Histórias do Paraná - O inscrito 27 da OAB
O inscrito 27 da OAB
Benedicto Bueno
Dentre os Timótheos que cultuo, dois muito me fascinaram. O primeiro, como privilegiado destinatário de grande parte das cartas de Paulo, o romano convertido que fez do gênero epistolar a cartilha básica dos princípios da cristandade.
Já o segundo Timótheo nasceu muito depois.
Surgiu nos estertores do século dezenove, para, no século seguinte, distribuir exemplos de trabalho e honradez, mesclados a intensa humildade.
Seu nome completo David Timótheo Wiedmer. O Dr. Timótheo, o "Seu" Timótheo, assim nominado, com carinho, pelo povo.
Timótheo, desde cedo envolvido nas artes gráficas, tratou de trabalhar e esqueceu que poderia ter freqüentado uma faculdade, feito provas como o "summa cum laude". Enfim, tinha tudo para se laurear. Não o quis.
Viveu na Lapa.
Constituiu família. E não se pode falar em autodidatismo nestas plagas, sem que primazia se faça a David Timótheo Wiedmer.
Na tipografia realizava proezas. O que os cavaletes lhe forneciam eram formatados, paciente e corretamente, tipo a tipo.
Imprimia desde circulares e avisos; até pequenos livros que passavam pelo esmero da encadernação.
Um emblema, um desenho, um enfeite a circundar o texto não eram entraves para Timótheo: fazia-os.
Sua cultura era sem fronteiras.
História, geografia, humanidades eram porções de sua ingente bagagem de conhecimentos.
Um dia, nos idos de vinte, quando escassos os advogados, a um réu faltando defensor, o magistrado da época (Dr. Antonio Martins Franco) não titubeou.
Convidou Timótheo para tanto.
Nascia ali o advogado que, por aproximadas três décadas, exerceu o mister com coragem, denodo, conhecimento e seriedade; sobretudo seriedade.
A ausência de bacharelato cin-gia-o à classe dos solicitadores, com direito, inclusive, de acesso ao órgão de classe.
Era o inscrito 27 da O.A.B., Seção Pr.
Aos tempos de militância, tão grande era seu prestígio que a maioria dos advogados que principiavam na Comarca tinham que se associar a Timótheo.
Foi o maior advogado de seu tempo, sem nunca ter atravessado umbrais de uma escola de direito.
A par de sua enorme erudição, era afável, bom e prestativo ao extremo.
Acreditava na juventude como futuro do país.
Tinha atenção especial para ela voltada.
Imaginem que nos anos cinqüenta, quando os ditos cursos secundários exigiam um numero determinado de alunos para funcionamento à noite (aspiração de jovens e adultos que trabalhavam no período diurno), Timótheo não só emprestou seu nome para fortalecer a lista, como freqüentou, por certo tempo, as aulas do antigo "Ginásio General Carneiro". Misturado ao grupo de alunos, e conhecendo a fundo as matérias ministradas, era, para os colegas de classe, um professor auxiliar, sanando dificuldades a cada intervalo de aulas.
Assim era o nosso TIMÓTHEO: Diferente do Timótheo bíblico.
Enquanto este sorvia conhecimento nos textos do romano converso, aquele, sábio que era, esbanjava cabedal.
Benedito Bueno, tabelião aposentado da Lapa
sábado, 2 de agosto de 2014
Histórias do Paraná - A fundação de Londrina
Histórias do Paraná - A fundação de Londrina
A fundação de Londrina
Olympio Luiz Westphalen
A Companhia de Terras Norte do Paraná, subsidiária da ‘Taraná Plantations", de Londres, após adquirir do Governo do Paraná cerca de 515 mil alqueires de terras na região norte do Estado e ter constatado a grande fertilidade das chamadas terras roxas, resolveu iniciar um processo de colonização, com um plano de vender pequenos lotes rurais, com núcleos urbanos de apoio, implantando um sistema que viria se tornar na mais vitoriosa reforma agrária já feita no Brasil.
Após uma primeira visita à região, dos diretores da Cia., Arthur Thomas e Willian Reid, foi organizada em Ourinhos uma expedição que tinha como objetivo iniciar o processo de povoamento, sob chefia do jovem (20 anos) funcionário George Craig Smith.
Partindo, em um caminhão, na madrugada do dia 20 de agosto de 1929, a caravana pioneira passou por Cambará e na tarde do mesmo dia chegou em Jatahy (Jataizinho), atravessando três rios: Cinzas, Laranjinhas e Congonhas.
Em Jatahy, a Cia. mandara construir dois grandes ranchos de palmito para alojamento e escritório de apoio.
Jatahy está às margens do Rio Tibagi e restavam 22 quilômetros para chegar até as terras da Cia. co-lonizadora.
Foram adquiridas mulas de carga e montaria, e alugadas canoas para travessia do rio e, na madrugada do dia 21 de agosto de 1929, partiu a caravana para a arrancada final. A travessia foi difícil e a viagem foi lenta, através do picadão no meio da fechada floresta.
Depois de muitas horas, na tarde do mesmo dia, o engenheiro russo Dr. Alexandre Rasgulaeff, consultando seus mapas, disse: "Chegamos na divisa das terras da Companhia". Logo em seguida o português Alberto Loureiro, empreiteiro contratado pela Cia., reuniu seus trabalhadores para abrir uma pequena clareira na densa floresta, onde construíram dois ranchos de palmito, existente em grande quantidade, que foram as duas primeiras habitações da futura cidade, localizadas onde hoje se encontram instalações da Gessi Lever (antiga Anderson Clayton). Ali existe marco comemorativo.
Além dos citados, participaram daquela caravana pioneira: Joaquim Benedito Barbosa, Spártaco Bambi, Erwin Froelich, Geraldo Pereira Maia e alguns trabalhadores braçais.
Seriam doze pessoas.
Assim, no dia 21 de agosto de 1929, foi fundada Londrina pela Companhia de Terras Norte do Paraná. O seu primeiro nome foi Patrimônio Três Bocas. A fundação foi consolidada com a construção do Hotel Campestre, para moradia dos funcionários, e da casa do engenheiro Alexandre Ragulaeff, autor do primeiro traçado urbano da cidade. O povoado progrediu rapidamente e a 10 de dezembro de 1934 foi instalado o Município de Londrina.
Olympio Luiz Westphalen, diretor do Museu Histórico de Londrina "Pe. Carlos Weiss", da Universidade Estadual de Londrina
A fundação de Londrina
Olympio Luiz Westphalen
A Companhia de Terras Norte do Paraná, subsidiária da ‘Taraná Plantations", de Londres, após adquirir do Governo do Paraná cerca de 515 mil alqueires de terras na região norte do Estado e ter constatado a grande fertilidade das chamadas terras roxas, resolveu iniciar um processo de colonização, com um plano de vender pequenos lotes rurais, com núcleos urbanos de apoio, implantando um sistema que viria se tornar na mais vitoriosa reforma agrária já feita no Brasil.
Após uma primeira visita à região, dos diretores da Cia., Arthur Thomas e Willian Reid, foi organizada em Ourinhos uma expedição que tinha como objetivo iniciar o processo de povoamento, sob chefia do jovem (20 anos) funcionário George Craig Smith.
Partindo, em um caminhão, na madrugada do dia 20 de agosto de 1929, a caravana pioneira passou por Cambará e na tarde do mesmo dia chegou em Jatahy (Jataizinho), atravessando três rios: Cinzas, Laranjinhas e Congonhas.
Em Jatahy, a Cia. mandara construir dois grandes ranchos de palmito para alojamento e escritório de apoio.
Jatahy está às margens do Rio Tibagi e restavam 22 quilômetros para chegar até as terras da Cia. co-lonizadora.
Foram adquiridas mulas de carga e montaria, e alugadas canoas para travessia do rio e, na madrugada do dia 21 de agosto de 1929, partiu a caravana para a arrancada final. A travessia foi difícil e a viagem foi lenta, através do picadão no meio da fechada floresta.
Depois de muitas horas, na tarde do mesmo dia, o engenheiro russo Dr. Alexandre Rasgulaeff, consultando seus mapas, disse: "Chegamos na divisa das terras da Companhia". Logo em seguida o português Alberto Loureiro, empreiteiro contratado pela Cia., reuniu seus trabalhadores para abrir uma pequena clareira na densa floresta, onde construíram dois ranchos de palmito, existente em grande quantidade, que foram as duas primeiras habitações da futura cidade, localizadas onde hoje se encontram instalações da Gessi Lever (antiga Anderson Clayton). Ali existe marco comemorativo.
Além dos citados, participaram daquela caravana pioneira: Joaquim Benedito Barbosa, Spártaco Bambi, Erwin Froelich, Geraldo Pereira Maia e alguns trabalhadores braçais.
Seriam doze pessoas.
Assim, no dia 21 de agosto de 1929, foi fundada Londrina pela Companhia de Terras Norte do Paraná. O seu primeiro nome foi Patrimônio Três Bocas. A fundação foi consolidada com a construção do Hotel Campestre, para moradia dos funcionários, e da casa do engenheiro Alexandre Ragulaeff, autor do primeiro traçado urbano da cidade. O povoado progrediu rapidamente e a 10 de dezembro de 1934 foi instalado o Município de Londrina.
Olympio Luiz Westphalen, diretor do Museu Histórico de Londrina "Pe. Carlos Weiss", da Universidade Estadual de Londrina
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
Histórias do Paraná - Os congressos do centenário
Histórias do Paraná - Os congressos do centenário
Os congressos do centenário
Tito Moreira Salles
Desembarquei em Curitiba, no dia 2 de janeiro de 1953. As festas de reveillon impediram-me de inaugurá-la no primeiro dia do ano.
Esta cidade estava em plena euforia das comemorações do primeiro centenário da emancipação política.
O governo mandava emitir uma espécie de selo, com dizeres alusivos e com um clichê retratando prédios e paisagens locais.
Hoje, uma folha dessas constitui raridade.
Lem-bro-me que um deles trazia o Hospital São Lucas. O remetente de qualquer carta colava um destes selos no verso do envelope e fazia, dessa maneira, uma propaganda eficaz e informativa.
Havia também os congressos.
Congressos de tudo, de jornalistas, de farmacêuticos, de folclore, de psicologia, de veterinária, etc.
Até parecia que os organizadores de todos os congressos realizados no Brasil, nesse ano, tinham escolhido Curitiba como sede.
Ora, a estudantada logo percebeu que todo congresso tinha seu dia de enceramento e, o melhor, ao final de cada sessão solene de encerramento sempre vinha uma "boca livre". Podia ser coisa simples, com salgadinhos e chope, para os congressos estudantis, ou um sofisticado bufet para os congressos de maior relevância.
Bastava, pois, seguir o noticiário dos eventos e, no último dia, envergar a fatiota para filar um coquetel.
Depois das primeiras doses sorvidas, o ambiente até se tornava de franca cordialidade.
Uma semana, em agosto, foi o Congresso dos Reitores.
Encerramento com toda pompa e circunstância no auditório do Colégio Estadual do Paraná, enorme prédio, novinho em folha.
Foi uma soleníssima sessão, que o governador Bento Munhoz da Rocha fechou com admirável discurso, grande orador que era, onde comparava o desenvolvimento do Norte do Paraná, com a época da expansão da Inglaterra no tempo da rainha Vitória.
Bento cativou público e reitores, foi aplaudidíssimo.
Terminada a cerimônia magnífica, passou-se à mesa do coquetel.
Os já tarimbados "perus" de congresso lá estavam, é claro.
Mas dessa vez ficaram meio acanhados de se aproximar de tão ilustres figuras.
Ao mesmo tempo, porém, o champanhe francês - champanhe francês mesmo! - e as finas iguarias traziam apelos irrecusáveis.
Na indecisão do acanhamen-to, porque os terninhos estavam surrados, a gravata puída e o lustre forçado do sapato pedindo aposentadoria, apareceu o governador em pessoa.
De relance, ele percebeu o que se passava.
Então num gesto de superior liberdade, convidou-nos e insistiu para que nos servíssemos.
Nunca um champanhe e acepipes couberam tão bem.
Tito Moreira Salies, médico.
Os congressos do centenário
Tito Moreira Salles
Desembarquei em Curitiba, no dia 2 de janeiro de 1953. As festas de reveillon impediram-me de inaugurá-la no primeiro dia do ano.
Esta cidade estava em plena euforia das comemorações do primeiro centenário da emancipação política.
O governo mandava emitir uma espécie de selo, com dizeres alusivos e com um clichê retratando prédios e paisagens locais.
Hoje, uma folha dessas constitui raridade.
Lem-bro-me que um deles trazia o Hospital São Lucas. O remetente de qualquer carta colava um destes selos no verso do envelope e fazia, dessa maneira, uma propaganda eficaz e informativa.
Havia também os congressos.
Congressos de tudo, de jornalistas, de farmacêuticos, de folclore, de psicologia, de veterinária, etc.
Até parecia que os organizadores de todos os congressos realizados no Brasil, nesse ano, tinham escolhido Curitiba como sede.
Ora, a estudantada logo percebeu que todo congresso tinha seu dia de enceramento e, o melhor, ao final de cada sessão solene de encerramento sempre vinha uma "boca livre". Podia ser coisa simples, com salgadinhos e chope, para os congressos estudantis, ou um sofisticado bufet para os congressos de maior relevância.
Bastava, pois, seguir o noticiário dos eventos e, no último dia, envergar a fatiota para filar um coquetel.
Depois das primeiras doses sorvidas, o ambiente até se tornava de franca cordialidade.
Uma semana, em agosto, foi o Congresso dos Reitores.
Encerramento com toda pompa e circunstância no auditório do Colégio Estadual do Paraná, enorme prédio, novinho em folha.
Foi uma soleníssima sessão, que o governador Bento Munhoz da Rocha fechou com admirável discurso, grande orador que era, onde comparava o desenvolvimento do Norte do Paraná, com a época da expansão da Inglaterra no tempo da rainha Vitória.
Bento cativou público e reitores, foi aplaudidíssimo.
Terminada a cerimônia magnífica, passou-se à mesa do coquetel.
Os já tarimbados "perus" de congresso lá estavam, é claro.
Mas dessa vez ficaram meio acanhados de se aproximar de tão ilustres figuras.
Ao mesmo tempo, porém, o champanhe francês - champanhe francês mesmo! - e as finas iguarias traziam apelos irrecusáveis.
Na indecisão do acanhamen-to, porque os terninhos estavam surrados, a gravata puída e o lustre forçado do sapato pedindo aposentadoria, apareceu o governador em pessoa.
De relance, ele percebeu o que se passava.
Então num gesto de superior liberdade, convidou-nos e insistiu para que nos servíssemos.
Nunca um champanhe e acepipes couberam tão bem.
Tito Moreira Salies, médico.
Histórias do Paraná - Bolo de Noiva
Histórias do Paraná - Bolo de Noiva
Bolo de Noiva
Francisco Brito de Lacerda
Diva chegou contando que tinha novo namorado, um professor.
- Ele é desquitado ou divorciado, não sei bem.
Isso é chato.
As pessoas adoram invencionices.
Podem espalhar que eu tirei o professor da mulher.
- A separação deles foi agora, nestes dias?
- Faz mais de ano.
Briga velha.
Começou no dia do casamento.
Nem dormiram na mesma cama. A tarde, ele foi buscar o bolo de noiva numa padaria.
Demorou muito.
Voltou dizendo que tinha encontrado uma fulana na rua, parando para conversar. A noiva ficou louca da vida.
Pensou que ele estava namorando a fulana, armou um fuzuê. Acabaram de mal, veja só, antes de entrar na igreja.
- Que pazes? Claro que ele tentou agradar, como quem mostra bandeira branca.
Mas nem assim. A noiva bateu-lhe a porta. E o professor teimoso, foi dormir na cama-de-vento.
De manhã, eles se acertaram.
- Difícil acreditar nessa história.
Casado com uma donzela, o homem chora, sapateia, mas não se sujeita a dormir em cama-de-vento, inda mais na primeira noite.
- Acontece que virgem ela não era.
Durante o namoro, ficavam na salinha, fingindo que viam a novela. A mãe usava chinelo de feltro.
Uma noite, de mansinho, pegou os dois no sofá. O resto você adivinha.
Pouca vergonha! 0 senhor se aproveitou de minha filha menor! As coisas não vãoficar assim... Ele prometeu que casava.
Achou que a namorada estava esperando.
- Que nada! Só teve filho uns dois anos depois, quando o casamento tinha acabado, as portas frouxas de tanta batida.
- Daí veio o desquite?
- Veio.
Ele burrego, desistiu da casa em favor da mulher. E ainda paga uma pensão ao filho.
- Qual é o problema, então? Só casar, não acha?
- Não é bem assim.
Ainda não vi a papelada.
Quero uma garantia. O professor diz que ganha bem, que tem apartamento.
Promete muito, até automóvel.
Tenho medo é do falatório.
- Por que tanto cuidado?
- Eu o conheci solteiro.
Nunca fomos namorados. Só amigos, de dar tchau na rua. E se inventam que ele se divorciou por minha causa? Nesta cidade tudo acontece...
- Bobagem.
Se você for pensar assim...
- Depois, ele é ciumento. Não há igual. Já se mete na minha vida.
Está vendo este dentinho aqui embaixo? Ele acha que é meio escuro.
Me aconselha ir no dentista.
Chegou a perguntar, o safado, se eu lavo a cabeça todos os dias.
Então eu disse: Lavo três vezes por semana.
Você acha pouco?
- Um absurdo.
Logo com você, tão caprichosa...
- Daí ele passou a mão no meu rosto.
Cheirou a ponta dos dedos.
Disse que não gostava de base.
- Esse sujeito só pode ser professor de dança!
- Quando entrei no carrinho dele, para o primeiro passeio, desceu a lenha no meu short, que não é tão curtinho assim, fica mais ou menos por aqui. Não gosto de mulher pelada, ele disse.
- Que coisa!
- E ainda olha minhas unhas.
Exige esmalte natural.
Implica com o meu batom, Se faz de enjoado na hora de comer.
- Quer pratos especiais?
- Reclama muito, é mal-educado.
De tardezinha, domingo, servi café com leite em pó. Sabe o que ele disse? Não gosto de leite em pó. Prefiro leite natural.
Daí eu não me contive. O gato da casa estava em cima do caixão de lenha. A resposta veio na hora.
Se você quer leite de verdade, é só erguer o rabo do gato.
Erguer e apertar...
Francisco Brito de Lacerda, advogado
Bolo de Noiva
Francisco Brito de Lacerda
Diva chegou contando que tinha novo namorado, um professor.
- Ele é desquitado ou divorciado, não sei bem.
Isso é chato.
As pessoas adoram invencionices.
Podem espalhar que eu tirei o professor da mulher.
- A separação deles foi agora, nestes dias?
- Faz mais de ano.
Briga velha.
Começou no dia do casamento.
Nem dormiram na mesma cama. A tarde, ele foi buscar o bolo de noiva numa padaria.
Demorou muito.
Voltou dizendo que tinha encontrado uma fulana na rua, parando para conversar. A noiva ficou louca da vida.
Pensou que ele estava namorando a fulana, armou um fuzuê. Acabaram de mal, veja só, antes de entrar na igreja.
- Que pazes? Claro que ele tentou agradar, como quem mostra bandeira branca.
Mas nem assim. A noiva bateu-lhe a porta. E o professor teimoso, foi dormir na cama-de-vento.
De manhã, eles se acertaram.
- Difícil acreditar nessa história.
Casado com uma donzela, o homem chora, sapateia, mas não se sujeita a dormir em cama-de-vento, inda mais na primeira noite.
- Acontece que virgem ela não era.
Durante o namoro, ficavam na salinha, fingindo que viam a novela. A mãe usava chinelo de feltro.
Uma noite, de mansinho, pegou os dois no sofá. O resto você adivinha.
Pouca vergonha! 0 senhor se aproveitou de minha filha menor! As coisas não vãoficar assim... Ele prometeu que casava.
Achou que a namorada estava esperando.
- Que nada! Só teve filho uns dois anos depois, quando o casamento tinha acabado, as portas frouxas de tanta batida.
- Daí veio o desquite?
- Veio.
Ele burrego, desistiu da casa em favor da mulher. E ainda paga uma pensão ao filho.
- Qual é o problema, então? Só casar, não acha?
- Não é bem assim.
Ainda não vi a papelada.
Quero uma garantia. O professor diz que ganha bem, que tem apartamento.
Promete muito, até automóvel.
Tenho medo é do falatório.
- Por que tanto cuidado?
- Eu o conheci solteiro.
Nunca fomos namorados. Só amigos, de dar tchau na rua. E se inventam que ele se divorciou por minha causa? Nesta cidade tudo acontece...
- Bobagem.
Se você for pensar assim...
- Depois, ele é ciumento. Não há igual. Já se mete na minha vida.
Está vendo este dentinho aqui embaixo? Ele acha que é meio escuro.
Me aconselha ir no dentista.
Chegou a perguntar, o safado, se eu lavo a cabeça todos os dias.
Então eu disse: Lavo três vezes por semana.
Você acha pouco?
- Um absurdo.
Logo com você, tão caprichosa...
- Daí ele passou a mão no meu rosto.
Cheirou a ponta dos dedos.
Disse que não gostava de base.
- Esse sujeito só pode ser professor de dança!
- Quando entrei no carrinho dele, para o primeiro passeio, desceu a lenha no meu short, que não é tão curtinho assim, fica mais ou menos por aqui. Não gosto de mulher pelada, ele disse.
- Que coisa!
- E ainda olha minhas unhas.
Exige esmalte natural.
Implica com o meu batom, Se faz de enjoado na hora de comer.
- Quer pratos especiais?
- Reclama muito, é mal-educado.
De tardezinha, domingo, servi café com leite em pó. Sabe o que ele disse? Não gosto de leite em pó. Prefiro leite natural.
Daí eu não me contive. O gato da casa estava em cima do caixão de lenha. A resposta veio na hora.
Se você quer leite de verdade, é só erguer o rabo do gato.
Erguer e apertar...
Francisco Brito de Lacerda, advogado
quinta-feira, 31 de julho de 2014
Histórias do Paraná - Cascatinha
Histórias do Paraná - Cascatinha
Cascatinha
Nilson Monteiro
A alma italiana falou mais alto quando os irmãos Pedro e Ogênio Trevisan tiveram que decidir entre comprar uma empresa
de transporte com seis ônibus, ou uma lasca de terra, com 48 mil metros quadrados, coberta de mato, nas margens
da Estrada do Cerne.
Eles tinham acabado de voltar, em 1946, da II Guerra Mundial, cujos desafios viveram, na Itália, por um ano e meio,
como expedicionários. O gosto de pisar no chão, senti-lo entre os dedos, rasgá-lo com vontade e até ternura, para plantar,
como ensinava o avô Félix, do Vêneto, os fizeram gastar seus 90 contos de réis na compra de um sítio da família Manosso.
Para lá se mudaram, à beira do rio Ivo, uma veia do Barigüi, que ali tinha (tem) uma queda d’água que chamava tanto a atenção
quanto a mata, os pequenos bichos, o cheiro da terra, a vida daquele pedaço de mundo italiano encravado nas barras de Curitiba.
A casa de madeira onde foram morar Ogênio e Alice, recém-casados, teve um quarto separado para servir de mercearia.
Ali a família vendia fubá de milho feito na roda d’água nos fundos do quintal.
E dona Alice servia sonhos, pastéis, empadas e sorvetes para quem vinha, aos domingos, refrescar-se na cascatinha.
O local virou ponto de encontro.
Em 1949, eles inauguraram o primeiro restaurante de Santa Felicidade.
Os agricultores Pedro e Ogênio sentiam na boca o gosto do comércio. A pequena casa atendia principalmente
caminhoneiros que vinham do Norte do Estado, transportando café para o porto de Paranaguá.
Mas, com seu "sortido" - radiche, risoto, frango e polenta fritos — começou a cativar também carroceiros, colonos
e empregados das inúmeras pedreiras vizinhas ao bairro.
Os Trevisan, contudo, continuaram plantando. O vinho das refeições era produzido de seu vinhedo.
As verduras, colhidas em sua terra.
Os frangos e porcos criados no sítio.
Pedro e Ogênio, filhos de Ângelo, criaram seus oito filhos no mesmo quintal, enquanto Santa Felicidade transformava-se
na capital gastronômica do Paraná, com restaurantes brotando aqui e ali, o bairro mudando sua pose, sem perder o tempero italiano.
A casa de madeira teve cinco mil flâmulas penduradas pelas paredes. O costume, contam Pedro e Ogênio, era uma mostra
do bem-querer dos clientes, que lhes davam as flâmulas. A estrada virou avenida.
A casa de madeira, que passou por sete reformas até 1972, foi substituída por um prédio em alvenaria de 1,4 mil metros quadrados.
Os filhos começaram a ajudar Pedro e Ogênio em seu negócio, enquanto dona Alice continuou enfiada na cozinha, fazendo o que mais sabe.
Ogênio mostra a mão de agricultor, apesar de os hábitos terem mudado:
a saúde pública não permite que se criem porcos e frangos no fundo do quintal; a carne vem de um abatedouro;
o vinho, de outros produtores; as 8 mil refeições servidas mensalmente no restaurante têm, obrigatoriamente, que ser produzidas em ritmo industrial.
E a marca do tempo, entendem os irmãos.
Altevir, sociólogo, filho de Ogênio, administra o Restaurante Cascatinha.
E Renato, filho de Pedro, é o responsável pelo Castello Trevizo, novo restaurante da família, construído na mesma lasca de terra e com capacidade para alimentar 1,2 mil pessoas de uma só vez.
Pioneiros, de olhos molhados ao reviver sua história, Pedro e Ogênio sentem o cheiro dos anos 40 no borbulhar das mesmas águas.
A cascatinha, saudade líquida, é a mesma. E a alma é a mesma, italiana.
Nilson Monteiro, jornalista
Cascatinha
Nilson Monteiro
A alma italiana falou mais alto quando os irmãos Pedro e Ogênio Trevisan tiveram que decidir entre comprar uma empresa
de transporte com seis ônibus, ou uma lasca de terra, com 48 mil metros quadrados, coberta de mato, nas margens
da Estrada do Cerne.
Eles tinham acabado de voltar, em 1946, da II Guerra Mundial, cujos desafios viveram, na Itália, por um ano e meio,
como expedicionários. O gosto de pisar no chão, senti-lo entre os dedos, rasgá-lo com vontade e até ternura, para plantar,
como ensinava o avô Félix, do Vêneto, os fizeram gastar seus 90 contos de réis na compra de um sítio da família Manosso.
Para lá se mudaram, à beira do rio Ivo, uma veia do Barigüi, que ali tinha (tem) uma queda d’água que chamava tanto a atenção
quanto a mata, os pequenos bichos, o cheiro da terra, a vida daquele pedaço de mundo italiano encravado nas barras de Curitiba.
A casa de madeira onde foram morar Ogênio e Alice, recém-casados, teve um quarto separado para servir de mercearia.
Ali a família vendia fubá de milho feito na roda d’água nos fundos do quintal.
E dona Alice servia sonhos, pastéis, empadas e sorvetes para quem vinha, aos domingos, refrescar-se na cascatinha.
O local virou ponto de encontro.
Em 1949, eles inauguraram o primeiro restaurante de Santa Felicidade.
Os agricultores Pedro e Ogênio sentiam na boca o gosto do comércio. A pequena casa atendia principalmente
caminhoneiros que vinham do Norte do Estado, transportando café para o porto de Paranaguá.
Mas, com seu "sortido" - radiche, risoto, frango e polenta fritos — começou a cativar também carroceiros, colonos
e empregados das inúmeras pedreiras vizinhas ao bairro.
Os Trevisan, contudo, continuaram plantando. O vinho das refeições era produzido de seu vinhedo.
As verduras, colhidas em sua terra.
Os frangos e porcos criados no sítio.
Pedro e Ogênio, filhos de Ângelo, criaram seus oito filhos no mesmo quintal, enquanto Santa Felicidade transformava-se
na capital gastronômica do Paraná, com restaurantes brotando aqui e ali, o bairro mudando sua pose, sem perder o tempero italiano.
A casa de madeira teve cinco mil flâmulas penduradas pelas paredes. O costume, contam Pedro e Ogênio, era uma mostra
do bem-querer dos clientes, que lhes davam as flâmulas. A estrada virou avenida.
A casa de madeira, que passou por sete reformas até 1972, foi substituída por um prédio em alvenaria de 1,4 mil metros quadrados.
Os filhos começaram a ajudar Pedro e Ogênio em seu negócio, enquanto dona Alice continuou enfiada na cozinha, fazendo o que mais sabe.
Ogênio mostra a mão de agricultor, apesar de os hábitos terem mudado:
a saúde pública não permite que se criem porcos e frangos no fundo do quintal; a carne vem de um abatedouro;
o vinho, de outros produtores; as 8 mil refeições servidas mensalmente no restaurante têm, obrigatoriamente, que ser produzidas em ritmo industrial.
E a marca do tempo, entendem os irmãos.
Altevir, sociólogo, filho de Ogênio, administra o Restaurante Cascatinha.
E Renato, filho de Pedro, é o responsável pelo Castello Trevizo, novo restaurante da família, construído na mesma lasca de terra e com capacidade para alimentar 1,2 mil pessoas de uma só vez.
Pioneiros, de olhos molhados ao reviver sua história, Pedro e Ogênio sentem o cheiro dos anos 40 no borbulhar das mesmas águas.
A cascatinha, saudade líquida, é a mesma. E a alma é a mesma, italiana.
Nilson Monteiro, jornalista
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