Histórias do Paraná - Andanças de Orlando
Andanças de Orlando
Francisco Camargo
O fotógrafo Orlando Kissner, hoje na Agência Estado, em São Paulo, começou sua carreira em Curitiba.
Como motorista, aliás.
Ele estava num carro de reportagem quando, metros à frente, ocorreu a famosa explosão de uma carga de dinamite, que sacudiu a cidade, lá pelas bandas das Mercês.
Mas não é o caso. O caso, ou os casos, é que Orlando, aqui mais conhecido como Polaco e, hoje, na Paulicéia, como Alemão, tinha uma facilidade incrível para se meter em confusão.
Corte rápido: depois de cobrir a rebelião no presídio de Piraquara, na década de 80, ganhou de presente, como souvenir, alguns estoques, teresas e facas, sobras do motim.
Presente de alguns policiais.
Jogou tudo no porta-malas do carro, o Opalão conhecido como Trovão Azul, e esqueceu.
Um dia, meses depois, descendo para a praia, foi parado numa barreira da Polícia Rodoviária.
Explicar por que transportava aquela estranha carga não foi fácil.
Mesmo porque havia, no meio do "arsenal", uma serra de mão utilizada em açougue, própria para cortar um boi ao meio.
Pano rápido.
O bom Orlando, consagrado em São Paulo, tem feito muitas viagens ao exterior.
Em Londres, no hotel, tarefa do dia cumprida, resolve tomar uísque - "mas que seja estrangeiro, nacional é uma droga".
Difícil foi conseguir gelo. O camareiro era jamaicano, não falava lhufas de português ou espanhol, tanto quanto o Orlando em se tratando de inglês.
- Gelo.
- Gelo, pomba!
Recorreu ao inglês de platéia de cinema americano:
- Ice!
Deu certo.
Mas o camareiro trouxe umas pedrinhas que mal davam para a primeira dose.
Insistiu.
Ice! Mucho ice.
Nada feito.
Engrossou:
- Iceberg!
O funcionário deixou o apartamento.
Voltou mais tarde carregando uma barra de gelo, com gancho e tudo.
Atirada contra o fundo da banheira, Orlando garantiu pedras de gelo para mais de um litro de uísque.
Mas não gostou de Londres.
Os carros insistiam em trafegar na contra-mão.
Francisco Camargo, jornalista
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Histórias do Paraná - Degredo em Guarapuava
Histórias do Paraná - Degredo em Guarapuava
Degredo em Guarapuava
Murilo Walter Teixeira
Dois documentos encontrados no arquivo histórico de Benja-min C. Teixeira (volumes 14 e 20), mostram claramente que Guarapuava hospedou no século passado, alguns degredados oriundos da Província de São Paulo de regiões mais populosas, e em obediência a decisão da Junta de Justiça de então.
A maioria como resultado de tumultos, roubos e mortes que ocasionaram na Vila de Santos, sendo sentenciados a cumprir degredo na Freguesia de Nossa Senhora de Belém - Paróquia de Guarapuava.
As penas desses réus variavam de um ano de permanência até toda a vida.
Obedeciam as regras emitidas no livro Quinto das Ordenações Filipinas, que vigorou até 1850 com o surgimento de novo regulamento. O artigo 51 previa: "A pena de degredo obrigará os réus a residir no lugar destinado pela sentença, sem poderem sair dele, durante o tempo que a mesma lhes marcar."
No primeiro documento, treze foram os sentenciados conforme a decisão da Junta em 19 de dezembro de 1821 e encaminhados em 15 de janeiro de 1822, sendo recebidos conforme termo de apresentação feito em 22 de maio de 1822, pelo então Comandante da Guarnição Militar, o Capitão Antonio da Rocha Loures - tronco da maioria das famílias guarapuavanas.
As idades dos condenados variam de 18 a 30 anos.
Alguns com profissões citadas: Felisberto Ferreira Campeio — carpinteiro, e Izidoro Ramos - alfaiate.
Nessa etapa, as penas mais severas eram de vinte anos de permanência (Felisberto Ferreira Campeio, Athanazio Lopes, Felix Pereira, José Gomes, Mariano Antonio e Joaquim Antonio de Oliveira). Com dez anos: José Moreira da Silva por assassinato.
Com cinco anos devem ter permanecido os indivíduos: Izidoro Ramos, Joaquim Martins Rodrigues, Francisco Manoel, este por crime de ar-rombamento, e Miguel Moronis, natural de Málaga, Espanha, por furto a bordo de um navio.
Com dois anos de Pena o cidadão Constantino Ribeiro, de trinta anos de idade.
Um deles faleceu durante a viagem.
Em outra decisão da Junta da Justiça lavrada em 24 de março de 1828, mais uma leva de indivíduos foram encaminhados à Freguesia de N. S. de Belém de Guarapuava, agora com penas mais
severas, pois o degredo era por toda a vida.
Sete foram as pessoas envolvidas nas devassas, sendo a maioria por assassinato.
Estão assim relacionadas conforme o termo de apresentação dado pela autoridade local em 11 de junho de 1828:
Joaquim Lemos Dias, Joaquim Mariano, Thimotheo Domingues (índio), Galdino José Nonato, Joaquim Antonio dos Santos e as mulheres Francisca Maria Constancia e Maria Vieira, esta por ter matado o marido.
No censo realizado em 1835 aparecem outros nomes (vinte e três), por certo encaminhados em ocasiões diversas.
Já no rol de habitantes da Paróquia promovido em 1853, percebe-se que alguns degredados instalaram-se em propriedades com esposa, filhos e até agregados, demonstrando sua inclusão na vida comunitária.
Porém aí não consta a grande maioria, mesmo aqueles com sentença de degredo perpétuo.
Murilo Walter Teixeira, dentista em Guarapuava.
Degredo em Guarapuava
Murilo Walter Teixeira
Dois documentos encontrados no arquivo histórico de Benja-min C. Teixeira (volumes 14 e 20), mostram claramente que Guarapuava hospedou no século passado, alguns degredados oriundos da Província de São Paulo de regiões mais populosas, e em obediência a decisão da Junta de Justiça de então.
A maioria como resultado de tumultos, roubos e mortes que ocasionaram na Vila de Santos, sendo sentenciados a cumprir degredo na Freguesia de Nossa Senhora de Belém - Paróquia de Guarapuava.
As penas desses réus variavam de um ano de permanência até toda a vida.
Obedeciam as regras emitidas no livro Quinto das Ordenações Filipinas, que vigorou até 1850 com o surgimento de novo regulamento. O artigo 51 previa: "A pena de degredo obrigará os réus a residir no lugar destinado pela sentença, sem poderem sair dele, durante o tempo que a mesma lhes marcar."
No primeiro documento, treze foram os sentenciados conforme a decisão da Junta em 19 de dezembro de 1821 e encaminhados em 15 de janeiro de 1822, sendo recebidos conforme termo de apresentação feito em 22 de maio de 1822, pelo então Comandante da Guarnição Militar, o Capitão Antonio da Rocha Loures - tronco da maioria das famílias guarapuavanas.
As idades dos condenados variam de 18 a 30 anos.
Alguns com profissões citadas: Felisberto Ferreira Campeio — carpinteiro, e Izidoro Ramos - alfaiate.
Nessa etapa, as penas mais severas eram de vinte anos de permanência (Felisberto Ferreira Campeio, Athanazio Lopes, Felix Pereira, José Gomes, Mariano Antonio e Joaquim Antonio de Oliveira). Com dez anos: José Moreira da Silva por assassinato.
Com cinco anos devem ter permanecido os indivíduos: Izidoro Ramos, Joaquim Martins Rodrigues, Francisco Manoel, este por crime de ar-rombamento, e Miguel Moronis, natural de Málaga, Espanha, por furto a bordo de um navio.
Com dois anos de Pena o cidadão Constantino Ribeiro, de trinta anos de idade.
Um deles faleceu durante a viagem.
Em outra decisão da Junta da Justiça lavrada em 24 de março de 1828, mais uma leva de indivíduos foram encaminhados à Freguesia de N. S. de Belém de Guarapuava, agora com penas mais
severas, pois o degredo era por toda a vida.
Sete foram as pessoas envolvidas nas devassas, sendo a maioria por assassinato.
Estão assim relacionadas conforme o termo de apresentação dado pela autoridade local em 11 de junho de 1828:
Joaquim Lemos Dias, Joaquim Mariano, Thimotheo Domingues (índio), Galdino José Nonato, Joaquim Antonio dos Santos e as mulheres Francisca Maria Constancia e Maria Vieira, esta por ter matado o marido.
No censo realizado em 1835 aparecem outros nomes (vinte e três), por certo encaminhados em ocasiões diversas.
Já no rol de habitantes da Paróquia promovido em 1853, percebe-se que alguns degredados instalaram-se em propriedades com esposa, filhos e até agregados, demonstrando sua inclusão na vida comunitária.
Porém aí não consta a grande maioria, mesmo aqueles com sentença de degredo perpétuo.
Murilo Walter Teixeira, dentista em Guarapuava.
terça-feira, 8 de novembro de 2016
Histórias do Paraná - Candidatos ao vivo
Histórias do Paraná - Candidatos ao vivo
Candidatos ao vivo
Bruno Nunes da Matta
As eleições deste ano de 1994 prometem a volta triunfal dos palanques.
A legislação eleitoral vai tirar o brilho eletrônico dos programas do TRE.
E a volta dos candidatos ao corpo-a-corpo, o pegar à unha o eleitor, gastar o verbo, fazer uso da eloqüência, ser mágico.
Alquimista, prestidigitador das palavras.
Talentos que poucos têm, como o deputado Erondy Silvério, portador de um verdadeiro bordão quando se dirigia à massa:
- Eu, que comi o pão da caridade pública...
O povão ficava emocionado, identificava-se com o candidato, de origem pobre, que lutou para subir na vida, como a grande maioria.
Tanto que Erondy reelegeu-se diversas vezes. E é verdade: o deputado tinha passado por um orfanato.
Às vezes, no entanto, o político acaba com os burros n’água.
Faz parte do folclore político o episódio em que o candidato, tentando a reeleição, bradou ao microfone:
- Neste bolso nunca entrou dinheiro público!
Ao que, um gaiato lá atrás, repicou:
- Calça nova, hein?!
O pai da jornalista Adélia Lopes, candidato a vereador em Aquidauana, Mato Grosso, dirigiu-se em caravana para um local pobre às margens do rio de mesmo nome.
Pobre mas bom de voto.
Na cabeça, um vistoso chapéu Panamá. Lindo.
Discurso inflamado, termina o pronunciamento e é carregado pelos correligionários.
Na confusão, fica sem o chapéu.
Reage, aos gritos:
- Devolvem meu chapéu, bando de ladrões!
Consta que não arrancou um mísero voto no distrito.
O ex-governador Álvaro Dias desce para inaugurar uma obra no litoral.
Na estrada das praias, populares à espera.
Manda o motorista parar o carro, desce, vai ao acostamento e cumprimenta um a um.
Apertos de mão e abraços. O motorista do Palácio, brincalhão, decide fazer uma molecagem. O governador descia e ele fazia o mesmo, pelo outro lado do carro, perfilando-se com os populares.
Recebia o aperto de mão, o abraço, e tratava de retornar ao volante, escondendo-se entre os moradores.
Assim fez durante quase todo o trajeto.
Já o professor Sydnei Lima Santos, candidato a vereador, no tempo do Curso Tuiuti, vai a um comício em bairro.
O líder dos moradores, ao anunciar seu discurso, esquece o currículo do candidato a ser apresentado à turma:
- E ele, o nosso candidato, é professor... professor... professor de datilografia!
Ouvem-se aplausos.
Bruno Nunes da Matta, radialista
Candidatos ao vivo
Bruno Nunes da Matta
As eleições deste ano de 1994 prometem a volta triunfal dos palanques.
A legislação eleitoral vai tirar o brilho eletrônico dos programas do TRE.
E a volta dos candidatos ao corpo-a-corpo, o pegar à unha o eleitor, gastar o verbo, fazer uso da eloqüência, ser mágico.
Alquimista, prestidigitador das palavras.
Talentos que poucos têm, como o deputado Erondy Silvério, portador de um verdadeiro bordão quando se dirigia à massa:
- Eu, que comi o pão da caridade pública...
O povão ficava emocionado, identificava-se com o candidato, de origem pobre, que lutou para subir na vida, como a grande maioria.
Tanto que Erondy reelegeu-se diversas vezes. E é verdade: o deputado tinha passado por um orfanato.
Às vezes, no entanto, o político acaba com os burros n’água.
Faz parte do folclore político o episódio em que o candidato, tentando a reeleição, bradou ao microfone:
- Neste bolso nunca entrou dinheiro público!
Ao que, um gaiato lá atrás, repicou:
- Calça nova, hein?!
O pai da jornalista Adélia Lopes, candidato a vereador em Aquidauana, Mato Grosso, dirigiu-se em caravana para um local pobre às margens do rio de mesmo nome.
Pobre mas bom de voto.
Na cabeça, um vistoso chapéu Panamá. Lindo.
Discurso inflamado, termina o pronunciamento e é carregado pelos correligionários.
Na confusão, fica sem o chapéu.
Reage, aos gritos:
- Devolvem meu chapéu, bando de ladrões!
Consta que não arrancou um mísero voto no distrito.
O ex-governador Álvaro Dias desce para inaugurar uma obra no litoral.
Na estrada das praias, populares à espera.
Manda o motorista parar o carro, desce, vai ao acostamento e cumprimenta um a um.
Apertos de mão e abraços. O motorista do Palácio, brincalhão, decide fazer uma molecagem. O governador descia e ele fazia o mesmo, pelo outro lado do carro, perfilando-se com os populares.
Recebia o aperto de mão, o abraço, e tratava de retornar ao volante, escondendo-se entre os moradores.
Assim fez durante quase todo o trajeto.
Já o professor Sydnei Lima Santos, candidato a vereador, no tempo do Curso Tuiuti, vai a um comício em bairro.
O líder dos moradores, ao anunciar seu discurso, esquece o currículo do candidato a ser apresentado à turma:
- E ele, o nosso candidato, é professor... professor... professor de datilografia!
Ouvem-se aplausos.
Bruno Nunes da Matta, radialista
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Histórias do Paraná - Wille e Margarida
Histórias do Paraná - Wille e Margarida
Wille e Margarida
Mário Schactai Ribeiro
Esta é a história de um casal trabalhador, simpático, chefes de família exemplares.
Aconteceu na cidade de Palmeira nos anos 50. Uma história verdadeira que mostra como as coisas podiam acontecer antes da existência de uma inflação galopante como a que hoje vivemos(1993).
Wille montou uma padaria, anexa a bar e sorveteria, e se encarregava de cuidar do caixa.
Margarida, sua esposa, cuidava da casa, dos seis filhos, e ainda preparava bolos e salgadinhos para o bar.
O negócio progrediu, cresceu, foi melhorando, até modernizado.
Contava já com alguns empregados. E com a quase permanente "fiscalização" de Margarida, no que se referia à higiene, forma de atenção à clientela, disciplina das prateleiras expondo mercadorias.
Wille se mantinha, impassível, junto à "registradora", e os negócios iam bem.
No entanto, Margarida começou a alertar o marido:
- "Wille, estão lhe roubando...!"
Ao que o marido respondia negativamente.
Afinal, ele praticamente não saía de junto da máquina registradora.
Era sua a responsabilidade de receber, dar troco, pagar.
Contabilizar o dinheiro arrecadado. E Margarida, insistia:
- "Wille, estão lhe roubando..."
Wille sorria, discordava da mulher.
Ela, continuava a lida com a casa, os filhos, os quitutes e sempre chamando a atenção de seu esposo, para o fato de que estaria sendo "roubado".
Passaram os meses, fechou mais um ano.
Foram dezenas de vezes que Margarida alertou o marido de que o dinheiro estava sendo tirado do caixa. E que ele discordava que tal fato estivesse acontecendo.
Até que Margarida provou...!
Depois de vários alertas, trouxe para mostrar ao marido um balaio cheio de dinheiro.
Dinheiro que ela tirou do caixa.
Que Wille viu ser tirado do caixa.
Mas, que nunca considerou "roubo". Afinal, era tirado pela esposa, com certeza para outras despesas do estabelecimento comercial e até da própria casa.
Bons tempos...! Contam que o dinheiro deu para comprar uma nova propriedade.
Coisas para a casa.
Até pensar em um carro -quase um luxo para a época.
O que teria acontecido com o dinheiro de Wille e Margarida (guardado no balaio, por um ano) se fosse nos dias atuais? Com a inflação de 40% ao mês?
Mário Schactai Ribeiro, radialista em Palmeira
Guilherme ‘Wille" Frederico Margraf faleceu em 1993; Margarida Bonacin Margraf, em 1976
Wille e Margarida
Mário Schactai Ribeiro
Esta é a história de um casal trabalhador, simpático, chefes de família exemplares.
Aconteceu na cidade de Palmeira nos anos 50. Uma história verdadeira que mostra como as coisas podiam acontecer antes da existência de uma inflação galopante como a que hoje vivemos(1993).
Wille montou uma padaria, anexa a bar e sorveteria, e se encarregava de cuidar do caixa.
Margarida, sua esposa, cuidava da casa, dos seis filhos, e ainda preparava bolos e salgadinhos para o bar.
O negócio progrediu, cresceu, foi melhorando, até modernizado.
Contava já com alguns empregados. E com a quase permanente "fiscalização" de Margarida, no que se referia à higiene, forma de atenção à clientela, disciplina das prateleiras expondo mercadorias.
Wille se mantinha, impassível, junto à "registradora", e os negócios iam bem.
No entanto, Margarida começou a alertar o marido:
- "Wille, estão lhe roubando...!"
Ao que o marido respondia negativamente.
Afinal, ele praticamente não saía de junto da máquina registradora.
Era sua a responsabilidade de receber, dar troco, pagar.
Contabilizar o dinheiro arrecadado. E Margarida, insistia:
- "Wille, estão lhe roubando..."
Wille sorria, discordava da mulher.
Ela, continuava a lida com a casa, os filhos, os quitutes e sempre chamando a atenção de seu esposo, para o fato de que estaria sendo "roubado".
Passaram os meses, fechou mais um ano.
Foram dezenas de vezes que Margarida alertou o marido de que o dinheiro estava sendo tirado do caixa. E que ele discordava que tal fato estivesse acontecendo.
Até que Margarida provou...!
Depois de vários alertas, trouxe para mostrar ao marido um balaio cheio de dinheiro.
Dinheiro que ela tirou do caixa.
Que Wille viu ser tirado do caixa.
Mas, que nunca considerou "roubo". Afinal, era tirado pela esposa, com certeza para outras despesas do estabelecimento comercial e até da própria casa.
Bons tempos...! Contam que o dinheiro deu para comprar uma nova propriedade.
Coisas para a casa.
Até pensar em um carro -quase um luxo para a época.
O que teria acontecido com o dinheiro de Wille e Margarida (guardado no balaio, por um ano) se fosse nos dias atuais? Com a inflação de 40% ao mês?
Mário Schactai Ribeiro, radialista em Palmeira
Guilherme ‘Wille" Frederico Margraf faleceu em 1993; Margarida Bonacin Margraf, em 1976
domingo, 6 de novembro de 2016
Histórias do Paraná - O espírito de Mavorte
Histórias do Paraná - O espírito de Mavorte
O espírito de Mavorte
Benedicto Bueno
O heroísmo de Antônio Ernesto Gomes Carneiro na página épica do embate de 1894, não foi uma revelação.
Carneiro tinha no corpo o espírito de Mavorte.
Hospedava, em si, a beligerância de quem já havia "andado longes terras, lidado cruas guerras..."
O destino lhe apontava, nos primórdios, a tranqüilidade e lucros no comércio de remédios.
Aviaria receitas, indicaria xaropes.
Seria edição revista e ampliada de seu pai, respeitável boticário da velha Serro, Minas Gerais.
Talvez, aí, o emergir do herói.
Foi a primeira resistência.
Como o poeta que tinha, ou sentia o "borbulhar de um gênio", o filho do boticário mantinha n’alma o agito da guerra, acoplado ao mais puro e acendrado amor ao solo pátrio.
Foi ao Rio para estudar.
Em lá chegando, o país recrutava combatentes para a guerra do Paraguai.
Era o momento de Carneiro.
Procrastinou planos, desmantelou cronogramas, se transmutando no mais despreendido dos voluntários da Pátria.
Eis o anspeçada (sua primeira promoção) Carneiro no palco de guerra. O sibilo das balas, o troar do canhoneio, integravam-lhe o cotidiano, até que, ferido em combate baixou a hospital. O indômito de sua fibra fê-lo voltar à luta, desistindo da licença lhe concedida para convalescer.
Guerra finita, Antônio Ernesto, a quem, sabiamente, o exército acolhera definitivamente em suas fileiras, aperfeiçoou seus conhecimentos fazendo, com louvor, todos os cursos lhe acenados, incluindo no rol a engenharia e escola militar.
Não bastassem as guerras entre nações, a proclamação da República trouxe, em seu bojo, o lamentável das contendas intestinas, traduzindo insatisfações aqui e acolá. Destas, a Revolução Federalista a mais importante.
Não fôra a resistência de pacata cidade do sul do Paraná, a Lapa, e as forças que se aglutinaram a partir dos extremos do território brasileiro, num avanço de vitórias fáceis e sanguinárias, teriam chegado até Floriano.
Teriam mudado os destinos da nação.
E a resistência Lapeana tinha um condutor.
Contava com a intrepidez, o denodo e a coragem do experiente Antônio Ernesto Gomes Carneiro.
Entrementes, flagrante era a desigualdade nos confrontos.
Os anais do Exército, em se referindo a
Carneiro e seus comandados, assinalam a discrepância... "apenas com quinhentos homens, cercados por três mil".
E o soldado de tantas pugnas, de heroísmo estóico, ferido mortalmente, teve, na sofrida Lapa, o cenário sombrio de sua última batalha.**
Hoje, ânimos serenados, quem uma centena de anos empôs, há que se rememorar o destemor, o heroísmo e despreendimento de homens não hesitantes no derramar o sangue na defesa do que acreditavam.
Sob outro ângulo, um lamento a ultrapassar centenários sem fim. A revolução foi um confronto de brasileiros.
Uma trágeca desavença entre irmãos.
Benedito Bueno é tabelião aposentado na Lapa
** Hoje (quando foi escrito o texto) faz exatamente 100 anos que o Gen Carneiro faleceu (09/02/1993).
O espírito de Mavorte
Benedicto Bueno
O heroísmo de Antônio Ernesto Gomes Carneiro na página épica do embate de 1894, não foi uma revelação.
Carneiro tinha no corpo o espírito de Mavorte.
Hospedava, em si, a beligerância de quem já havia "andado longes terras, lidado cruas guerras..."
O destino lhe apontava, nos primórdios, a tranqüilidade e lucros no comércio de remédios.
Aviaria receitas, indicaria xaropes.
Seria edição revista e ampliada de seu pai, respeitável boticário da velha Serro, Minas Gerais.
Talvez, aí, o emergir do herói.
Foi a primeira resistência.
Como o poeta que tinha, ou sentia o "borbulhar de um gênio", o filho do boticário mantinha n’alma o agito da guerra, acoplado ao mais puro e acendrado amor ao solo pátrio.
Foi ao Rio para estudar.
Em lá chegando, o país recrutava combatentes para a guerra do Paraguai.
Era o momento de Carneiro.
Procrastinou planos, desmantelou cronogramas, se transmutando no mais despreendido dos voluntários da Pátria.
Eis o anspeçada (sua primeira promoção) Carneiro no palco de guerra. O sibilo das balas, o troar do canhoneio, integravam-lhe o cotidiano, até que, ferido em combate baixou a hospital. O indômito de sua fibra fê-lo voltar à luta, desistindo da licença lhe concedida para convalescer.
Guerra finita, Antônio Ernesto, a quem, sabiamente, o exército acolhera definitivamente em suas fileiras, aperfeiçoou seus conhecimentos fazendo, com louvor, todos os cursos lhe acenados, incluindo no rol a engenharia e escola militar.
Não bastassem as guerras entre nações, a proclamação da República trouxe, em seu bojo, o lamentável das contendas intestinas, traduzindo insatisfações aqui e acolá. Destas, a Revolução Federalista a mais importante.
Não fôra a resistência de pacata cidade do sul do Paraná, a Lapa, e as forças que se aglutinaram a partir dos extremos do território brasileiro, num avanço de vitórias fáceis e sanguinárias, teriam chegado até Floriano.
Teriam mudado os destinos da nação.
E a resistência Lapeana tinha um condutor.
Contava com a intrepidez, o denodo e a coragem do experiente Antônio Ernesto Gomes Carneiro.
Entrementes, flagrante era a desigualdade nos confrontos.
Os anais do Exército, em se referindo a
Carneiro e seus comandados, assinalam a discrepância... "apenas com quinhentos homens, cercados por três mil".
E o soldado de tantas pugnas, de heroísmo estóico, ferido mortalmente, teve, na sofrida Lapa, o cenário sombrio de sua última batalha.**
Hoje, ânimos serenados, quem uma centena de anos empôs, há que se rememorar o destemor, o heroísmo e despreendimento de homens não hesitantes no derramar o sangue na defesa do que acreditavam.
Sob outro ângulo, um lamento a ultrapassar centenários sem fim. A revolução foi um confronto de brasileiros.
Uma trágeca desavença entre irmãos.
Benedito Bueno é tabelião aposentado na Lapa
** Hoje (quando foi escrito o texto) faz exatamente 100 anos que o Gen Carneiro faleceu (09/02/1993).
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