Histórias do Paraná - As botas das moedas de ouro
As botas das moedas de ouro
Túlio Vargas
Não se trata de um conto de Grimm, nem de Andersen, mas de uma história realmente verdadeira. E sabido que os antigos não confiavam nos brancos para depositar dinheiro.
Usavam dos mais ardilosos artifícios para esconder as economias, longe dos olhos cobiçosos dos estranhos.
Conta o livro "Tenório — o homem e o mito", de Do Carmo Fortes, que o coronel Felino Tenório, parente e protetor do seu pai, costumava guardar a pecúnia em grandes baús, no porão da sede da fazenda, autênticos cofres-fortes vigiados por fiéis serviçais, armados até os dentes.
Aconteceu, certa vez, que a insalubridade do porão fez apodrecer o dinheiro em papel e as moedas perderam o valor, já fora de circulação.
Era assim que funcionava o sistema financeiro particular da época, apesar desses descuidos e prejuízos.
Era a rotina do sertão nordestino.
Havia outros ricos, todavia.
Desses exemplos, conta-nos Ermelino de Leão a morte de José Luiz Gomes, em Antonina.
Português trabalhador, bafejado pela fortuna, conquistou logo posição de relevo no comércio e na incipiente indústria do litoral.
Encontrava-se entre os homens mais ricos da
Província do Paraná.
Apesar de toda abastança era infeliz. Não gozou a ventura da paternidade e sofreu o desgosto de perder a esposa ainda jovem.
Direcionou todo seu afeto pela família restante.
Amparou o velho pai e a madrasta, mesmo quando viúva.
Preocupava-lhe o vulto dos seus haveres, entretanto.
Quase sozinho, sabia que despertava a inveja e a ambição dos que lhe cercavam.
Servia-lhe de cofre uma bota cheia de moedas de ouro.
Percebia os olhos compridos e atentos da criadagem.
Resolveu precaver-se.
Ocultou a bota, encravada em grossa parede, rebocada de novo.
Era esconderijo seguro.
Assim pensava.
Passaram-se os dias e semanas.
Certo domingo, ausente da fazenda os familiares, José Luiz praticamente só, aconteceu o assalto.
Os escravos assassinaram-no e fugiram depois do saque, levando tudo.
Desapareceu a poupança acumulada durante anos e anos.
Descoberto o crime, dona Dorothéia, a sogra, providenciou que, ao encalço dos criminosos, seguissem escoltas. E prometeu vultuoso prêmio a quem lhe trouxesse as cabeças.
O bandido homicida foi encontrado na ilha do Goulart.
Cercado, não resistiu.
Procedeu-se, então, a execução sumária.
Os cadáveres foram conduzidos para Antonina e depois para a fazenda de José Luiz.
Esquartejados e expostos em postes, como lição.
O desditoso lusitano deixou testamento, legando aos pobres parte de suas propriedades. O sítio do Pinheiros, com os engenhos, ao seu sobrinho e afilhado Francisco Cordeiro Gomes.
Esse crime, que abalou a população litorânea, modificou por algum tempo os hábitos em voga de guardar dinheiro em casa.
Túlio Vargas, ex-deputado, membro da Academia Paranaense de Letras.
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
Histórias do Paraná - São Tomé andou por aqui
Histórias do Paraná - São Tomé andou por aqui
São Tomé andou por aqui
Marina Martins Gouveia
Isso mesmo. São Tomé, o apóstolo que num primeiro momento duvidou da ressurreição de Cristo, andou por aqui.
Aqui mesmo, no Paraná. E em vida.
No século XVII, nenhum cristão vivente por estas plagas ousaria duvidar disso.
Afinal, foram os próprios pregadores jesuítas que se encarregaram de difundir a informação, logo transformada em verdade de fé. Os Padres até descreviam em detalhes o roteiro seguido pelo santo no território que hoje é o Paraná, as florestas que venceu, a caverna onde descansou, o rio em que saciou sua sede.
O jesuíta José Cataldino, por exemplo, numa narrativa de 1613, nos conta que São Tomé deixou seu rastro nas cabeceiras do Rio Piquiri, e também andou pela região de Guaíra e na foz do Iguaçu, onde pregava aos índios (o que pregava ele não diz), postado no penhasco mais alto das cataratas.
Isto, vale ressaltar, há quase dois mil anos, quinze séculos antes, portanto, do descobrimento do Brasil pelos portugueses.
Como o santo viajou da Palestina, onde vivia, até aqui foi um mistério por muitos e muitos anos.
Ele poderia ter se transportado milagrosa e instantaneamente, afinal era santo.
Mais recentemente, porém, o folclorista e crente Heitor Moniz dedicou-se a traçar os possíveis itinerários do santo desde o oriente até esta Terra de Santa Cruz.
Seriam três os possíveis caminhos, sustenta Moniz.
Os dois primeiros, atravessando o Atlântico, incluem uma passagem pela misteriosa Atlântida, o continente desaparecido. O terceiro, um roteiro do ocidente para o oriente, inclui passagens pela Ásia, Sibéria, estreito de Behring, Alasca, América do Norte e Central e, finalmente, o Brasil.
Qualquer que tenha sido o caminho, garante Moniz, "o reide do discípulo de Jesus terá sido o maior que se registra na história da humanidade."
Obviamente, São Tomé não esteve apenas no Paraná em sua passagem por terras brasileiras.
No nordeste se acredita que o santo também andou por lá, e em Pernambuco há marcas em pedra reverenciadas como pegadas indeléveis do santo.
Mas foi aqui, no Paraná, segundo pregavam os jesuítas, que lhe estava reservada uma missão vital.
Teria sido São Tomé quem apontou aos índios guaranis as propriedades nutricionais da erva-mate, ou "caá-Icira", bem como ensinou o seu modo de preparo.
Daí porque até hoje São Tomé é o protetor da erva-mate, que sustentou o primeiro grande ciclo econômico do estado.
E, sem dúvida, uma bela história essa que os jesuítas contavam.
Na verdade, soube-se tempos depois, os padres apenas se apropriaram de uma lenda indígena com o intuito de mais facilmente evangelizar os guaranis.
Pela lenda original, foi um enviado do próprio Tupã, chamado Zumé, quem ensinou aos índios o preparo e consumo do mate.
Zumé virou Tomé, o enviado do novo Tupã que os jesuítas vinham anunciar. A adaptação funcionou.
Apesar de nada original.
Marina Martins Gouveia, de Toledo, professora aposentada e pesquisadora
São Tomé andou por aqui
Marina Martins Gouveia
Isso mesmo. São Tomé, o apóstolo que num primeiro momento duvidou da ressurreição de Cristo, andou por aqui.
Aqui mesmo, no Paraná. E em vida.
No século XVII, nenhum cristão vivente por estas plagas ousaria duvidar disso.
Afinal, foram os próprios pregadores jesuítas que se encarregaram de difundir a informação, logo transformada em verdade de fé. Os Padres até descreviam em detalhes o roteiro seguido pelo santo no território que hoje é o Paraná, as florestas que venceu, a caverna onde descansou, o rio em que saciou sua sede.
O jesuíta José Cataldino, por exemplo, numa narrativa de 1613, nos conta que São Tomé deixou seu rastro nas cabeceiras do Rio Piquiri, e também andou pela região de Guaíra e na foz do Iguaçu, onde pregava aos índios (o que pregava ele não diz), postado no penhasco mais alto das cataratas.
Isto, vale ressaltar, há quase dois mil anos, quinze séculos antes, portanto, do descobrimento do Brasil pelos portugueses.
Como o santo viajou da Palestina, onde vivia, até aqui foi um mistério por muitos e muitos anos.
Ele poderia ter se transportado milagrosa e instantaneamente, afinal era santo.
Mais recentemente, porém, o folclorista e crente Heitor Moniz dedicou-se a traçar os possíveis itinerários do santo desde o oriente até esta Terra de Santa Cruz.
Seriam três os possíveis caminhos, sustenta Moniz.
Os dois primeiros, atravessando o Atlântico, incluem uma passagem pela misteriosa Atlântida, o continente desaparecido. O terceiro, um roteiro do ocidente para o oriente, inclui passagens pela Ásia, Sibéria, estreito de Behring, Alasca, América do Norte e Central e, finalmente, o Brasil.
Qualquer que tenha sido o caminho, garante Moniz, "o reide do discípulo de Jesus terá sido o maior que se registra na história da humanidade."
Obviamente, São Tomé não esteve apenas no Paraná em sua passagem por terras brasileiras.
No nordeste se acredita que o santo também andou por lá, e em Pernambuco há marcas em pedra reverenciadas como pegadas indeléveis do santo.
Mas foi aqui, no Paraná, segundo pregavam os jesuítas, que lhe estava reservada uma missão vital.
Teria sido São Tomé quem apontou aos índios guaranis as propriedades nutricionais da erva-mate, ou "caá-Icira", bem como ensinou o seu modo de preparo.
Daí porque até hoje São Tomé é o protetor da erva-mate, que sustentou o primeiro grande ciclo econômico do estado.
E, sem dúvida, uma bela história essa que os jesuítas contavam.
Na verdade, soube-se tempos depois, os padres apenas se apropriaram de uma lenda indígena com o intuito de mais facilmente evangelizar os guaranis.
Pela lenda original, foi um enviado do próprio Tupã, chamado Zumé, quem ensinou aos índios o preparo e consumo do mate.
Zumé virou Tomé, o enviado do novo Tupã que os jesuítas vinham anunciar. A adaptação funcionou.
Apesar de nada original.
Marina Martins Gouveia, de Toledo, professora aposentada e pesquisadora
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
Histórias do Paraná - Tragos
Histórias do Paraná - Tragos
Tragos
Nilson Monteiro
I
Bico do umbigo no balcão, ele não gasta saliva à toa. A língua, navalha para os inimigos e seda para os amigos.
Papo aceso, fácil, enfia-se pelas brechas do mundo, competente, garimpando
informação e batucando as teclas, viciado em notícias. E o mesmo a qualquer hora do dia: puro jornalista.
Com ou sem gelo.
Biritinha aparece na Redação da "Folha" às 8 da matina. E convida: "Vamos numa?" A essa hora, Biritinha??? A resposta é filosófica: "Cana não é remédio". Eu suspiro: as grades não são, realmente, solução.
Biritinha esfria: "Não tem hora para ser tomada". E, saltando de dois em dois degraus, vai pro balcão do Lema.
II
Doutor Vergara, louco de bueno, tchê! Foi, durante anos e anos, editor de notícias internacionais da "Folha de Londrina". Fanático torcedor do Internacional, sempre com uma camisa rubra dos pampas sob qualquer outra (aliás, outras sempre puídas nos punhos), o advogado Vergara ensinou a gerações da "Folha" os mistérios, segredos e o mais puro dia-a-dia do jornalismo.
De uma simplicidade aguda, não economizava emoções ao falar da dignidade da profissão, dos quilômetros de telex que devorava todo dia, das qualidades de seu velho Gordini, das mãos sujas do trabalho, também diário, em uma horta que supria a todos na Redação, do pomar cultivado em sua chácara...Falava alto, explosivo e amistoso.
Com todos nós, inclusive com seu filho, Vergarinha, que não sei se ainda trabalha na Revisão do jornal.
Tinha lá suas manias.
Uma delas: preparar a caipirinha que, sem modéstia, chamava de "a melhor do mundo". Depois de fechar sua página e deixar algum plantão escalado, nas tardes de sábado, juntava o bando na chácara onde morava. A receita: conversa das boas, pinga da melhor qualidade, açúcar, e limão.
Limão, aliás, colhido em plena sala de sua casa.
De um limoeiro que foi plantado, cresceu e aproveitou-se de enorme e descuidado buraco no piso para reinar na sala do doutor Vergara.
Garanto que era uma flor.
III
Tenente só trabalhava turbinado.
Na cidade ou na estrada, calibrava com a branquinha, separando, religiosamente, o gole do santo.
Na "Folha", onde ele trabalhou muitos anos, todos sabiam de seus tragos, mas poucos ligavam.
Atencioso, dirigia bem, respeitando as mais elementares leis do trânsito.
Era, sim, querido pelos repórteres: milongueiro, interessado e interessante, pleno de histórias, verdadeiras, inventadas, língua solta estalando.
Na boléia do fuscão, corria chão, costurando roteiros pelos botecos.
Pontual, não perdia compromisso. O jornal tinha que estar a tal hora em Paranavaí? Lá estava. O repórter tinha que chegar quase junto das notícias em Foz? Chegava. O fotógrafo tinha que se antecipar aos fatos em Maringá? Antecipava-se.
Tomava uminha antes, no bar ao lado da garagem da "Folha", e outras pelo caminho.
Mas, não cometia loucuras além dessa.
Naquela madrugada, lotou o Fusca de jornais (na década de 70, a "Folha" entregava os jornais pelo Estado com seus próprios carros) e, para espanto da turma da Circulação, não aceitou tomar a purinha.
Nenhuma.
Para espanto ainda maior dos botequeiros, velhos conhecidos, não parou em nenhum dos bares no mapa Londrina/Curitiba.
Na serra antes de Campo Largo, quase dia nascido, encostou o Fusca na proteção lateral da estrada.
Desligou o motor do carro. E o seu.
Nilson Monteiro, jornalista
Tragos
Nilson Monteiro
I
Bico do umbigo no balcão, ele não gasta saliva à toa. A língua, navalha para os inimigos e seda para os amigos.
Papo aceso, fácil, enfia-se pelas brechas do mundo, competente, garimpando
informação e batucando as teclas, viciado em notícias. E o mesmo a qualquer hora do dia: puro jornalista.
Com ou sem gelo.
Biritinha aparece na Redação da "Folha" às 8 da matina. E convida: "Vamos numa?" A essa hora, Biritinha??? A resposta é filosófica: "Cana não é remédio". Eu suspiro: as grades não são, realmente, solução.
Biritinha esfria: "Não tem hora para ser tomada". E, saltando de dois em dois degraus, vai pro balcão do Lema.
II
Doutor Vergara, louco de bueno, tchê! Foi, durante anos e anos, editor de notícias internacionais da "Folha de Londrina". Fanático torcedor do Internacional, sempre com uma camisa rubra dos pampas sob qualquer outra (aliás, outras sempre puídas nos punhos), o advogado Vergara ensinou a gerações da "Folha" os mistérios, segredos e o mais puro dia-a-dia do jornalismo.
De uma simplicidade aguda, não economizava emoções ao falar da dignidade da profissão, dos quilômetros de telex que devorava todo dia, das qualidades de seu velho Gordini, das mãos sujas do trabalho, também diário, em uma horta que supria a todos na Redação, do pomar cultivado em sua chácara...Falava alto, explosivo e amistoso.
Com todos nós, inclusive com seu filho, Vergarinha, que não sei se ainda trabalha na Revisão do jornal.
Tinha lá suas manias.
Uma delas: preparar a caipirinha que, sem modéstia, chamava de "a melhor do mundo". Depois de fechar sua página e deixar algum plantão escalado, nas tardes de sábado, juntava o bando na chácara onde morava. A receita: conversa das boas, pinga da melhor qualidade, açúcar, e limão.
Limão, aliás, colhido em plena sala de sua casa.
De um limoeiro que foi plantado, cresceu e aproveitou-se de enorme e descuidado buraco no piso para reinar na sala do doutor Vergara.
Garanto que era uma flor.
III
Tenente só trabalhava turbinado.
Na cidade ou na estrada, calibrava com a branquinha, separando, religiosamente, o gole do santo.
Na "Folha", onde ele trabalhou muitos anos, todos sabiam de seus tragos, mas poucos ligavam.
Atencioso, dirigia bem, respeitando as mais elementares leis do trânsito.
Era, sim, querido pelos repórteres: milongueiro, interessado e interessante, pleno de histórias, verdadeiras, inventadas, língua solta estalando.
Na boléia do fuscão, corria chão, costurando roteiros pelos botecos.
Pontual, não perdia compromisso. O jornal tinha que estar a tal hora em Paranavaí? Lá estava. O repórter tinha que chegar quase junto das notícias em Foz? Chegava. O fotógrafo tinha que se antecipar aos fatos em Maringá? Antecipava-se.
Tomava uminha antes, no bar ao lado da garagem da "Folha", e outras pelo caminho.
Mas, não cometia loucuras além dessa.
Naquela madrugada, lotou o Fusca de jornais (na década de 70, a "Folha" entregava os jornais pelo Estado com seus próprios carros) e, para espanto da turma da Circulação, não aceitou tomar a purinha.
Nenhuma.
Para espanto ainda maior dos botequeiros, velhos conhecidos, não parou em nenhum dos bares no mapa Londrina/Curitiba.
Na serra antes de Campo Largo, quase dia nascido, encostou o Fusca na proteção lateral da estrada.
Desligou o motor do carro. E o seu.
Nilson Monteiro, jornalista
terça-feira, 2 de agosto de 2016
Histórias do Paraná - Papai Noel x Vovô índio
Histórias do Paraná - Papai Noel x Vovô índio
Papai Noel x Vovô índio
Ruy C. Wachomcz
No final do século XIX e início do XX, eram bastante acentuados os conflitos aculturativos detectados na sociedade curitibana.
Os estrangeiros com seus descendentes formavam um contingente respeitável na formação da população.
Em tais circunstâncias, eram inevitáveis as trocas e influências etno-culturais existentes.
Procurando minimizar essa aculturação, alguns elementos de origem luso-brasileira, que se consideravam "patriotas" e "nacionalistas", começavam a criticar as influências que os imigrantes já começavam a exercer.
Esse comportamento detectava-se inclusive nas festas e nas tradições natalinas comemoradas de formas variadas pelos diversos grupos.
No Paraná, os luso-brasileiros praticamente não possuíam tradições natalinas.
No máximo era uma ceia, o comparecimento à tradicional "missa do galo" e bailes onde destacava-se uma "caboclinha no jeito", uma "chimarrita" e o violeiro no fundo do salão, cercado de inúmeros admiradores.
A partir da segunda metade do século XIX, nas colônias ao derredor da capital surgem as figuras do "presepe", do "pinheirinho" e pouco mais tarde o chamativo Papai
Noel. O presépio foi melhor aceito pelos luso-brasileiros: afinal já existia o culto do "Menino Jesus" oriundo de Portugal.
Com relação ao "pinheirinho" e à figura do Papai Noel, as reações foram mais fortes.
Os "pinheirinhos" cobertos de pedaços de algodão, imitando a neve e enfeitados com objetos reluzentes (considerados quinquilharias desgraciosas), eram costumes introduzidos na cidade pelos alemães e poloneses. O algodão imitando a neve era visto como costume anti-brasileiro, deformador da mente infantil, já que em dezembro não havia neve e a temperatura podia chegar a 30°C.
Foi o Papai Noel a figura que recebeu mais críticas.
Essa tradição, oriunda do folclore nórdico, foi introduzida no Brasil, sob a versão francesa, e divulgado no mundo pelo capitalismo protestante.
Alguns em Curitiba viam-no sob a ótica do ridículo, vestido de "capotes siberianos" e peles "groelândicas", andando de trenó, e tendo seus cabelos, barba e rebuço salpicados de flocos de neve: exotismo caricato.
Era assim que "eles" (os imigrantes) comemoravam o nascimento do Menino Jesus.
Logo após a Revolução de 30, com o nacionalismo à flor da pele, cariocas, paulistas e paranaenses tentaram substituir essa figura escandinava por uma outra, "tupiniquim", mais brasileira.
Criaram a figura do "Vovô índio", substituto artificial da figura do Papai Noel.
Pensavam seus criadores que estavam dando o primeiro passo para "abrasileirar o Brasil".
Ruy C. Wachomcz historiador e professor da UFPR
Papai Noel x Vovô índio
Ruy C. Wachomcz
No final do século XIX e início do XX, eram bastante acentuados os conflitos aculturativos detectados na sociedade curitibana.
Os estrangeiros com seus descendentes formavam um contingente respeitável na formação da população.
Em tais circunstâncias, eram inevitáveis as trocas e influências etno-culturais existentes.
Procurando minimizar essa aculturação, alguns elementos de origem luso-brasileira, que se consideravam "patriotas" e "nacionalistas", começavam a criticar as influências que os imigrantes já começavam a exercer.
Esse comportamento detectava-se inclusive nas festas e nas tradições natalinas comemoradas de formas variadas pelos diversos grupos.
No Paraná, os luso-brasileiros praticamente não possuíam tradições natalinas.
No máximo era uma ceia, o comparecimento à tradicional "missa do galo" e bailes onde destacava-se uma "caboclinha no jeito", uma "chimarrita" e o violeiro no fundo do salão, cercado de inúmeros admiradores.
A partir da segunda metade do século XIX, nas colônias ao derredor da capital surgem as figuras do "presepe", do "pinheirinho" e pouco mais tarde o chamativo Papai
Noel. O presépio foi melhor aceito pelos luso-brasileiros: afinal já existia o culto do "Menino Jesus" oriundo de Portugal.
Com relação ao "pinheirinho" e à figura do Papai Noel, as reações foram mais fortes.
Os "pinheirinhos" cobertos de pedaços de algodão, imitando a neve e enfeitados com objetos reluzentes (considerados quinquilharias desgraciosas), eram costumes introduzidos na cidade pelos alemães e poloneses. O algodão imitando a neve era visto como costume anti-brasileiro, deformador da mente infantil, já que em dezembro não havia neve e a temperatura podia chegar a 30°C.
Foi o Papai Noel a figura que recebeu mais críticas.
Essa tradição, oriunda do folclore nórdico, foi introduzida no Brasil, sob a versão francesa, e divulgado no mundo pelo capitalismo protestante.
Alguns em Curitiba viam-no sob a ótica do ridículo, vestido de "capotes siberianos" e peles "groelândicas", andando de trenó, e tendo seus cabelos, barba e rebuço salpicados de flocos de neve: exotismo caricato.
Era assim que "eles" (os imigrantes) comemoravam o nascimento do Menino Jesus.
Logo após a Revolução de 30, com o nacionalismo à flor da pele, cariocas, paulistas e paranaenses tentaram substituir essa figura escandinava por uma outra, "tupiniquim", mais brasileira.
Criaram a figura do "Vovô índio", substituto artificial da figura do Papai Noel.
Pensavam seus criadores que estavam dando o primeiro passo para "abrasileirar o Brasil".
Ruy C. Wachomcz historiador e professor da UFPR
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Histórias do Paraná - Beau Gest frustrado
Histórias do Paraná - Beau Gest frustrado
Beau Gest frustrado
Haroldo Frota
O ano de 1963 transcorria calmo e tórrido.
Calmo para nós, jovens de 18 anos, que ainda não nos dávamos conta das inquietações políticas que culminaram na revolução de 64, e tórrido no sentido literal, mercê de uma estiagem prolongada e dos imensos incêndios florestais que assolavam o Estado, tornando Curitiba ainda mais cinzenta.
Piolli, como eu, era recruta na saudosa 5" Companhia do Quartel General, sediada no velho quartel da Rui Barbosa, hoje misto de terminal de ônibus e mercado persa.
De família abastada, era do tipo folgazão e um tanto avesso a rigorismos de conduta, muito embora fosse uma pessoa boa e responsável, fato que me levou a elegê-lo como amigo.
Eu, por meu turno, tinha algumas manias não muito condizentes com a idade.
Atravessava a rua na faixa, gostava de música clássica, não pisava na grama e não jogava lixo no chão, dentre outras coisas.
Findo o Treinamento Militar, e logo após o Rancho (almoço), nossa missão era nos deslocarmos ao Quartel General da 5* Região Militar, que na época ocupava o prédio hoje conhecido como O Solar do Barão, onde desempenhávamos atividades diversas.
Piolli era motorista e eu funcionava como revisor do Boletim Diário editado pelo QG, fazendo as vezes de um Sub-Tenente cujo nome já esqueci.
Um certo dia, recebemos tangerinas como sobremesa do almoço, e imediatamente iniciamos a caminhada até o Quartel, onde nosso expediente começava meia hora depois.
Fui descascando minha fruta e guardando as cascas na mão, para jogá-las na primeira lata de lixo que encontrasse.
Piolli, como sempre irreverente, ia jogando cascas pra tudo quanto é canto, deixando um rastro na calçada, o que naturalmente mereceu minha censura, já que nossa amizade me permitia essa liberdade.
Quando chegamos na Rua XV de Novembro, e Piolli já tinha jogado no chão todas as suas cascas, indiferente aos meus reclamos, avistei uma daquelas latinhas de lixo suspensas em poste de luz, que então eram feitas de lata.
Era exatamente o que eu precisava.
Orgulhoso do meu "Beau Gest", e ávido por dar um bom exemplo ao meu "porcolino" amigo, aproximei-me da lata de lixo e, teatralmente, ali depositei as cascas que mantinha na mão.
O efeito não poderia ter sido mais desastroso. A maldita lata de lixo, enferrujada, estava já sem fundo e as cascas, obviamente, espalharam-se todas pela calçada, fazendo meu companheiro se contorcer de tanta risada.
Haroldo Frota, bacharel em Direito
Beau Gest frustrado
Haroldo Frota
O ano de 1963 transcorria calmo e tórrido.
Calmo para nós, jovens de 18 anos, que ainda não nos dávamos conta das inquietações políticas que culminaram na revolução de 64, e tórrido no sentido literal, mercê de uma estiagem prolongada e dos imensos incêndios florestais que assolavam o Estado, tornando Curitiba ainda mais cinzenta.
Piolli, como eu, era recruta na saudosa 5" Companhia do Quartel General, sediada no velho quartel da Rui Barbosa, hoje misto de terminal de ônibus e mercado persa.
De família abastada, era do tipo folgazão e um tanto avesso a rigorismos de conduta, muito embora fosse uma pessoa boa e responsável, fato que me levou a elegê-lo como amigo.
Eu, por meu turno, tinha algumas manias não muito condizentes com a idade.
Atravessava a rua na faixa, gostava de música clássica, não pisava na grama e não jogava lixo no chão, dentre outras coisas.
Findo o Treinamento Militar, e logo após o Rancho (almoço), nossa missão era nos deslocarmos ao Quartel General da 5* Região Militar, que na época ocupava o prédio hoje conhecido como O Solar do Barão, onde desempenhávamos atividades diversas.
Piolli era motorista e eu funcionava como revisor do Boletim Diário editado pelo QG, fazendo as vezes de um Sub-Tenente cujo nome já esqueci.
Um certo dia, recebemos tangerinas como sobremesa do almoço, e imediatamente iniciamos a caminhada até o Quartel, onde nosso expediente começava meia hora depois.
Fui descascando minha fruta e guardando as cascas na mão, para jogá-las na primeira lata de lixo que encontrasse.
Piolli, como sempre irreverente, ia jogando cascas pra tudo quanto é canto, deixando um rastro na calçada, o que naturalmente mereceu minha censura, já que nossa amizade me permitia essa liberdade.
Quando chegamos na Rua XV de Novembro, e Piolli já tinha jogado no chão todas as suas cascas, indiferente aos meus reclamos, avistei uma daquelas latinhas de lixo suspensas em poste de luz, que então eram feitas de lata.
Era exatamente o que eu precisava.
Orgulhoso do meu "Beau Gest", e ávido por dar um bom exemplo ao meu "porcolino" amigo, aproximei-me da lata de lixo e, teatralmente, ali depositei as cascas que mantinha na mão.
O efeito não poderia ter sido mais desastroso. A maldita lata de lixo, enferrujada, estava já sem fundo e as cascas, obviamente, espalharam-se todas pela calçada, fazendo meu companheiro se contorcer de tanta risada.
Haroldo Frota, bacharel em Direito
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