domingo, 31 de agosto de 2014

Histórias do Paraná - Enfim, no mapa

Histórias do Paraná - Enfim, no mapa

Enfim, no mapa
Acir Rachid

Ter nascido e residido em Campo do Tenente teve vantagem e decepções.
Uma infância tranqüila, férias escolares divertidas, convivência com pessoas dignas e honestas sempre nos trouxeram agradáveis recordações.
Mas explicar aos colegas do ginásio, em Curitiba, onde se localizava a nossa terra natal e qual a sua importância, era freqüente motivo de chacota. Não conseguíamos sequer provar a sua natureza geográfica, porque era um distrito do município de Rio Negro, e não constava daqueles mapas que eram mostrados na Geografia.
De tanto ser espicaçados por este anonimato incômodo, fomos aprendendo a nos defender, até mesmo depois de adultos, procurando valorizar algumas facetas pouco conhecidas do lugar, mesmo dos tenentianos.
Feitos como estes:
De 1925 a 1940, lá esteve instalada a maior indústria de extração e beneficiamento de madeira do Paraná e talvez do Brasil.
Era a firma Henrique Stahlke e Filhos. E foi exatamente nesta indústria que se observou a primeira greve de operários, nos anos 30, após a demissão de dezenas de trabalhadores idosos. Não havia indenização obrigatória por lei e os patrões queriam somente escriturar as casas onde já moravam os operários. A solidariedade foi total, inclusive com o apoio moral da população e repercussão na imprensa.
Um aspecto notável é que, no ano de 1928, foi construído lá o primeiro avião brasileiro.
Tendo aportado na cidade um ex-combatente ou mecânico da guerra de 14-18, sensibilizou o patrão Stahlke, que importou da Alemanha um motor de avião e, com isto, o aventureiro foi fabricando sua aeronave, com grande curiosidade dos habitantes locais, principalmente as crianças que toda a tarde iam assistir o progresso da construção.
Parece-nos que o avião chegou mesmo a fazer umas tentativas de vôo rasante. A decolagem oficial estava marcada para a data em que o Presidente do Estado, Affonso Camargo, deveria comparecer às festividades do centenário de Rio Negro. O avião acompanharia, pelo céu, a composição ferroviária que passava pelo local.
Quatro dias antes do evento, porém, o esperto sumiu da cidade, deixando uma grande frustração.
Depois de adultos, descobrimos outras habilidades dos tenentianos.
Cada vez que os adversários diziam que o que lá prestava eram só as coxinhas do D'Amico, retribuíamos que a melhor relação entre Diplomatas/Professores Universitários era nossa.
Para espanto da maioria, mostrávamos que, entre os dez tenentianos possuidores de diploma universitário, nove eram professores de ensino superior, todos da área médica.
A lista inclui Hamilton Córdova, Oton Ferraz Filho, Lídio Jair Centa, Henrique Stahlke Neto e mais o autor destas linhas, todos professores da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná; Ataliba Moreira e Narciso Grein Filho, professores da Faculdade de Odontologia da UFPR, Nélio Centa, professor da Faculdade de Medicina da PUC-PR; e Maria de Lourdes Centa, professora do curso de Enfermagem da UFPR.
Aos detratores só restava comentar o pequeno número de diplomados de Campo do Tenente... (A falta de registro histórico, aliás, não sabíamos quem teria sido esse Tenente).
Em todo o caso, chegou o dia em que Campo do Tenente foi desmembrado de Rio Negro, virou município, elegeu prefeito.
Foi em 1961. A partir daí, teríamos um motivo de chacota a menos.
Quem primeiro reparou foi nosso velho amigo de becaria na seleção universitária e na equipe de futebol de Rio Negro, o festejado advogado Reinaldo Dacheux Pereira.
Num encontro na Rua XV, ele nos contou, efusivamente, a notícia da emancipação do município e comentou: ‘Adr, Campo do Tenente agora está no mapa... "

Acir Rachid, médico e professor da Universidade Federal do Paraná

sábado, 30 de agosto de 2014

Histórias do Paraná - Dia da raça

Histórias do Paraná - Dia da raça

Dia da raça
Luiz Spinato Ribeiro

Há meio século, a pequena Curitiba se encontrava nas esquinas.
Praticamente todos se conheciam e o tema, na época, obviamente era a
II Guerra que tinha "capturado" nossos pracinhas da FEB (Força Expedicionária Brasileira). Manoel Ribas - o Manéco Facão - governava o Estado com autoridade e austeridade. E neste país de tantos feriados, havia um, decifrável pelo regime vigente e ambíguo: enviara soldados para combater ao lado dos aliados, mas tinha cores internas ditatoriais.
Esse feriado era o "Dia da Raça", comemorado a 4 de setembro.
Nesse dia, desfiles cívicos tentaram confirmar a "brasilidade".
Em 4 de setembro de 1943 ou
1944, me falha a memória, quase dois mil alunos do Colégio Estadual do Paraná, quase todos de classe média remediada ou quase pobres, calças azuis e camisas brancas, fecharam o desfile do "Dia da Raça". Seguiam a brava rapaziada do Colégio Santa Maria, freqüentado pela então fina flor da sociedade curitibana, com seus uniformes semelhantes ao dos militares, quepes coloridos, polainas, botões dourados.
O desfile era notícia de primeira página nos jornais. E a "Gazeta" não perdoou.
Na linguagem dos repórteres, "deu um pau" no desfile do Colégio Estadual.
Ao chegar no colégio no dia seguinte, notei um revoltoso burburinho contra a "Gazeta do Povo". Resultado: decidiu-se pelo empastelamento do jornal, que funcionava na Rua XV, entre a Mosenhor Celso e a Marechal Floriano. O colégio inteiro reuniu-se na Praça Santos Andrade e, em marcha batida, rumou para a sede do jornal.
Na esquina da Monsenhor Celso com a Rua XV, a massa foi contida por um homem de cabelos brancos, voz forte e decidido, que berrou: - "Sigam-me!" Era o professor Francisco José Gomes Ribeiro que, liderou a massa de imberbes rumo ao Colégio Estadual, localizado na época na Rua Ébano Pereira — onde é hoje a Secretaria da Cultura.
Encerrou os alunos no auditório e passou um sonoro sabão nos "agitadores", lembrando que na democracia a liberdade de crítica, a liberdade de imprensa é fundamental.
Empastelar (fechar) um jornal é como rasgar a Constituição, apunhalar a cidadania. E estávamos sob a ditadura de Vargas.
O homem de cabelos brancos tinha sabedoria.
Durante mais de uma década dirigiu o Colégio Estadual.
Era meu pai.
Luiz Spinato Ribeiro, engenheiro


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Histórias do Paraná - Rio do Mello

Histórias do Paraná - Rio do Mello

Rio do Mello
Luiz Romaguera Neto

Quase um século nos separa dos dias fraticidas, no dizer do Marechal Bormann, em "Dias Fraticidas", vividos por nossos ascendentes no decorrer de Revolução Federalista.
Alguns historiadores escreveram sobre o assunto. Há livros, não muito lidos, que relatam os fatos vividos.
Entre as histórias que se contam, conto uma.
Como a resistência imposta à tropa federalista na Lapa, correu em União da Vitória a notícia que o Oficial da Marinha Pio Toreli ali vivia para levar os vapores para Rio Negro, preparando, assim, a fuga do General Piragibe para o sul.
Aquele oficial voltara a Rio Negro, mas seus companheiros, bandidos desqualificados, praticaram atos atrozes.
No vapor que os conduziu pelo rio Iguaçu, iam presos o polaco Bernardino Kokrane e os brasileiros Fernando Marques, o velho octogenário de nome Portes, Lícinio de Mello e Isidoro José Barbosa, legalistas.
Ao velho Portes, morador do sítio Roseira e tido como homem rico, foi proposto resgatar sua vida por dez contos de réis. O preso declarou não ter essa quantia.
Então lhe disseram que seria liquidado, ao que estoicamente respondeu: - "O homem nasceu para morrer." A faca sicária entrou em ação. O velho, espadanando-se, salpicou com seu sangue para sempre a consciência de seus assassinos.
Anacleto era o nome do carrasco; e, com este, já eram 48 as suas vítimas.
Os outros presos, vendo que suas vidas nada prestavam naquela situação, recorreram ao Sr. Joaquim Luiz Gomes dos Santos (Nhoca), que também fazia parte do grupo, e que, homem bom e generoso, não concordava com a barbaridade que acabara de presenciar.
No dia seguinte, o cidadão Abel Caim de Souza e Lima lavrou enérgico protesto contra o miserável crime.
Pagou com sua própria vida.
Nessas condições, lembrando-se do prometido aos outros presos pelo Nhoca, Lavrador, chefe revolucionário ali presente, pôs fim às barbaridades, deu um basta aos si-cários.
Essa gente não queria protesto; só aceitava silêncio ou francos aplausos.
Os protestos provocaram suspeitas; estas, as degolas.
Pouco depois daqueles crimes cometidos e com os presos já entregues, voltavam os assassinos a bordo do navio Potinga, quando foram interceptados pelo tenente Francisco Bacelar.
Este meteu a pique o vapor que os conduzia e varou o peito de Anacleto à bala.
Fez justiça.
Curioso o que ocorreu com Licínio Mello.
Vinha de Itapetininga para o Paraná e, ao ser perseguido pelos revoltosos, pensou tratar-se de outras pessoas com as quais já tinha rixa e que o procuravam.
Disse cha-mar-se Lícinio de Oliveira Dias.
Essa mudança ocorreu de combinação com seus irmãos.
Quando vinha de São Paulo, na travessia de um rio que tinha o nome de rio do Melo ou do Mello, trataram entre si que, se fossem interpelados, dariam esse sobrenome para não serem reconhecidos.
Por certo, apavorado com os acontecimentos, não hesitou em dar o nome trocado, que acabou usando para toda vida, passando também a seus descendentes.
Hoje, ao lembrarmos os anacletos daqueles tempos, ficamos a pensar em quanto é curta a nossa memória e quão pouco sabemos da nossa história, mesmo aquela ocorrida nos arredores de nossa cidade.

Luiz Romaguera Neto, membro do Instituto Histórico Geográfico e Etnográfico do Paraná

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Histórias do Paraná - Eneida e Itaipu

Histórias do Paraná - Eneida e Itaipu

Eneida e Itaipu
Hélio Teixeira

Durante mais de uma década
- entre 1972 e 1984 - as barrancas do rio Paraná foram quase um quintal para belas reportagens sobre o andamento de construção de Itaipu.
No período, exerci a chefia da sucursal curitibana de "Veja" (quem trabalhou na ‘Veja" acostumou-se — e não sei porque razão - ser "de" e não "dá" Veja) e tive a oportunidade e a felicidade jornalística de acompanhar quase como um peão todas as fases do grande projeto.
Inclusive as indecifráveis reuniões tripartites, onde espoucavam os conflitos de interesse do Brasil, Argentina e Paraguai em relação ao aproveitamento hidrelétrico do "Paranazão".
Na época, testemunhei os generais brasileiros que ocupavam o Palácio do Planalto invariavelmente irem se encontrar com um mesmo general paraguaio (Alfredo Stroessner) em solenidades na Ponte da Amizade.
Assim foi com Médici, Geisel e Figueiredo, todos paparicando a velha amizade brasi-leiro-paraguaia, como se não estivesse em jogo bilhões de dólares em energia que seria produzida por Itaipu.
Nesse jogo político-econômico, pelo jeito, os paraguaios se julgam prejudicados, porque até hoje querem rever o acordo bi-nacional, embora a dívida de Itaipu com empréstimos externos e internos seja um ônus verde-amarelo.
Mas essa é outra questão.
Pelo seu cenário gigantesco, Itaipu ofereceu uma diversificada e infindável relação de matérias jornalísticas. O numero de operários suplantavam a população de boa parte das cidades brasileiras, o reservatório de quase 200km de extensão se comparava à baia de Guanabara, o volume de concreto significava não sei quantos Maracanãs. E por ai corriam as águas do ‘Taranazão" antes de serem bloqueadas pela barreira de ferro, aço e cimento.
Na primeira vez que lá estive, em 1972, deparei com alguns solitários homens de capacetes realizando sondagens geológicas diante da pedra chamada pelos guaranis de Itaipu (pedra cantante). Enquanto generais, técnicos e políticos tentavam se entender, esses homens já começaram a avançar sobre o que seria a maior hidrelétrica do mundo. E Foz do Iguaçu? Foz tinha seus 25 mil habitante, poeirenta, modorenta, ensolarada, muito diferente da ma-luquice de hoje dos mochileiros ou de ontem com milhares de peões ou barrageiros.
Fui para descrever como seria o futuro da cidade e da região, como se tivesse bola de cristal. O que vi e ouvi foram narrativas em cima de vastos cronogramas, mapas contorcionistas e indecifráveis, mas tudo prevendo a exploração daquela região da fronteira. O que se revelou uma verdade verdadeira.
Quem não acreditou nas antevisões foi Eneida, uma jovem manceba que dominava com suas saias curtas e blusas decotadas os salões da buate "Neocid" (é, Neocid com o inseticida). Ela achou inacreditável a história ouvida dos primeiros funcionários da binacional que foram avisar às hospedes da "Neocid" da necessidade de se prepararem para deixar o local, porque ali nasceria um enorme supermercado da Cobal.
Sem a luz néon que disfarçava rugas e vari-zes, Eneida disparou:
- "Mas seu moço, aqui o pessoal vem comer outras coisas".

Helio Teixeira, jornalista

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Histórias do Paraná - D. Redro II na Lapa

Histórias do Paraná - D. Redro II na Lapa

D. Redro II na Lapa
Sérgio A. Leoni

O dia 31 de maio de 1880, uma segunda-feira, passaria a ser histórico para a Lapa, conforme descreveu José Saboya Cortes em artigo publicado em dezembro de 1925 na Gazeta do Povo.
Naquela data, às 18h30, depois de muita expectativa e providências por parte da comunidade, chegaram D. Pedro II, a imperatriz Dona Tereza Cristina e sua grande comitiva que, além de várias damas, de honor e camareiras, compunha-se ainda de muitas personalidades ilustres.
Hospedaram-se no solar de David dos Santos Pacheco (depois Barão dos Campos Gerais), que para solenizar o acontecimento alforriou todos os seus escravos, antecipando-se de 8 anos à própria Lei Áurea e tornando-se, portanto, pioneiro da Liberdade no Paraná.
A cidade estava em festa, sinos repicaram, foguetes estrugiram, as ruas estavam tapisadas de folhas de laranjeiras, ornamentadas de pinheiros e bandeiras imperiais.
As janelas engalanadas de finíssimas colchas, de onde pendiam as tradicionais lanternas triangulares coloridas.
Pela manhã, bem cedo, os Monarcas e a comitiva foram assistir a missa festiva na igreja matriz, engalanada pelo Pe. Ignácio de Almeida Faria, e repleta de povo.
Depois visitaram o Campo Santo; o Theatro São João; o correio; a escola do mestre Pedro Fortunato de Magalhães; a escola da mestra Rita Idalina de Carvalho e a casa de Câmara e Cadeia.
Na cadeia, o Imperador ouviu os presos e, atendendo o pedido da menina Eudóxia Westphalen, solicitou os documentos do criminoso Francisco Mafaldo, condenado a galés perpétua, para que fosse perdoado.
Esse seu gesto e bondade ficou célebre e o preso, que tinha bom comportamento, foi mais tarde realmente perdoado pela Princesa Izabel.
O de junho — encontrava-se o Imperador na porta da casa do Barão, cercado de sua brilhante comitiva e, conforme contavam os antigos, ocorreu o seguinte episódio:
Aproximou-se um velho alemão muito alto, espadaúdo.
Simpático que era e, imponente pela sua elevada estatura, chamou logo a atenção imperial.
Num ato de admirável simplicidade, o Imperador, esquecendo o protocolo, desceu a calçada e foi encontrar o velho, que se chamava Guilherme Scharneweber. E só então o Imperador ficou sabendo, com grande emoção e alegria, que Guilherme viera jovem na comitiva da sua Imperatriz Mãe, a austríaca Dna.
Maria Leopoldina, e pertencera à Guarda Imperial de D. Pedro I, tendo muitas vezes pajeado o Imperador Menino, nas suas folgas pelo Paço da Boa Vista. E sabendo disso,
D. Pedro abraçou e beijou o velho Guilherme, recolhendo-o na sala do Barão, onde conversaram durante longo tempo em língua alemã.
Dizem que, daí em diante, Scharneweber subiu no conceito geral, sendo admirando e até invejado por muitos...

Sergio A. Leoni, ex-prefeito da Lapa