividos, chega próximo à turma e vai logo convidando para um jogo de "búrico".
Calça curta.
No bolso do lado esquerdo uma boa quantidade de bolas de gude. Pés no chão. O de-dão esfolado de algum tropicão. A poeira impregnada com resíduos de sangue localiza-se no canto da unha do dedão.
Na canela, uma linha transversal provocada por algum espinho.
Ainda se vê um pingo de sangue coagulado que principiava a escorrer.
No joelho da perna direita sinal de algum ferimento provocado por algum tombo; a "casca" da ferida em cicatrização destoava de sua pele clara.
- Querem jogar no "turco"ou na "nela"? — disse o guri.
No turco, cada parceiro, dois ou mais, colocam (caseiam) a bola em linha reta.
De uma certa distância procura-se atingir a primeira bola.
Aquele que o fizer, terá direito em prosseguir no jogo.
Ganha se acertar em mais de uma. O adversário "caseia" outra bola.
A "nela" é uma cavidade feita no solo (panela), arredondada com o calcanhar.
Haviam aqueles exímios nesse trabalho.
Joga-se de uma certa distância nesse buraco tentando introduzi-lo ou mesmo afastando a bola do adversário para dificultá-lo na ação de acertara a "nela". Era o tudo ou nada na "jeca". Esta "jeca" era a jogadeira de cada um.
Aquele que primeiro pronunciasse esta frase estaria livre do assédio do adversário e permitia, se possível, atingir a jogadeira do adversário, afastando o mais longe do palco da disputa.
Além das bolas normais com os mais diversos coloridos, havia aquelas especiais: pioquinho ou piolhinho.
Uma bola minúscula de uma cor forte com frisos de cores diversas. O carretão era grande, chegando ao tamanho de uma bola de ping-pong.
Para não escorregar nos dedos, os jogadores provocavam pequenas fraturas no vidro, dando mais segurança e facilidade em acertar a dos adversários.
Alguns, com força e maestria, rachavam ao meio a bola atingida, causando dissabor e humilhação, mormente ao ver sua "preciosa" jogadeira nesse estado.
O terreno nesse pequeno espaço ficava limpo, permitindo que os jogadores apresentassem as suas façanhas de craque.
Após algum tempo de peleja, até que alguém estivesse "liso", sobrando, às vezes, somente a jogadeira, desciam as ladeiras para algumas braçadas nos inúmeros "pocinhos" dos riachos que circundavam a cidade de Guarapuava.
Num colégio religioso do município de Prudentópolis, as freiras, não permitindo esse tipo de lazer, constantemente tomavam dos jovens as bolas de gude e introduziam por uma fresta no assoalho da casa, na esperança de acabar de vez com tal divertimento.
Mas algum jovem astucioso e audaz embrenhava-se pelo pequeno espaço do porão e, com certa dificuldade, recuperava seus "búricos". Curiosas, as freiras não atinavam como aqueles alunos adquiriam continuamente ditas bolas, num círculo interminável.
Murilo Walter Teixeira, dentista em Guarapuava
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