terça-feira, 5 de julho de 2016

Histórias do Paraná - Paixão no Boqueirão

Histórias do Paraná - Paixão no Boqueirão

Paixão no Boqueirão
Roberto Jose da Silva

Mãos no alambrado do estádio "Santanão", o velhinho olha na direção de um gol e chora.
Quando desembarcou ali no Boqueirão, há quarenta anos, aquele terreno de 10 mil metros servia de pasto natural para o gado.
João Santana, paranaense de Campo Largo, olhos amendoados que lhe valeram de cara o apelido de "Japonês", plantava tomates e hortaliças. Não ganhava nem para a sobrevivência.
Era um apaixonado por futebol, por isso resolveu unir o útil ao agradável e fundou o Caxias — nome sugerido por soldado amigo de um quartel da região.
Quatro décadas vivendo desta paixão.
Por isso Santana hoje chora.
Recordações invadem sua alma.
Um caderno gasto pelo tempo é folheado e as lágrimas rolam com mais intensidade.
Ali ele registrou, com letra redondinha, todos os resultados dos jogos desde a fundação do "seu" rubro-negro.
Dez títulos da suburbana de Curitiba.
Santana tomou posse, cercou o terreno, plantou grama, fez sua casa, dois filhos com sua "mãezinha", dona Cecília Camerato, e se transformou num dos personagens mais conhecidos do mais populoso bairro da capital do
Paraná. Tudo por causa do Caxias Futebol Clube, do qual foi jogador, presidente, diretor, tesoureiro e técnico do tipo durão.
Nunca precisou ir atrás de jogador ou pagar para que envergassem a gloriosa camisa do seu time.
Sempre gostou daqueles que, como ele, amavam o Caxias. "Jamanta" foi o que mais lhe tocou o coração.
Tanto que mais lágrimas rolam no rosto enrugado pelos 63 anos de vida.
Parrudão, zagueiro de "arrepiar", virou segurança do dono do time nos jogos mais esquentados.
"Jamanta" morreu novo, do coração. E a morte é uma sombra que Santana vem querendo afastar já faz um tempo.
Por causa de uma insuficiência renal que há quatro anos o obriga a fazer três hemodiálises semanais no Hospital Evangélico, João Santana, neste tempo, só faz mesmo recordar os bons e maus momentos do seu Caxias.
Certa vez o Rancho Alegre tirou o título do time na última partida.
Santana, inconformado com o vice, teve um ataque de ódio dentro do ônibus que levava a delegação de volta para a sua casa-sede do clube. Só não atirou pela janela o troféu porque, de joelhos, Dionha, um jogador amigo, implorou para
guardar a taça como recordação.
Há quatro anos o "Santanão" só é palco de partidas entre times que o alugam no final de semana.
Nada de Caxias. O time, com a doença do seu fundador e dono, teve que pedir licença na Federação.
Por isso João Santana chora ao mirar com o olhar perdido aquele campo de futebol.
Chora o choro de alguém que viveu o Caxias e só vai sorrir de novo quando vir o seu rubro-negro do outro lado do alambrado.

Roberto José da Silva, jornalista

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Histórias do Paraná - O Agiota

Histórias do Paraná - O Agiota

O Agiota
Luiz Cláudio Mehl

O cidadão que cobra juros por empréstimos de dinheiro certamente é um espécime em extinção no nosso país.
Neste Brasil dos nossos tempos ele não suportaria a concorrência das taxas oficiais, além de ser incapaz de suprir a voracidade dos governos, principais tomadores de recursos.
Esta no entanto não era a realidade dos anos cinqüenta.
Naquela época os agiotas dividiam-se entre aqueles que extorquiam, e os que alavancavam empresas e pessoas com dificuldades momentâneas.
A história que segue aconteceu em Imbituva.
Pequena cidade do interior do Paraná, hoje florescente produtora de malhas, naquela época sede de importantes indústrias beneficiadoras de madeira.
O agiota que atendia Imbituva vinha toda semana de Ponta Grossa, visitava os "clientes", de quem cobrava juros devidos e indevidos.
Ele estava entre os que extorquiam as pessoas.
Os rumores de protesto alcançaram os ouvidos atentos do "seu" Eduardo Sponholz, que viria a ser tronco de ilustres figuras do nosso Estado.
Ele era uma espécie de cacique local e pertencia ao velho PSD.
A sociedade Imbituvense estava revoltada com o agiota. E isto também aborrecia o político experiente.
Numa tarde, enquanto aguardava o ônibus de retorno para Ponta Grossa, o agiota recebeu um estranho convite para "prosear" com "seu" Eduardo.
Dirigiu-se então para a casa localizada em frente ao ponto de ônibus. A porta de entrada ficava sempre aberta e levava a um extenso corredor onde era colocada uma mesa com duas cadeiras.
Dali "seu" Eduardo assistia a todos que chegavam, e saiam da cidade.
A "prosa" durou mais de uma hora, tempo em que o velho líder não parou de reabastecer a cuia de chimarrão com água fervente. O tom amigável da conversa surpreendeu o agiota, que ao final embarcou no ônibus de regresso.
No dia seguinte, logo na chegada do primeiro ônibus, "seu" Eduardo correu ansioso na direção do motorista, perguntando:
- "Olá compadre! Como foi a viagem de ontem?"
O motorista respondeu irritado:
- "Por três vezes fui obrigado a parar o ônibus a pedido daquele agiota.
Ele corria para o mato, e voltava pálido.
Na quarta vez, ele
desembarcou no posto fiscal".
Matreiramente, "seu" Eduardo afastou-se, sem disfarçar o sorriso zombeteiro quando lembrava da erva espinheira santa, um poderoso laxativo misturado ao chimarrão.
Desde então há informações de que os juros cobrados em Imbituva não ultrapassaram níveis além do tolerável.

Luiz Cláudio Mehl, engenheiro civil.

domingo, 3 de julho de 2016

Histórias do Paraná - A gloriosa mas breve, existência de Tamanduá

Histórias do Paraná - A gloriosa mas breve, existência de Tamanduá

A gloriosa mas breve, existência de Tamanduá
Ernesto Carvalho

Tamanduá - mesmo com esse nome - poderia ter sido uma das maiores cidades do Paraná, senão a maior, quem sabe até a Capital.
Ou então Iguatemi, São Bento do Tibagi, Nova Vila do Ivaí e Conceição do Caiacanga.
Vilas ou vilarejos cujos nomes hoje só se encontram em raros livros de história, tiveram em comum a relativa importância na segunda metade do século XVIII e o gradativo desaparecimento a partir de 1820.
Porque estranhos desígnios essas comunidades desapareceram é uma questão que nem sempre os livros de história conseguem esclarecer.
Mais que desaparecer, o que sucedeu a essas comunidades é que estacionaram, deixaram de crescer, sustentava o falecido historiador Davi Carneiro, fixado no óbvio efeito e também sem conseguir atinar com a causa.
De todas, Tamanduá teve a história mais curiosa.
Ela nasceu à mesma época em que Curitiba também nascia, como sede de uma fazenda nos campos do segundo planalto, a coisa de uma légua da atual Palmeira. E não foi pouca coisa, não.
Além de Curitiba, ensina Davi Carneiro em sua "História da Palmeira", em meados do século XVIII apenas quatro pontos tinham importância e se eqüivaliam em toda a vasta região dos campos gerais: Lapa, São José dos Pinhais, Castro e Tamanduá.
Por essa época, Tamanduá era uma cidade em formação, já estava constituída em freguesia, tinha tudo para continuar crescendo e vir a ser uma bela cidade.
Possuía uma simpática e atraente capela colonial devotada a Nossa Senhora da Conceição, várias famílias abastadas e seus agregados já moravam ali, tinha uma força miliciana e, de quando em quando, assistia à partida de grupos de aventureiros armados rumo à conquista do Oeste misterioso.
Tamanduá possuía, inclusive, um dos dois únicos conventos de Carmelitas de toda a comarca - o outro ficava em Santo Antônio do Capão Alto, que também poderia ter se transformado em cidade e não foi além de fazenda, a Fazenda Capão Alto, perto de Castro.
Quando passou por ali, em 1820, Tamandua chamou a atenção do naturalista francês Saint Hilaire, que arriscou um palpite, em seus escritos, prevendo que a cidade cresceria muito dali para diante.
Foi um palpite mais que infeliz.
Precisamente por essa época, começou a morte lenta de Tamanduá e o crescimento de um lugarejo vizinho de uma légua, que poucos anos antes não passava de um curral de vacas de um sítio abandonado.
Era a Freguesia Nova, fundada em 1817, que breve sobrepujaria Tamanduá com o nome de Palmeira.
Em 8 de dezembro de 1837, a imagem de Nossa senhora da Conceição foi transferida de Tamanduá para a igreja de Palmeira.
Era o golpe de misericórdia em Tamanduá, que definhou o que lhe restava definhar até se transformar em algumas ruínas. Já Palmeira, seria nos 50 anos seguintes a cidade mais importante de todo o interior do Paraná.
O que determinou a morte de Tamanduá e o surgimento, da noite para o dia e quase no mesmo lugar, da importante Palmeira? O destino, quem sabe.
Mas insondáveis são os mistérios do destino que decide, sem qualquer razão aparente, essa troca de papéis entre duas comunidades.

Ernesto Carvalho, radialista e pesquisador

sábado, 2 de julho de 2016

Histórias do Paraná - Hora da verdade

Histórias do Paraná - Hora da verdade

Hora da verdade
Francisco Brito de Lacerda

João Maria cuidava de suas irmãs, uma de sete, a outra de nove anos.
Os pais estavam na roça, quebrando milho.
O menino tinha muito medo de Nicola, um andarilho que costumava entrar ali de manhã, quase sempre embriagado, falando bobagens.
Quando isso acontecia, o pai longe, só a mãe em casa, passando a roupa ou mexendo o tacho, Nicola obrigava a pobre mulher a preparar-lhe cigarros.
Exigia o palheiro acesso.
Pela lentidão no preparo do cigarro, só de nervosa com o jeito dele, a mãe ouvia ameaças, palavrões.
Deitado no único quarto da casa, João Maria amanhecera com febre, tremelicante.
Nem podia cochilar direito.
Imbuído da condição de hominho da casa, recomendara às irmãs que não fossem lá fora, não abrissem a porta a ninguém.
Posta em toda a extensão da porta, uma tranca vedava o acesso de visitas.
Ainda assim, o menino não se sentia seguro.
Achando-se a morada na boca do mato, lugar ermo, em caso de precisão não havia como pedir socorro.
A fim de espiar se alguém chegava, duas vezes João Maria ficou em pé na cama, batendo o queixo.
Unindo os dedos da mão direita, esfregava-os no vidro da janelinha, embaçado.
Como acudir a febre, que subia demais? A mãe lhe deixara uma cápsula das três misturas.
Para poder engolir o remédio, pediu à irmã menor que lhe trouxesse uma caneca de chá bem quente. Só assim sossegou. A febre foi baixando.
Veio o sono.
Acordou com barulho de vozes, duvidoso se era sonho ou algo verdadeiro. O ruído vinha do outro cômodo.
Uma das meninas chorava.
Chorava de medo.
Levantou-se João Maria para apurar a ocorrência.
Sentado, Nicola prendia a de nove anos pelo vestidinho. Pôr a menina no colo era seu intento.
Agarrando um rachão, à toa no soalho, perto do fogo, João Maria deu duas bordoadas no homem, que caiu.
Mal quis erguer-se, o menino acertou-lhe outra bordoada, desta vez com o olho da enxada. A feição de quem ia morrer, o andarilho esmoreceu.
Na cozinha, forte aroma de alho desprendia-se do caldo de feijão, a concorrer com o cheiro suave da salsa crespa que enfeitava a salada de tomate.
Certo de que tinha cumprido acabrunhante dever, o menino pegou as irmãs pelas mãos.
Puxou-as em demanda do terreiro.
Sob efeito da cena terrível, elas não falavam, olhos unidos no homem que jazia estatelado ao pé da cadeira.
A caminho do rancho do avô, no outro lado do rio, os fugitivos a cada passo voltavam as cabecinhas. E viam a porta entreaberta, a fumaça saindo pela chaminé. De gorro, protegendo-se da friagem, João Maria parecia mesmo um hominho.

Francisco Brito de Lacerda, advogado

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Histórias do Paraná - Cana dura

Histórias do Paraná - Cana dura

Cana dura
Nilson Monteiro

Na bola ou na bala.
No feudo agri-doce da família Meneghel, em Bandeirantes, seu time alvinegro de futebol só pode conjugar um verbo: vencer.
Ou, trocando em miúdos, no estádio da Vila Maria, o bagaço é mais amargo para os adversários. E, de quebra, para os árbitros e bandeirinhas. A mística dos irmãos Coragem — Serafim e Antoninho — nasceu junto com seu time, nos anos 60, escorada nos cabos dos "Schmidt and Weston", caübre 38. Mas cresceu também respaldada por duplas tão maravilhosas quanto infernais dentro de campo, como Paquito e Tião Abatiá ou Geraldão Xesco ou Nondas e Russinho...
Em 1968, o União disputava, em Vila Maria, um jogo contra o Seleto, de Paranaguá, que, se perdesse, cairia fora da Divisão Especial.
Mas, acabou endurecendo a cena para o time dos Meneghel, que não admitiam outro resultado que não fosse a vitória.
Pelas tantas, o Seleto fez boteco da área do União, cujos zagueiros, em lance inevitável, cometeram pênalti.
Claro. O "juiz", com cara de bebê com mamadeira roubada, apitou.
Soprou e sobrou para ele.
Serafim alisou a barba, partiu pro meio de campo, formou-se o bolo, ouviu-se um estampido.
Meneghel, sob seu chapelão, jogou baforadas de cigarro de palha na cara do árbitro: "O que você marcou, seu safado?" Resposta: "Falta técnica contra o Seleto!"
Em outra ocasião e de novo para despencar da Divisão Especial, o Seleto foi mais uma vez protagonista das histórias de Vila Maria. O União Bandeirantes desta vez precisava empatar para disputar um quadrangular entre os primeiros classificados do Estado.
No primeiro tempo, o Seleto cansou de buscar a bola no fundo das redes: 5X1. A "dupla caipira" Paquito e Tião Abatiá estava simplesmente endiabrada.
Os Meneghel riam por todos os poros.
Começou o segundo tempo e a dar zebra: os jogadores do Seleto pareciam ter mamado até o receituário médico.
Com ou sem boletas, provocavam desesperos nos cardíacos: 5X5. Minutos antes do final do jogo, o "juiz" teve a santa imprudência de assinalar pênalti contra o União.
O pau quebrou. O árbitro ficou com as orelhas quentes de cascudos desferidos pelas mãos do massagista Saracotê, o goleiro Mão de Onça, do União, catimbava de um lado, o zagueiro Pescuma de outro, os Meneghel estimulavam a fumaça... Finalmente, não se sabe por graça de quem, Serafim e seus comandados recuaram.
Deixaram o atacante de Paranaguá colocar a bola na marca de cal para cobrar o pênalti.
Para fora, é claro.
Até hoje, contam que o artilheiro foi incentivado a "errar" o gol por uma boa soma de dinheiro e pelo cano do revólver de Aparecido Zavan, o popular "Leilão", o amigo da família Meneghel e na época diretor de futebol do União.

Nilson Monteiro, jornalista