sábado, 21 de junho de 2014

Histórias do Paraná - A reação do candidato

Histórias do Paraná - A reação do candidato

A reação do candidato
Lauro Grein Filho

Corria o ano de 1955... E Castro, a pérola do Iapó, contrastava sua habitual serenidade, embalada nas emoções do pleito eleitoral, próximo e renhido.
No Diretório do PSD, somava esforços com o presidente Vespasiano Carneiro de Mello no comando de operações e estratégias contra os poderes de uma UDN fortíssima, sedimentada e engrandecida pelas mais tradicionais cepas da terra. A eleição prenunciava-se altamente renhida e a conquista da Prefeitura dependia, fundamentalmente, de uma boa chapa de vereadores.
Com eles e seus cmpenhos, viriam implicitamente os votos para o prefeito e para a vitória.
Em Distrito importante, de quatro mesas receptoras, morava um senhor idoso de reconhecidas potencialidades eleitorais.
Comerciante próspero e conceituado, alimentava no fiado e no compadrio o maior prestígio do bairro.
Por isso lá estávamos àquela larde, em seu estabelecimento e residência, distante 70 quilômetros da cidade, a tentar de qualquer maneira seu ingresso em nossos <|uadros.
Resistente ao assédio das agremiações adversárias que já o haviam procurado, o homem lambém não quis vir conosco na parada.
Baldados os esforços, esgotados os argumentos, decidimos bater à porta de outro companheiro, também morador da região e membro do Diretório local.
Era um jovem recém-chegado na vila, despretensioso e tímido, sem grandes projeções no lugarejo e adjacências.
Convidado, após alguns momentos de perplexidade e ensaios, resolveu finalmente aceitar.
De regresso à cidade, lamentávamos o malogro da viagem, deplorada na alternativa de um candidato inexpressivo e inviável. A escolha, de resto, inconformou os demais companheiros, e exigiu-se uma reformulação capaz de maiores chances e probabilidades.
As coisas não podiam, mesmo, continuar assim... E para melhorá-las, uma semana depois voltamos ao velho, teimando no pedido e na insistência.
Acuado ante a argumentação inclemente e obstinada, o homem afinal cedeu a figurar glorioso e destacado em nossa chapa.
Restava agora eliminar as pretensões do jovem correligionário, desfazer o trabalho errôneo de dias atrás e que resultara no equivoco de uma candidatura a esta altura totalmente indesejável.
Junto a ele debulhamos uma série de ponderações e conselhos.
Mas desta feita no sentido contrário, desdizendo as conversações anteriores, sugerindo e animando-o à renúncia e à desistência. O moço imediatamente compreendeu e de bom grado nos liberou, com reforços de fidelidade partidária e juras de apoio ao novo candidato do qual se confessava amigo e admirador. O retorno foi eufórico, com gozos antecipados dos desesperos da oposição.
Não foram necessários, entretanto, muitos dias para sabermos do tal jovem e já não nosso companheiro, engajado em outro partido a trabalhar com todas as forças em prol de sua candidatara que já despontava vitoriosa. E, na revolta e na raiva, correndo e lutando, batendo e brigando, conseguiu alcançar um convincente e esmagador triunfo.
A nós restaram as reinaçÕes do velho... Indeciso e irresoluto, apático e insensível a todos os estímulos, trôpego e claudicante, acabou desistindo em meio à jornada, farrapo aparvalhado completamente inútil.
Amargamos séria derrota no Distrito, tido e havido como reduto de nossa incontestável supremacia.
E provável que histórias como esta se contem e se repitam nas regras das pelejas interioranas.
Mas quem apanha nunca esquece.
Recordo-a por isso, nas implicações do seu conteúdo moral e ético a advertir que jamais se deve menosprezar quem quer que seja.
Porque a natureza não tolera e violentamente explode em reações imprevisíveis, quando ferida no seu amor próprio, na sua honra e nos seus brios.

Lauro Grein Filho, médico, presidente de Centro de Letras do Paraná em 1993

Histórias do Paraná - Guerra é guerra

Histórias do Paraná - Guerra é guerra

Guerra é guerra
Francisco Camargo

Em novembro de 1959, Curitiba foi sacudida pelo que ficou conhecido como a Guerra do Pente.
Muito já foi escrito sobre a explosão da massa que, na ocasião, elegeu como bode expiatório, os comerciantes de origem árabe da Praça Tiradentes, numa inconsciente prova de que o brasileiro cordial, de Sergio Buarque de Hollanda, só existiu mesmo no papel.
O governo tinha lançado o concurso "Seu Talão Vale um Milhão".
Simples: o cidadão exigia nota fiscal, que trocava por um tíquete para concorrer a prêmios.
Na compra de um pente, determinado comerciante se recusou a sacar o bloco.
Discussão, empurrões, xingamentos, sopapos.
O freguês era policial-militar, o que acendeu um estopim que levou o centro de Curitiba à explosão de fúria.
Quebra-quebra que só teve fim, no terceiro dia, quando da intervenção de tropas do Exército.
Isso todos, ou quase todos, sabem.
O que não sabem — e me proponho a tentar contar aqui - é que naquele primeiro dia de violência,
um pacato Segundo Sargento, à paisana, deixava o velho Serviço Regional de Obras, na Rua Presidente Faria, juntos ao Passeio Público, e tratava de alcançar o ônibus da Rua Marechal Floriano que, na época, fazia o percurso no sentido Tiradentes-Adauto Botelho,
o popular "hospício", no final da rua.
Final da Floriano e da cidade, já que tudo praticamente terminava ali, no hospício, quarteirão que, anos antes, tinha sido transformado em pista (terra batida) para uma sensacional e inédita prova automobilística -onde Barranco, do ferro-velho que levava seu nome, deu um show ao volante de suas carreta.
Levantando poeira e tirando finas dos amontoados de pneus que serviam de guard-rail.
Pois seguia o Sargento em passos acelerados.
Sobre pés que se chocam com os paralelepípedos e pedras negras do calçamento, 120 quilos distribuídos por um corpanzil de um homem de 1,80 metros.
No rosto, a expressão de quem estava com fome e não via a hora de chegar em casa.
Talvez o imenso bigode, de fios negros e espessos, dissimulasse um pouco o ricto labial que denunciava o estômago vazio.
Tratou de cortar a Tiradentes, para atingir o ponto de ônibus, mal olhando para os lados, preocupado com as coisas de sua vida e com a comida que o aguardava, fumegante, num canto do fogão a lenha - meio-dia, panela no fogo e barriga vazia.
Tanto que não notou a barulhenta turba, que a tudo atacava e destruía, numa fúria de paquidermes enlouquecidos ou a caoticamente metódica ânsia destrutiva de uma nuvem de gafanhotos.
Um grito salvador, partindo de um jipe do Exército que por ali passava, evitou que o homem de corpo avantajado e rosto a la Oriente Médio penetrasse como um inadvertido Moisés no mar de violência que se lhe abria à frente:
- Venha, Salada! Sai daí!
Ao mesmo tempo, era aberta a pequena porta de lona do jipe.
Possuído por uma súbita agilidade de felino, o sargento fugiu da cena do crime.
Sim, porque, com suas características, fatalmente seria tomado por sírio ou libanês e literalmente trucidado pelo povão ensandecido.
Naquele dia, qualquer cidadão que lembrasse um "batrício" seria buxado feito balão de festa junina.
Mesmo ele, um descendente de portugueses como, de fato, o era.
Mas, no caso, com a "agravante" de ter Saladim como prenome, que derivou para o apelido Salada.
Graças aos colegas do Serviço Regional de Obras, que iam para casa de viatura, o autor destas linhas, ficou livre de se tornar órfão bem antes do que veio a ocorrer quatro anos mais tarde.

Francisco Camargo, jornalista

Histórias do Paraná - Um furo de reportagem

Histórias do Paraná - Um furo de reportagem

Um furo de reportagem
Wilson Bóia

A vida do jornalista curitibano Raul Gomes, desde a sua juventude, seria pontilhada por inúmeros episódios ligados à história política e social do Paraná, ora como simples expectador, ora como ativo participante.
Assim, quando da promulgação da Constituinte de 34, após a revolução de São Paulo, dois partidos operavam aqui em Curitiba:
o Partido Social Democrático, virtualmente chefiado pelo interventor Manuel Ribas, e o Partido Social Nacionalista, dominado pela figura do Coronel Mena Barreto. A corrente denominada União Republicana tinha por dirigente Caetano Munhoz da Rocha.
No entanto, Manuel Ribas, de temperamento apartidário, num mutismo indecifrável, sem manifestar o seu agrado ou desagrado por seu partido, assumira uma atitude desconcertante, enchendo de apreensão os seus correligionários, os pessedistas, já que mantinha contato com as outras duas facções, visitando Mena Barreto e confabulando com Munhoz da Rocha.
Embora preocupados e até mesmo assustados com tal procedimento incomum, os comandados do "gross bonnet" não se atreviam a lhe arrancar um pronunciamento franco e decisivo, principalmente em relação às próximas eleições.
Reinava nas hostes pessedistas visível inquietação.
Raul Gomes, por essa época, militava em "O Dia" de Caio Machado e, repórter ousado que era, resolveu ir ao Palácio, pôr tudo em pratos limpos, conseguir com o chefe pessedista uma declaração definitiva sobre sua posição partidária.
Bem cedinho vai ao Chefe de Polícia, Lauro Lopes, da bancada federal, e lhe comunica sua decisão.
Estávamos a 29 de setembro de 1934. Lauro tenta ponderar em contrário, mas Raul reafirma que sua presença frente ao Interventor não tinha conotações políticas - estaria apenas no desempenho de suas funções de jornalista. O chefe de Polícia telefona então para o Palácio e presta ao chefe de Gabinete as informações devidas.
E lá se vai o nosso Raul pela Rua Rio Branco, penetra na sede do Governo pelos fundos, se faz anunciar e é recebido cordialmente pelo Interventor, tendo ao seu lado Gaspar Veloso, diretor da Educação.
Indagados dos motivos por que solicitara audiência tão urgente, Raul Gomes expõe com franqueza ao Interventor a situação preocupante dos pessedistas, temerosos com a aproximação da data do pleito e a indefinição política de seu chefe maior.
Que estava ali como jornalista ansioso por um sensacional "furo" de reportagem, pois seus seguidores desejavam dele tão somente uma proclamação categórica como candidato de PSD.
Raul abre o seu caderno colocando-o à mesa.
Entrega a Ribas uma caneta.
Este não se faz de rogado.
Redige um pequeno texto, data e assina.
Mas constatado por Gaspar Veloso um pequeno engano, Ribas escreve outro texto, esse definitivo e aqui reproduzido: "Para terminar com boatos espalhados, referentes a minha permanência no Estado, declaro que pertenço a este povo e por ele darei o último dos meus dias.
Aceito, portanto, a minha candidatura ao Governo do Paraná, lançado pelo PSD. Curitiba, 29 de setembro de 1934. Manoel Ribas".
Raul sorri, satisfeito.
Missão cumprida. E por muitos anos conservaria com carinho aquele caderno com as duas versões.
Em tempo: Manuel Ribas seria eleito Governador, indiretamente, pela Assembléia Legislativa, para governar de 1935 a 1937, e voltaria a ser Interventor, nomeado por Getúlio Vargas, de 1937 a 1945. Governou o Paraná, assim, por 13 anos consecutivos, de 1932 a 1945.

Wilson Bóia, Presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores em 1993

Histórias do Paraná - Funéreos adereços

Histórias do Paraná - Funéreos adereços

Funéreos adereços
Francisco Brito de Lacerda

Ainda moço, meia-idade, nomeado Coletor de Rendas na Linha Sul, Neco Pacheco foi viver em Irati.
Logo fez amigos, comandando certas iniciativas.
Organizar um baile, por exemplo, dava-lhe muito gosto.
Naquele 31 de dezembro, sexta, depois do almoço, o aventureiro coletor se ocupava em decorar um salão para o grande baile de Ano Novo.
Até uma quadrilha ia ser dançada.
Sentiu-se tonto, de repente, o nosso Neco Pacheco.
Pôs as mãos no peito, onde se localizava a dor crudelíssima que o fazia rebentar os botões da camisa;
pálido, deitado no assoalho, a cabeça apoiada numa almofada, ele suava em bicas.
Quando o médico chegou, Neco tinha acabado de morrer.
Fretado um trem especial para levar o corpo a Curitiba, umas cem pessoas, entre amigos e parentes,
esperavam a chegada do comboio na plataforma.
O trem encostou depois das onze da noite. O caixão lilás, enfeites dourados, saindo do bagageiro pelas mãos dos parentes mais próximos (um em cada alça), foi transferido para o coche, ao qual estavam atrelados quatro cavalos brancos, o arreamento guarnecido com negros laços de cetim.
Devagar, o coche subia a Rua Barão.
Seguiam-no os acompanhantes. Um Desembargador, amigo da família, a cada passo tirava o relógio da algibeira, como a conferir quanto faltava para meia-noite.
No instante em que o enterro achava-se prestes a atingir a esquina da Barão com Rua Quinze, começou o esfuziar de foguetes, que estouravam nos céus de Curitiba.
Batiam os sinos da Catedral, festivos.
Ouvia-se à distância o apito das fábricas.
Era o ano novo que chegava.
Na calçada, perplexa melindrosa, fita na testa, lábios muito pintados, só faltava bater palmas à passagem do funeral.
Moço sensível, um primo do morto sentia-se personagem de melodrama.
Cutucando o acompanhante, que caminhava ao seu lado e fingia não ouvir o foguetório, ele disse:
"Bons-anos!"
"Bons-anos", o outro retribuiu.
Bem nessa hora, a vara de um foguete caiu entre os cavalos, que ameaçaram disparar.
Quase derrubando a cartola, o cocheiro conseguiu conter os animais.
Com o enterro perto da Praça
Tiradentes, os sinos da Catedral tinham silenciado.
Raros foguetes ainda subiam nas bandas do Pilarzinho.
Permanecia no ar o triste apito de um engenho.
Já se podia dizer que era sábado, primeiro de janeiro.

Francisco Brito de Lacerda, advogado

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Histórias do Paraná - A vingança da onça

Histórias do Paraná - A vingança da onça

A vingança da onça
Luiz Cláudio Mehl

A colônia Murici está bem próxima de Curitiba, e mais ainda da costeira da Serra do Mar.
Ocupada predominantemente por agricultores poloneses, é dali que a Capital se abastece de batata, frutas e legumes.
E também de suas matas que é extraída grande parte da madeira que abastece as olarias curitibanas.
Entre oleiros estavam os Filhos de Henrique Mehl, que ali possuíam uma fazendola.
Pois bem, no princípio dos anos 70 os fazendeiros daquela região estavam extremamente preocupados com o
desaparecimento de inúmeras cabeças de gado.
Algumas informações diziam que seriam umas 50, outras falavam em cem, e havia até que falasse que cerca de
200 cabeças de gado já haviam sumido.
Exageros de lado, de uma coisa não restava dúvida: as ossadas encontradas indicavam que era um felino, e dos grandes, o responsável pelo estrago.
Daí porque o Júlio Luz, chacreiro dos Mehl, convidou seu compadre Alcindo de Melo, reconhecido como emérito caçador, para procurar a bichana misteriosa.
Os dois caçadores, auxiliados por dois perdigueiros e pelas balas de uma "Winchester 16", abateram o animal após duas semanas de perseguição. O mistério desvendado tinha dois metros de comprimento e aproximadamente 20 anos de idade.
Para comprovar a veracidade do feito, os caçadores puseram o corpo do animal numa caminhoneta e foram correr os jornais de Curitiba, exibindo o troféu.
As manchetes, no dia seguinte, eram bombásticas: "Onça morta já tinha matado mais de cem", apontava a "Gazeta do Povo", "Onça morta a tiros", registrava a "Tribuna do Paraná". A notícia chegou até o Rio de Janeiro, e o Jornal do Brasil estampou a foto do bicho com a manchete "Onça Assassina".
Enquanto isso, os Mehl era multados em mil cruzeiros pelo Instituto de Defesa do Patrimônio Natural por falta de licença para matar o animal. E em seguida foram notificados a pagar outros 150 cruzeiros de multa por violação do código de caça florestal, que proibia a caça fora de temporada.
Até então, matavam-se onças com a impunidade como quem atravessa um sinal fechado às três horas da madrugada e sem nenhum guarda por perto.
Dessa vez, porém, a reação não ficou só nas multas. A opinião pública se dividiu a respeito e o assunto ganhou ares de discussão.
Não faltou, é claro, quem se posicionasse a favor dos caçadores, como o colunista social Carlos Jung, de "O Estado do Paraná", que ironicamente alertava os futuros caçadores de onça para não esquecerem de amarrá-las antes de atirar; correndo em seguida para, em Curitiba, tirar as devidas licenças.
Recomendava também a necessidade de avisar a onça para não aparecer nas fazendas fora da temporada de caça.
Ironias a parte, os primeiros aprendizes de ecologistas gritaram de norte a sul do país em defesa da fauna brasileira, coisa rara de se ouvir naqueles tempos.
Estava começando uma nova era no país, a era da defesa do meio ambiente.
Melhor que ninguém, o "Jornal do Brasil", do Rio de Janeiro, captou o que começava a acontecer a partir da matança de uma onça no Paraná. O jornal dedicou ao tema um editorial, intitulado "Vingança da Onça", que reparava: "...depois de morta, a onça vingou-se do fazendeiro que a matou..." E concluía: "Ao fazendeiro resta o consolo pela honra de ter participado do capítulo inicial de uma história de luta pela preservação do patrimônio natural do nosso país".

Luiz Cláudio Mehl, Engenheiro Civil