Histórias do Paraná - 1964 e depois
1964 e depois
Valencio Xavier
Luís Carlos Prestes esteve no Paraná uns dez dias antes do golpe militar de 1964 - o golpe começou no dia 31 de março e deu certo no dia Io de abril.
Como 1o de abril é dia da mentira, depois de algum tempo da Ditadura Militar, o povo brasileiro, que não é bobo nem nada, já tinha percebido que fora obrigado a engolir uma sinistra mentira e aproveitava o dia do aniversário para gozar a "reboldoza", era a única coisa contra que dava para fazer naqueles tempos de censura, tortura e morte. E como coisa que milico golpista não tem é humor, trataram de antecipar as comemorações da sua "revolução" para 31 de março.
Coisas da ordem do dia até hoje.
Antes de falar da vinda de Prestes é bom dizer um pouco do clima daqueles tempos: naquele 64 as coisas se atropelavam.
Jango no governo, a direita com medo de um golpe de esquerda - ali ainda havia direita e esquerda - que tinha medo do golpe da direita. A direita jogava com todas as cartas: embaixada americana, USIS, CIA, dólar rolando, viagens pagas aos EUA, a ameaça do inferno, Padre Peyton que a pretexto de organizar a Marcha da Família mandava os fiéis de Curitiba espionarem os moradores do seu quarteirão marcando quem era de direita e
quem era de esquerda.
A esquerda dividida como sempre: os comunistas divididos entre o PCB de Prestes, o PC do B do Mão-Tse-Tung e os que pregavam a revolução sem se entenderem na Boca Maldita.
Todos meio contra Jango. Já Cuba nem se parecia com nenhuma dessas esquerdas, parecia coisa melhor.
O govemo do Estado enganava em cima do muro.
E ainda havia os que sonhavam Pão Paz e Prosperidade.
E nesse clima que Prestes, chefe do PCB, vêm à Curitiba para falar às esquerdas na sede do partido, um salão que por economia era também a redação do semanário vermelho A Tribuna do Povo.
Como na câmara dos deputados hoje, não havia quorum.
Quando muito umas vinte pessoas ardidamente esquerdistas.
Entre elas o secretário geral do PCB do Paraná, Agliberto Azevedo, revolucionário de 35, único líder sindical, alguns intelectuais de carteirinha, alguns comunistas históricos e outros nem tanto.
Havia até um maoísta, eu, peruano.
Todos sentadinhos em compungido silêncio escutando o grande revolucionário analisar o que estava acontecendo. O sensitivo Prestes, com sua candura, dizia coisas para ele certas, que queria certas para nós também. O único de pé, Agliberto, nos olhava do alto de sua sabedoria.
Lá pelas tantas, Prestes profetiza: 0 Jango está dono da situação, e nós com ele.
Ele conta com apoio militar e vai dar o golpe. Aí, nós comunistas tomamos o poder sem ter de disparar um só tiro.
Não sei se naquele momento aquela dúzia de gatos pingados, comunistas do Paraná, bateram palmas. Só me lembro da cara do Agliberto sorrindo com superioridade para nós como quem diz: <cViram?! Nós já somos o poder!"
Não sei, a única coisa que sei é que dez dias depois todos daquela sala e milhares de brasileiros, homens, mulheres, crianças, jovens, adultos e velhos estavam fugidos, escondidos, exilados, presos, torturados, mortos, humilhados e ofendidos pelos mais sangrento regime que este país jamais conheceu.
As vezes, lembro Prestes naquele dia e penso se ele acreditava mesmo naquilo que dizia ou... sei lá... cada um pense o que quiser.
Valendo Xavier, escritor, historiador e diretor de TV
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Histórias do Paraná - A capelinha do Bom Jesus
Histórias do Paraná - A capelinha do Bom Jesus
A capelinha do Bom Jesus
Astrogildo de Freitas
A cidade de Palmeira, neste Estado, cujo início de povoação data da segunda década do século dezenove, estava naquela época inteiramente envolvida na construção da sua igreja matriz, a fim de efetivar e completar a transferência, para a nova sede, da paróquia da Freguesia de Tamanduá, já em plena decadência, em face da entrega daquela capela para a congregação de frades carmelitas, que pleitearam e obtiveram a sua posse.
Em virtude da extensão da nave do templo majestoso que se construía, abranger boa parte da praça, alcançando até o cemitério ali existente, criou-se a necessidade da sua mudança para outro local.
Como é óbvio, essa necrópo-le ficou longe da igreja em "fabricação", termo usado para designar uma construção de maiores proporções, surgindo daí a necessidade de uma capela para serem oficiados os atos fúnebres impostos pelas tradições, usanças e ritos católicos. A capela do Senhor Bom Jesus, cujo termo de edificação está datado de 2 de dezembro de 1836, foi construída às expensas de quatro ou cinco moradores desejosos de terem os seus corpos sepultados em um templo católico conforme tradição secular.
O santuário situado na praça
Getúlio Vargas, mas com a frente voltada para a rua Jesuíno Marcondes, fez parte de um trio de capelas então existente na localidade.
As duas outras componentes eram a do Divino Espírito Santo, na quadra compreendida pelas ruas Pedro Ferreira e Padre Camargo, em estrutura de madeira de pinho e já desativada desde muito tempo. A outra, a de São Benedito, fechava lá no alto a dita ruajesuíno Marcondes.
Essa orada, construída de tijolos sem reboco, não resistiu as intempéries e foi destruída por uma tempestade, com forte e violento vendaval, restando em pé apenas parte da parede dos fundos onde se encontra o santo votivo. Não havendo condições pecuniárias para a irmandade, já bastante reduzida, para reconstruí-la, a opção adotada foi levar a efeito o prosseguimento da rua, hoje uma das mais importantes da urbe.
Voltando à capelinha do Bom Jesus, podemos dizer que a mesma foi construída não só para exéquias e enterramentos futuros, mas também e principalmente para abrigar o túmulo do tenente Manoel José de Araújo, fundador da povoação e sepultado em 1825. A construção do assoalho feita um pouco acima da lápide do jazigo, permitiu a sua acomodação no interior da capela.
Lateral ao muro dessa ermida, do lado de fora, encontrava-se a sepultura de José de Paula e Silva, filho do Barão de Ibicuí, que sendo suicida não teve permissão para o seu enterramento em cemitério secular.
Tempos depois, com a mudança do cemitério secular para a rua da Conceição, já na estrada que demandava o sul do estado,
desativou-se o da capelinha, sendo levado para o novo local o que ali restava de tradições e afetuosidade.
Astrogildo de Freitas, membro do Centro de Letras do Paraná
A capelinha do Bom Jesus
Astrogildo de Freitas
A cidade de Palmeira, neste Estado, cujo início de povoação data da segunda década do século dezenove, estava naquela época inteiramente envolvida na construção da sua igreja matriz, a fim de efetivar e completar a transferência, para a nova sede, da paróquia da Freguesia de Tamanduá, já em plena decadência, em face da entrega daquela capela para a congregação de frades carmelitas, que pleitearam e obtiveram a sua posse.
Em virtude da extensão da nave do templo majestoso que se construía, abranger boa parte da praça, alcançando até o cemitério ali existente, criou-se a necessidade da sua mudança para outro local.
Como é óbvio, essa necrópo-le ficou longe da igreja em "fabricação", termo usado para designar uma construção de maiores proporções, surgindo daí a necessidade de uma capela para serem oficiados os atos fúnebres impostos pelas tradições, usanças e ritos católicos. A capela do Senhor Bom Jesus, cujo termo de edificação está datado de 2 de dezembro de 1836, foi construída às expensas de quatro ou cinco moradores desejosos de terem os seus corpos sepultados em um templo católico conforme tradição secular.
O santuário situado na praça
Getúlio Vargas, mas com a frente voltada para a rua Jesuíno Marcondes, fez parte de um trio de capelas então existente na localidade.
As duas outras componentes eram a do Divino Espírito Santo, na quadra compreendida pelas ruas Pedro Ferreira e Padre Camargo, em estrutura de madeira de pinho e já desativada desde muito tempo. A outra, a de São Benedito, fechava lá no alto a dita ruajesuíno Marcondes.
Essa orada, construída de tijolos sem reboco, não resistiu as intempéries e foi destruída por uma tempestade, com forte e violento vendaval, restando em pé apenas parte da parede dos fundos onde se encontra o santo votivo. Não havendo condições pecuniárias para a irmandade, já bastante reduzida, para reconstruí-la, a opção adotada foi levar a efeito o prosseguimento da rua, hoje uma das mais importantes da urbe.
Voltando à capelinha do Bom Jesus, podemos dizer que a mesma foi construída não só para exéquias e enterramentos futuros, mas também e principalmente para abrigar o túmulo do tenente Manoel José de Araújo, fundador da povoação e sepultado em 1825. A construção do assoalho feita um pouco acima da lápide do jazigo, permitiu a sua acomodação no interior da capela.
Lateral ao muro dessa ermida, do lado de fora, encontrava-se a sepultura de José de Paula e Silva, filho do Barão de Ibicuí, que sendo suicida não teve permissão para o seu enterramento em cemitério secular.
Tempos depois, com a mudança do cemitério secular para a rua da Conceição, já na estrada que demandava o sul do estado,
desativou-se o da capelinha, sendo levado para o novo local o que ali restava de tradições e afetuosidade.
Astrogildo de Freitas, membro do Centro de Letras do Paraná
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Histórias do Paraná - Prestes em Renascença (II)
Histórias do Paraná - Prestes em Renascença (II)
Prestes em Renascença (II)
Darcy Antônio Pacce
Em sua passagem pelo Sudoeste e Oeste do Paraná, em 1924, a Coluna Prestes teve vários confrontos com tropas do governo, desde pequenos entreveros, escaramuças, até verdadeiras batalhas campais.
Na região de Renascença, o maior combate se deu junto ao rio São Francisco, perto de uma cachoeira.
Foi violento. Não existem relatos de quantos exatamente morreram ou ficaram feridos, mas alguns depoimentos orais de pessoas que residiam na região, nos dão idéia de como foi o tiroteio.
O grosso das tropas de Luís Carlos Prestes preparava-se para atacar Clevelândia.
No caminho, ia pondo para correr, com facilidade, grupos da Guarda Nacional, precariamente compostos por civis da própria região.
Na fuga, deixavam para os revoltosos os carregamentos de víveres e animais. O avanço fácil dos revoltosos acabou sendo detido, pouco antes do ataque à Clevelândia, pelas tropas federais comandadas pelo Coronel Paim.
Uma patrulha avançada do Coronel Paim, surpreendida por outra patrulha de Prestes ao atravessar a ponte do Rio São Francisco, um pouco acima da cachoeira ali existente, foi alvejada e obrigada a recuar. O grosso das tropas legalistas estendeu então uma linha de campo, entre as palmeiras e os buritis, e abriu fogo com metralhadoras pesadas.
Entrevistei Horácio Mariano da Silva, que estava entre os revoltosos.
Ele contou que a distância, no início do tiroteio era de aproximadamente 800 metros.
Logo começou a cair gente ao seu lado.
Os revolucionários, contava Horácio, tinham alguns veteranos que recolhiam os mortos e os jogavam na cachoeira, para não assustar os combatentes menos experientes com o grande número de baixas. E cada vez mais perto dava para ouvir, do lado das forças do governo, os gritos dos oficiais: "Dá-lhe negrada, não afrouxem, não afrouxem!"
Do São Francisco, os rebeldes foram recuando para Campo Erê, sempre combatendo, armando emboscadas às forças do Coronel Paim, para dar tempo do grosso das tropas rebeldes fugir, rumo a Foz do Iguaçu.
Uma dessas escaramuças foi travada na Fazenda Velha, também em Renascença, onde ainda hoje se encontram as sepulturas do Major Monteiro e de um revoltoso.
Quantos morreram nesse tiroteio? Ninguém sabe ao certo. Júlio Mariano, então garoto e morando na Fazenda Velha, garante que foram muitos.
Alguns dias depois do tiroteio, conta ele, era comum encontrar porcos arrastando pedaços de pessoas. O mau cheiro que vinha das beiradas das picadas era tão grande, lembra Mariano, que para ir à roça seu pai molhava um lenço com creolina e o levava ao nariz.
Com Luís Carlos Prestes expulso da região, o Coronel Paim convocou todos os que o tivessem auxiliado a se apresentar e devolver armas e munições.
Prometeu que nada de mal faria. O medo de represálias, porém, fez muita gente fugir para a Argentina.
Alguns voltaram logo, outros ficaram por um bom tempo, como o Horácio Mariano da Silva, que morou por lá dez anos.
Muitos ficaram para sempre.
Darcy Antonio Passos, professor de história em Renascença.
Prestes em Renascença (II)
Darcy Antônio Pacce
Em sua passagem pelo Sudoeste e Oeste do Paraná, em 1924, a Coluna Prestes teve vários confrontos com tropas do governo, desde pequenos entreveros, escaramuças, até verdadeiras batalhas campais.
Na região de Renascença, o maior combate se deu junto ao rio São Francisco, perto de uma cachoeira.
Foi violento. Não existem relatos de quantos exatamente morreram ou ficaram feridos, mas alguns depoimentos orais de pessoas que residiam na região, nos dão idéia de como foi o tiroteio.
O grosso das tropas de Luís Carlos Prestes preparava-se para atacar Clevelândia.
No caminho, ia pondo para correr, com facilidade, grupos da Guarda Nacional, precariamente compostos por civis da própria região.
Na fuga, deixavam para os revoltosos os carregamentos de víveres e animais. O avanço fácil dos revoltosos acabou sendo detido, pouco antes do ataque à Clevelândia, pelas tropas federais comandadas pelo Coronel Paim.
Uma patrulha avançada do Coronel Paim, surpreendida por outra patrulha de Prestes ao atravessar a ponte do Rio São Francisco, um pouco acima da cachoeira ali existente, foi alvejada e obrigada a recuar. O grosso das tropas legalistas estendeu então uma linha de campo, entre as palmeiras e os buritis, e abriu fogo com metralhadoras pesadas.
Entrevistei Horácio Mariano da Silva, que estava entre os revoltosos.
Ele contou que a distância, no início do tiroteio era de aproximadamente 800 metros.
Logo começou a cair gente ao seu lado.
Os revolucionários, contava Horácio, tinham alguns veteranos que recolhiam os mortos e os jogavam na cachoeira, para não assustar os combatentes menos experientes com o grande número de baixas. E cada vez mais perto dava para ouvir, do lado das forças do governo, os gritos dos oficiais: "Dá-lhe negrada, não afrouxem, não afrouxem!"
Do São Francisco, os rebeldes foram recuando para Campo Erê, sempre combatendo, armando emboscadas às forças do Coronel Paim, para dar tempo do grosso das tropas rebeldes fugir, rumo a Foz do Iguaçu.
Uma dessas escaramuças foi travada na Fazenda Velha, também em Renascença, onde ainda hoje se encontram as sepulturas do Major Monteiro e de um revoltoso.
Quantos morreram nesse tiroteio? Ninguém sabe ao certo. Júlio Mariano, então garoto e morando na Fazenda Velha, garante que foram muitos.
Alguns dias depois do tiroteio, conta ele, era comum encontrar porcos arrastando pedaços de pessoas. O mau cheiro que vinha das beiradas das picadas era tão grande, lembra Mariano, que para ir à roça seu pai molhava um lenço com creolina e o levava ao nariz.
Com Luís Carlos Prestes expulso da região, o Coronel Paim convocou todos os que o tivessem auxiliado a se apresentar e devolver armas e munições.
Prometeu que nada de mal faria. O medo de represálias, porém, fez muita gente fugir para a Argentina.
Alguns voltaram logo, outros ficaram por um bom tempo, como o Horácio Mariano da Silva, que morou por lá dez anos.
Muitos ficaram para sempre.
Darcy Antonio Passos, professor de história em Renascença.
domingo, 7 de dezembro de 2014
Histórias do Paraná - Prestes em Renascença (I)
Histórias do Paraná - Prestes em Renascença (I)
Prestes em Renascença (I)
Darcy Antônio Pacce
Com o movimento tenentista, a jovem oficialidade brasileira desejava mudanças políticas e colocar fim aos desmandos das oligarquias.
Ela culminou com a chamada "Coluna Prestes", uma tropa com até 1.600 homens que, sob comando do legendário Luís Carlos Prestes e de jovens oficiais, durante três anos percorreu dezenas de milhares de quilômetros do território nacional numa espécie de Grande Marcha, até se exilar na Bolívia, em 1927.
Em sua passagem pelo Sudoeste do Paraná, vinda do sul, em 1924, a Coluna Prestes esteve em nosso município, Renascença.
Pre-parava-se, então, para atacar Clevelândia, o que foi feito sob o comando de João Alberto e do coronel Fidêncio.
Eles contavam com 250 homens.
Prestes aguardava o resultado dessa ação para atacar Laranjeiras do Sul com outros 200 homens.
Em Clevelândia, esperavam os revoltosos capturar armas, munições e sobretudo mais adesões de voluntários.
Para conter o avanço da coluna foi mobilizada a Guarda Nacional, composta por pessoas da própria região, quase todos pequenos agricultores, nenhum soldado profissional. A coluna, por sua vez, também se abasteceu na região de "voluntários", muitos na marra.
Na localidade de Santana foi formado um corpo da Guarda sob comando do capitão comissionado José Carlos de Oliveira, de profissão cartorário.
Os recrutas vinham com seus cavalos.
Do governo recebiam o armamento, a munição (contada e vigiada), farda, botina, polaina, etc.
Uma madrugada, Prestes atacou de surpresa um grupo de trinta homens da Guarda que, despreocupados, festavam, tocando gaita e violão. O saldo foi um sargento, um cabo e quatro soldados mortos.
Foi então convocada a companhia do Santana, com 120 homens, acampada na localidade de Campo da Vargem.
O problema é que ninguém queria ir à luta, segundo o depoimento oral de um dos engajados, Antônio Nunes de Freitas. O "capitão" José Carlos de Oliveira mandou a tropa perfilar, fez um tocante discurso e convocou os voluntários a dar um passo à frente. Só dois o fizeram.
Acontece que, nas instruções, eles não haviam disparado um único tiro. "A quem faltasse uma bala no cinturão eram cobrados 1.500 réis", conta Antônio Nunes de Freitas.
Ele chegou a sugerir ao "capitão" que melhor seria atacar os revoltosos a coronhadas, já que ninguém havia disparado uma única vez os mosquetões, nem sabiam se os mesmos pegavam fogo. O "capitão" preferiu dispensar a tropa.
Mas não foi só a força legalista que teve problemas com os soldados improvisados.
Os revoltosos também.
Quando eles acamparam em Campo Erê, Prestes enviou piquetes em várias direções para convocar os homens a lutar a seu lado. A maioria fugia à simples aproximação dos revolucionários.
Outros foram ver do que se tratava, mas quando sabiam que era para participar das lutas arrumavam uma desculpa e não voltavam.
Houve alguns voluntários atraídos, quem sabe, pela oferta de carne, charque e fumo à vontade no acampamento, outros foram levados meio na marra.
Horácio Mariano da Silva, que estava entre os revoltosos, nos relatou que um sujeito apresen-tou-se a Prestes, montado numa eguinha vermelha, e explicou não poder ir lutar porque tinha uma bola na barriga, era rendido, e erguendo a camisa, mostrou o abcesso. "Para isso tem remédio", lhe respondeu um tenente. "No primeiro tiroteio, passa uma bala aí e já está curado."
Foi na marra. Ele e sua eguinha velha.
Darcy Antônio Pacce, professor de história em Renascença
Prestes em Renascença (I)
Darcy Antônio Pacce
Com o movimento tenentista, a jovem oficialidade brasileira desejava mudanças políticas e colocar fim aos desmandos das oligarquias.
Ela culminou com a chamada "Coluna Prestes", uma tropa com até 1.600 homens que, sob comando do legendário Luís Carlos Prestes e de jovens oficiais, durante três anos percorreu dezenas de milhares de quilômetros do território nacional numa espécie de Grande Marcha, até se exilar na Bolívia, em 1927.
Em sua passagem pelo Sudoeste do Paraná, vinda do sul, em 1924, a Coluna Prestes esteve em nosso município, Renascença.
Pre-parava-se, então, para atacar Clevelândia, o que foi feito sob o comando de João Alberto e do coronel Fidêncio.
Eles contavam com 250 homens.
Prestes aguardava o resultado dessa ação para atacar Laranjeiras do Sul com outros 200 homens.
Em Clevelândia, esperavam os revoltosos capturar armas, munições e sobretudo mais adesões de voluntários.
Para conter o avanço da coluna foi mobilizada a Guarda Nacional, composta por pessoas da própria região, quase todos pequenos agricultores, nenhum soldado profissional. A coluna, por sua vez, também se abasteceu na região de "voluntários", muitos na marra.
Na localidade de Santana foi formado um corpo da Guarda sob comando do capitão comissionado José Carlos de Oliveira, de profissão cartorário.
Os recrutas vinham com seus cavalos.
Do governo recebiam o armamento, a munição (contada e vigiada), farda, botina, polaina, etc.
Uma madrugada, Prestes atacou de surpresa um grupo de trinta homens da Guarda que, despreocupados, festavam, tocando gaita e violão. O saldo foi um sargento, um cabo e quatro soldados mortos.
Foi então convocada a companhia do Santana, com 120 homens, acampada na localidade de Campo da Vargem.
O problema é que ninguém queria ir à luta, segundo o depoimento oral de um dos engajados, Antônio Nunes de Freitas. O "capitão" José Carlos de Oliveira mandou a tropa perfilar, fez um tocante discurso e convocou os voluntários a dar um passo à frente. Só dois o fizeram.
Acontece que, nas instruções, eles não haviam disparado um único tiro. "A quem faltasse uma bala no cinturão eram cobrados 1.500 réis", conta Antônio Nunes de Freitas.
Ele chegou a sugerir ao "capitão" que melhor seria atacar os revoltosos a coronhadas, já que ninguém havia disparado uma única vez os mosquetões, nem sabiam se os mesmos pegavam fogo. O "capitão" preferiu dispensar a tropa.
Mas não foi só a força legalista que teve problemas com os soldados improvisados.
Os revoltosos também.
Quando eles acamparam em Campo Erê, Prestes enviou piquetes em várias direções para convocar os homens a lutar a seu lado. A maioria fugia à simples aproximação dos revolucionários.
Outros foram ver do que se tratava, mas quando sabiam que era para participar das lutas arrumavam uma desculpa e não voltavam.
Houve alguns voluntários atraídos, quem sabe, pela oferta de carne, charque e fumo à vontade no acampamento, outros foram levados meio na marra.
Horácio Mariano da Silva, que estava entre os revoltosos, nos relatou que um sujeito apresen-tou-se a Prestes, montado numa eguinha vermelha, e explicou não poder ir lutar porque tinha uma bola na barriga, era rendido, e erguendo a camisa, mostrou o abcesso. "Para isso tem remédio", lhe respondeu um tenente. "No primeiro tiroteio, passa uma bala aí e já está curado."
Foi na marra. Ele e sua eguinha velha.
Darcy Antônio Pacce, professor de história em Renascença
sábado, 6 de dezembro de 2014
Histórias do Paraná - Uma heroína no cerco da Lapa
Histórias do Paraná - Uma heroína no cerco da Lapa
Uma heroína no cerco da Lapa
Sydney Dittrich Zappa
Em fins de fevereiro de 1894, portanto já decorridos cem anos, mortos Carneiro, Dulcídio e Aminthas,
e terminado o cerco da Lapa, após longa e heróica resistência, durante a qual o troar dos canhões foi uma constante, os federalistas, sob o comando de Gumercindo Saraiva, tomando conta da cidade, que, já sem meios para prosseguir na luta, afinal capitulara.
Os revolucionários, que haviam entrado na cidade legendária, passaram, então, dispersados e em grupos, a dedicar-se ao saque e a execuções sumárias.
Um desses grupos acercou-se de um estabelecimento situado nas proximidades da antiga estação ferroviária, ainda fechado naquele dia, pertencente a Ângelo Vercesi, tronco de tradicional família curitibana.
Aproveitando-se da ausência do dono, os membros do referido agrupamento arrombaram a porta da casa comercial e passaram a retirar mercadorias.
Nesse preciso momento chegou o dono que, vendo o ataque ao seu patrimônio e possuído de justificável e incontida ira, mas sem a menor prudência diante das circunstâncias, investiu contra os ladrões.
Estes, de início surpresos com a investida, demoraram um pouco para reagir, pois na qualidade de vencedores e ocupantes da praça vencida, não poderiam acreditar que apenas um homem desarmado tivesse a ousadia de enfrentá-los.
Mas essa estupefação durou pouco.
Refeitos da surpresa, agarraram Ângelo e já se preparavam para degolá-lo (essa era a forma usual de eliminar os adversários vencidos) quando interveio uma mulher bastante jovem, pouco mais de vinte anos.
Essa mulher, Carolina Forigo Morganti, uma italiana de Mantova, cidade do norte da península e um dos berços do Renascimento, que ao casar com João Zappa, adotara o nome da família deste, juntamente com seus filhos menores, assistira aquela cena de sua casa, situada ali em frente, através de um buraco numa das paredes produzido por um impacto de artilharia durante o cerco.
Por isso, entre as alternativas de permanecer em casa, em segurança, apenas torcendo por desfecho favorável e intervir para salvar seu vizinho, o sangue quente peninsular falou mais alto.
Carolina saiu em disparada e, sozinha, enfrentou os soldados.
Primeiro, invocando os bons sentimentos destes, tentou dissuadi-los do assassinato do vizinho daquele modo primitivo e cruel.
Frustrada a tentativa, diante da determinação dos quase assassinos, teve idéia avassaladora: disse-lhes que Ângelo era doente da cabeça, um doido, acompanhando suas palavras com um gesto circular com a mão em torno da própria cabeça.
Diante dessa "informação", que a despeito de inverídica tinha forma de verossimilhança, em face do modo afoito e temerário com que o comerciante investira, os soldados, após alguma relutância, convenceram-se da invocada loucura.
Por isso, libertaram Ângelo, carregaram o produto do roubo e se retiraram do local, provavelmente para outros atos de violência.
A circunstância de Carolina ter presenciado a cena, sua decisão de intervir prontamente e o seu raciocínio rápido em momento de tensão, salvaram o vizinho e amigo de fim tão terrível como inglório.
A História da Revolução Federalista, nestes cem anos, tem glorificado, com justa razão, os heróis do cerco, por seus atos de bravura.
Mas heróis não são apenas os grandes guerreiros, mas também todos aqueles que, por suas virtudes e realizações, se elevaram acima do comum das pessoas.
Louve-se, pois, também essa heroína, essa mulher extraordinária, que depois de enfrentar e sofrer os perigos e as agruras do cerco e a quase destruição da sua casa e de sua família, teve ânimo e determinação, com risco pessoal, para resolver da melhor maneira tal situação.
Carolina Forigo Morganti Zappa é minha avó paterna.
Sydney Dittrich Zappa, Desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná
Uma heroína no cerco da Lapa
Sydney Dittrich Zappa
Em fins de fevereiro de 1894, portanto já decorridos cem anos, mortos Carneiro, Dulcídio e Aminthas,
e terminado o cerco da Lapa, após longa e heróica resistência, durante a qual o troar dos canhões foi uma constante, os federalistas, sob o comando de Gumercindo Saraiva, tomando conta da cidade, que, já sem meios para prosseguir na luta, afinal capitulara.
Os revolucionários, que haviam entrado na cidade legendária, passaram, então, dispersados e em grupos, a dedicar-se ao saque e a execuções sumárias.
Um desses grupos acercou-se de um estabelecimento situado nas proximidades da antiga estação ferroviária, ainda fechado naquele dia, pertencente a Ângelo Vercesi, tronco de tradicional família curitibana.
Aproveitando-se da ausência do dono, os membros do referido agrupamento arrombaram a porta da casa comercial e passaram a retirar mercadorias.
Nesse preciso momento chegou o dono que, vendo o ataque ao seu patrimônio e possuído de justificável e incontida ira, mas sem a menor prudência diante das circunstâncias, investiu contra os ladrões.
Estes, de início surpresos com a investida, demoraram um pouco para reagir, pois na qualidade de vencedores e ocupantes da praça vencida, não poderiam acreditar que apenas um homem desarmado tivesse a ousadia de enfrentá-los.
Mas essa estupefação durou pouco.
Refeitos da surpresa, agarraram Ângelo e já se preparavam para degolá-lo (essa era a forma usual de eliminar os adversários vencidos) quando interveio uma mulher bastante jovem, pouco mais de vinte anos.
Essa mulher, Carolina Forigo Morganti, uma italiana de Mantova, cidade do norte da península e um dos berços do Renascimento, que ao casar com João Zappa, adotara o nome da família deste, juntamente com seus filhos menores, assistira aquela cena de sua casa, situada ali em frente, através de um buraco numa das paredes produzido por um impacto de artilharia durante o cerco.
Por isso, entre as alternativas de permanecer em casa, em segurança, apenas torcendo por desfecho favorável e intervir para salvar seu vizinho, o sangue quente peninsular falou mais alto.
Carolina saiu em disparada e, sozinha, enfrentou os soldados.
Primeiro, invocando os bons sentimentos destes, tentou dissuadi-los do assassinato do vizinho daquele modo primitivo e cruel.
Frustrada a tentativa, diante da determinação dos quase assassinos, teve idéia avassaladora: disse-lhes que Ângelo era doente da cabeça, um doido, acompanhando suas palavras com um gesto circular com a mão em torno da própria cabeça.
Diante dessa "informação", que a despeito de inverídica tinha forma de verossimilhança, em face do modo afoito e temerário com que o comerciante investira, os soldados, após alguma relutância, convenceram-se da invocada loucura.
Por isso, libertaram Ângelo, carregaram o produto do roubo e se retiraram do local, provavelmente para outros atos de violência.
A circunstância de Carolina ter presenciado a cena, sua decisão de intervir prontamente e o seu raciocínio rápido em momento de tensão, salvaram o vizinho e amigo de fim tão terrível como inglório.
A História da Revolução Federalista, nestes cem anos, tem glorificado, com justa razão, os heróis do cerco, por seus atos de bravura.
Mas heróis não são apenas os grandes guerreiros, mas também todos aqueles que, por suas virtudes e realizações, se elevaram acima do comum das pessoas.
Louve-se, pois, também essa heroína, essa mulher extraordinária, que depois de enfrentar e sofrer os perigos e as agruras do cerco e a quase destruição da sua casa e de sua família, teve ânimo e determinação, com risco pessoal, para resolver da melhor maneira tal situação.
Carolina Forigo Morganti Zappa é minha avó paterna.
Sydney Dittrich Zappa, Desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná
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