sexta-feira, 15 de julho de 2016

Histórias do Paraná - O Paraná é fogo

Histórias do Paraná - O Paraná é fogo

O Paraná é fogo
Valêncio Xavier

Entre agosto e setembro de 1963, o Paraná pegou fogo.
Quase 650 mil alqueires de suas florestas, matas, plantações e pastagens foram consumidas pelas chamas, atingindo 128 municípios, numa área de cerca de 21 mil quilômetros quadrados.
Casas, fazendas, sítios, silos, galpões, paióis, estábulos e outras construções foram destruídas pelo fogo.
Um número incalculado até hoje de cabeças de gado, animais de criação e animais selvagens morrendo queimados.
Oficialmente, 964 pessoas ficaram feridas e 110 morreram.
Mas, ninguém sabe o numero exato de vítimas humanas deste flagelo que foi um dos maiores incêndios registrados no mundo, nos últimos anos, considerando-se a concentração de área, nas palavras de Merle Lowden, diretor da Divisão do Controle de Incêndios, do Ministério de Agricultura dos Estados Unidos, que veio dar ajuda no combate ao, aparentemente, incontrolável, incêndio do Paraná, em 1963.
O ano de 1963 não vinha sendo bom para o Paraná: seca inclemente no começo do ano, geada no inverno atingindo mais de 50% dos cafezais do Estado.
Para coroar a ano trágico, nos meados de setembro surge o terceiro cavaleiro do Apocalipse: um incêndio florestal que, por vezes, galopava a quase 20 quilômetros por hora.
O grande incêndio teria começado pelo cômodo costume brasileiro das queimadas para limpeza da terra para o plantio. A seca ajudou, e a falta de preparo para combater incêndios florestais fez o resto.
O fogo se propagava por todo o Estado.
Curitiba, a capital, tinha o céu coberto de cinzas que faziam o dia escurecer mais cedo.
Surgem os boatos: o grande incêndio teria começado quando o ex-governador Moyses Lupion pôs fogo na reserva de pinheiros de uma fábrica de papel em Arapoti para receber o seguro. A região foi uma das mais duramente atingidas, só ali morreram 27 pessoas. O excelente fotógrafo Rodolpho Goerke, de Jaguariaíva, fez as chocantes fotos dos 8 cadáveres carbonizados dos operários da Matarazzo que lutavam contra o incêndio.
Essas fotos serviram para acabar com outros boatos que diziam não existir incêndio nenhum, que tudo era invenção do então governador Ney Braga para conseguir dinheiro do Estado: o presidente João Goulart mandou auxílio imediato. Técnicos americanos em combate a incêndios florestais vieram em cima da hora.
Da esquadra americana, em manobras na costa brasileira, vieram medicamentos, alimentos e roupas para os flagelados. O governo Kennedy, através da Aliança para o Progresso, mandou um cíinheirão para a reconstrução do Estado. Vários países mandaram dinheiro, roupas e mantimentos para os flagelados, até a União Soviética.
O grande incêndio só acabou com a chegada das chuvas, no final de setembro.
As mesmas chuvas que tanto estrago fizeram ao Paraná neste setembro e outubro 30 anos depois.
Se os auxílios chegaram na mão dos flagelados? Muito tempo depois a gente via, na casa de políticos, latonas de leite em pó -novidade na época - com os dizeres "Doação do Povo Americano", ou escritas em russo.
Isso em plena Guerra Fria.

Valênáo Xavier, escritor e historiador.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Histórias do Paraná - O Padre Camargo

Histórias do Paraná - O Padre Camargo

O Padre Camargo
Luiz Romaguera Netto

Em 1918, nasceu na Freguesia da Vila Nova da Palmeira, José Antônio de Camargo e Araújo, filho de Antônio Joaquim de Camargo e Mathildes Umbelina da Glória, o velho Camargo, como era conhecido seu pai, figura de destaque tanto na Palmeira como em Guarapuava, onde foi um dos pioneiros.
A época era de lutas, conquistas, desbravamento de sertões; tudo por ser construído neste nosso Paraná. Seus irmãos e irmãs empenhados como seus pais nessa labuta diária, casaram-se e foram constituir suas famílias bem longe do rincão natal, uns em Palmas, outros em Guarapuava.
Ele e sua irmã Anna Maria, ficaram na Palmeira.
Já era moço, quando seu irmão mais velho, Antônio de Sá Camargo (mais tarde Visconde de Guarapuava) propôs a seus pais que fosse enviado a São Paulo para estudar, de vez que todos os outros não tiveram essa oportunidade, sendo que ele demonstrava pendores pela vida eclesiástica.
Os anos se passaram e, finalmente, em 8 de dezembro de 1848, assume a Paróquia da Freguesia o padre Camargo, coroando de êxito todas as expectativas da família, que queria ver o filho e irmão à frente da igreja. A alegria foi imensa!
A vida corria normalmente, quando, um belo domingo, ao oficiar a santa missa, notou linda menina moça, desconhecida de todos da cidade.
A "fraülein" de pele branca, cabelo loiro quase dourado, da cor da palha do müho, parecia uma santa. A menina moça despertou dentro dele o desejo, acendendo a paixão.
Assim, soube, desde a primeira vez que a viu, que o amor tinha lhe tocado, mexido com o seu mais íntimo sentimento.
Gertrudes (esse era o seu nome), com o coração batendo apressadamente, dirigiu-se ao confessionário, sem saber exatamente o que fazer.
Daí para frente, contam que o confessionário, ficou sendo o ponto de encontro dos dois.
Foi assim que conheceu a intenção dos pais dela em realizar o seu casamento com um dos rapazes da Colônia de São Leopoldo — RS, filho de amigos e companheiros desde a viagem da Alemanha para o Brasil.
Como ela não queria isto, tinha vindo com um tio e dois de seus irmãos para a 5a Província de São Paulo.
O noivo, não se conformando, veio atrás da prometida para oficializar o enlace.
Alguns dias antes do casamento, ela foi ao confessionário, onde declarou o seu amor pelo padre.
Combinaram então a fuga para viverem juntos.
Ele vacilou... e, na hora H, celebrou o casamento de Gertrudes com o outro, iniciando-se uma grande festa com um baile.
José Antônio com o coração partido e vendo a tristeza da noiva, ao sair lhe confidenciou que, quando todos estivessem entretidos com o baile, viria lhe buscar.
À noite, montado em seu cavalo, aproxima-se da casa. Lá estava Gertrudes a lhe esperar.
Dando-lhe a mão, ajuda-a a montar em sua garupa e, cobrindo-lhe com uma longa capa, partem a galope afastando-se da casa, ao encontro de seus destinos.
Esta história — que parece irreal - aconteceu no ano de 1849 na Freguesia da Palmeira e foi o início de uma grande parte da família Camargo no Paraná. Quanto a José Antônio Camargo, depois de largar a batina que envergara por seis anos e constituir uma família, foi por onze anos presidente da Câmara de Vereadores (equivalente a prefeito) de Palmeiras e outros 18 anos deputado provincial.

Luiz Romaguera Netto, advogado e membro do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Paraná

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Histórias do Paraná - Da cor do pecado

Histórias do Paraná - Da cor do pecado

Da cor do pecado
Luiz Groff

Era 1943 e a qualquer momento aqueles bravos rapazes do CPOR poderiam embarcar para a guerra.
A iminência do embarque era pura neura, mas o cinema ajudava a criar o clima. E como os rapazes dos filmes dissipavam a tensão dançando swing, os de Curitiba, dançavam bolero. Lá, com as namoradas, aqui com as putas.
Rua Mucicy, número 1000. Na esquina da Augusto Stelfeld, onde a ladeira acentua, lado esquerdo, que do direito era o muro das freiras do Divina Providência, ficava a Casa da Ginette.
Nos boleros arrombava Tedda Diamant, que chamava todo mundo de "mon Cherri" e se dizia francesa, mas era da Rondinha.
Fazia-se respeitar, no máximo acompanhava um champagne, mas não fazia mixê, só dava pro cafetão, o gringo do bandoneon, duplamente argentino, pelo nascimento e pelos cabelos nas têmporas.
Característica daquela época de moralismo e repressão, o bordel era estritamente familiar.
Dançar, só à distância, um mestre sala impedindo o encoxe.
No quarto, só com luz apagada e nada de beijo na boca. E se o "instante" se prolongava, lá vinha a indefectível batida na porta: - Jandira, pelo que pagou, este cara não está pensando que vai passar a noite, né?
Felizmente a tesão da rapaziada era feroz e, apesar da pressão, ninguém brochava, nem acabava no analista.
No meio da turma, destacava-se Estanislau Tomashek, dentista, que, curso mais curto, já trabalhava enquanto os outros ainda estudavam.
Competente, trabalhador, simpático, alto, louro, olhos azuis, seria um bom partido não fossem dois detalhes.
Era polaco e era dentista.
Na turma, era popular, já que sempre tinha dinheiro para pagar as contas.
Só se dava mal quando tentava namorar uma irmã de um amigo, porque daí pintava preconceito, levava um chute e a menina era mandada passar uns tempos no Rio, para esfriar a cabeça, porque Tomashek, apesar de ser polaco e dentista, era atraente, deixava saudades...
Naufragado na tristeza, Tomashek, a cada desilusão, se internava na Ginette, onde, carteira recheada, era rei.
Monopolizava a bela Paulette, irmã de Ginette, por parte dos "ettes", enchia os cornos de champagne e só saía na hora da casa
fechar.
E tinha de, porque os finalistas do começo da noite já punham olhos de lobo para cima de Paulette, apenas esperando o polaco ir embora, para traçar a caça.
Uma noite, nas adiantadas da matina, não agüentando mais o prepuxo, pois tinha canal bem cedo, explodiu:
- Paulette, vou deixar esta vida.
Quer casar comigo?
- Mais, non! Impossible! Você é dentista e polaco!

Luiz Groff, engenheiro e cronista

terça-feira, 12 de julho de 2016

Histórias do Paraná - O gol contra do plantão

Histórias do Paraná - O gol contra do plantão

O gol contra do plantão
Ernani Buchmann

Nenhum meio de comunicação tem histórias como o rádio, este veículo fantástico que é som e imaginação ao mesmo tempo.
Histórias de todos os gêneros, mas principalmente comédia. E dentro da comédia o rádio esportivo é insuperável. Não é para menos: o locutor esportivo é um improvisador, um criador de imagens, um animador de auditório, um mestre do suspense.
Certa vez, na Rádio Clube Paranaense, o plantão da equipe de esportes pediu demissão.
Cansado do atraso no salário, de ser obrigado a trabalhar fechado num estúdio nas tardes de domingo, do pouco reconhecimento da torcida - afinal, o plantão é uma voz sem rosto - o sujeito resolveu ir embora. E a equipe de Airton Cordeiro, líder de audiência, não sabia quem poderia cumprir a função.
Os bons plantões estavam todos empregados.
A solução foi chamar um rapaz alto, dono de voz possante, recém-chegado de São João do Caiuá.
- Marassi, você quer ser plantão esportivo? Perguntou o chefe da equipe.
- Olha, eu não entendo nada de futebol, mas se for para ganhar algum, por que não?
Airton Cordeiro acertou alguns caraminguás a mais para que o aprendiz de locutor fizesse o papel de plantão. E passou a anunciar a estréia de mais aquela revelação do rádio paranaense.
Domingo o campeonato teria uma infinidade de jogos.
Em Paranaguá jogariam Seleto local e União Bandeirantes.
No Alto da Glória, um Atletiba de casa cheia.
E chegou o dia.
No estádio a audiência da Rádio Clube era quase total. O sinal eletrônico da rádio era ouvido até por quem tinha esquecido o radinho. E o locutor não parava de anunciar a iminente entrada no ar do plantão.
Até que ouviu-se o vozeirão:
- Airton!
A torcida emudeceu.
Os jogadores pararam. O árbitro engoliu o apito.
As moscas pousaram.
Os picolés deixaram de derreter. E Airton respondeu:
- E a estréia do novo plantão da Rádio Clube, Carlos Marassi, a revelação que veio de longe.
Fala, Marassi!
Então a voz, aquela potente voz, proclamou, solene, pelas ondas longas, médias e curtas da Rádio Clube:
- Em Seleto: Paranaguá 1, União 0.

Ernani Buchmann, publicitário

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Histórias do Paraná - A visita da titia

Histórias do Paraná - A visita da titia

A visita da titia
Domingos Pellegrini

Quando ainda se cruzava o Tibagi de balsa, um casalzinho mudou para Londrina, ele pobre e ela de família paulista
quatrocentona — que achava morte em vida viver naquele sertão.
Então a tia solteirona resolveu dar uma olhada, numa visita surpresa.
Era do tipo que levava malas, maletas, bolsa, frasqueira, sombrinha, chapéu.
Saiu de Ourinhos, última etapa da viagem, diretamente do cabeleireiro para a jardineira.
Dali à Londrina era um pulo, disseram, e ela queria chegar como uma flor naquele fim de mundo, pronta até para levar a sobrinha de volta à civilização.
Imagine, viver numa cidadezinha no meio da mata!
Em 35 a jardineira ainda era aberta dos lados, com estribos, e as malas iam na capota.
Ela achou aquilo um horror.
Depois, quando o poeirão vermelho fechou a estrada de não se ver nem o motorista, ela mandou parar, disse que ia descer. O motorista parou e já ia tirando as malas, ela olhou a mata e resolveu continuar. O penteado ia endurecendo e avermelhando de poeira, como a folhagem da beira da estrada.
No Tibagi, tiveram de esperar a balsa e ela foi se lavar na beirada, caiu no rio, bem onde os pescadores limpavam peixe, num lodo de escamas e tripas.
Lavou-se como pode numa casa de caboclo, trocou de roupas e atravessou o rio fedendo peixe mas conformada: nada mais podia acontecer de ruim depois disso. Aí caiu um toró e, faltando tão pouco que viam a fumaça de Londrina, teve de ajudar a empurrar a jardineira. Não queria, mas o motorista falou: "Madame, ou todo mundo ajuda ou fica todo mundo."
Empurrando caiu de frente no barro vermelho, grudento, pediu pra morrer, mas o pior estava por vir: a jardineira atolou de vez e teriam de alcançar Londrina a pé. Ela falou que jamais ia abandonar as malas de estimação, e um sujeito barbudo, mais grosso que toco de açougue, disse que logo ia anoitecer e ela não conhecia os mosquitos dali. O homem se ofereceu para levar alguma coisa, ela deu a maleta, foi com a frasqueira.
Entre atoleiros e enxurradas ela foi vendo que ele até que era gentil, dava a mão para ajudar, não ria quando ele caía.
Deu sede, ele mostrou o caminho duma mina de água limpa e gelada.
Depois cortou uma palmeira a facão, ela falou que judiação.
Ele tirou o palmito da palmeira, tirou o miolo do palmito e ofereceu, ela provou, era uma delícia.
Fica melhor com mel, ele falou enfiando uma caneca num toco, tirou cheia de mel de jatai.
Mas o melhor mesmo é isto aqui - ele apresentou um cantil de uísque, que os ingleses da Companhia de Terras mandavam vir da Escócia.
Depois do terceiro gole ela disse que, afinal, a tal terra-vermelha também tinha algumas coisas boas. E você ainda não viu nada, disse ele, abraçando para ela não cair de novo.
Chegariam a Londrina com o cantil vazio, abraçados e cantando uma modinha.
No dia seguinte, quando contaram, ela quis morrer de vergonha mas nem teve tempo: ele já estava na porta com duas alianças de noivado e um caminhão carregado de sacas.
Disse que estava indo vender café, tinha aproveitado para perguntar se ela não queria casar. Não tenho muita coisa, ele falou, mas o que interessa mesmo você já conheceu ontem, não é?
Casaram em um mês, tiveram um nenê de oito meses; e ela, com seus finos modos, faria escola entre as senhoras e moças da Londrina pioneira. E sempre diria que terra boa, mesmo, é onde a gente se acha, sabe?

Domingos Pellegrini, escritor