Histórias do Paraná - O raciocínio do caboclo
O raciocínio do caboclo
Flora C. Munhoz da Rocha
Esta é uma história muito antiga, contada de pai para filho e de filho para neto e bisneto.
Carlos Cavalcanti, já no fim de seu mandato de Presidente do Estado, tinha como seu candidato a sucessor Affonso Camargo, meu pai.
Naquela época, há mais de 80 anos, campanha política em tempo de transporte lento, era uma exaustão.
As poucas estradas, ora poeirentas, ora lamacentas, acompanhavam os declives das áreas acidentadas sem oferecer conforto.
Um pouco de trem, outro pouco de carroça, muito de trote de cavalo.
Mas os chefes políticos, coronéis e cabos eleitorais do litoral e interior precisavam ser procurados e orientados.
Não sei como eram processadas as viagens presidenciais, mas sei de um caso que papai nos contava com muito humor:
Certa vez, Presidente Carlos Cavalcanti e Affonso Camargo, cavalgavam de baixo de sol a pino, quando a sede começou a incomodar.
Galopeavam atentos a algum rancho de beira de estrada que lhes desse uma caneca de água de poço.
Num final de curva, avistaram um caboclo fumando seu pito no degrau de uma varandinha bem jeitosa.
Amorteceram o trote e apearam.
Disseram o por quê. Hospitaleiro, o homem foi até o quintal e, sem demora, retorna com uma cuia transbordando de água cristalina.
Encaminhou-se para meu pai que, de imediato, recusou segurar. ‘Tor obséquio, primeiro para ele". Presidente Cavalcanti declina: "Deixe de cerimônia e beba logo". "Era o que faltava", contestou Affonso Camargo respeitando a hierarquia.
Estabeleceu-se um diálogo de troca de cordialidade.
Um não queria beber antes do outro e o caboclo só estendendo a cuia de lá par cá até que desacorçoou.
Aquilo não estava fazendo sentido para seu simplório discernimento.
Pigarreou e, em tom categórico, solucionou o vai-não-vai.
- Mecês tão refugando. Não querem água coisa nenhuma.
Tomando iniciativa, esticou o braço e, num impulso certeiro, pinchou o conteúdo no meio do terreiro.
Ali no seu universo restrito, jamais imaginaria estar diante de um Presidente de Estado coberto de glórias. E muito menos entenderia de prioridade e deferências.
Para ele não passavam de dois homens da Capital, cheios de lero-lero.
Seguiu-se um silêncio de espanto e um cruzar de olhos desapontados ao verem a água preciosa encharcando a terra vermelha.
Não havia mais nada a fazer a não ser, sufocando o riso, voltar para o trote dos cavalos.
Sem alternativa, seguiram caminho de garganta seca e lábios sem saliva, mas de lição aprendida.
Na próxima parada, com certeza, não se repetiria o caso mal resolvido.
Flora C. Munhoz da Rocha, Ex-primeira dama do Estado, e cronista
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Histórias do Paraná - Viva a diferença!
Histórias do Paraná - Viva a diferença!
Viva a diferença!
Ayrton Ricardo dos Santos
Há, na Avenida Cândido de Abreu, um terreno baldio, servindo, hoje, para estacionamento de automóveis.
Ali existia, até pouco tempo, um dos mais bonitos prédios da cidade: o Teatro do Trabalhador.
Construído no início dos anos 70, quando o engenheiro Mário de Mari presidia a Federação das Indústrias do Paraná. Projeto arquitetônico de Rubens Meister, garantia de beleza estética e funcionalidade.
Bastante recuado da rua, deixava espaço suficiente para os canteiros de um jardim com magníficas flores ornamentais e pátio amplo, para abrigar os carros dos freqüentadores.
A fachada principal, em vidro blindex, seguia-se espaçoso "hall" com piso de granito.
Entre as duas escadarias laterais em mármore branco, ficavam os sanitários com seus balcões e lavatórios também em mármore... Houve quem dissesse ser aquilo, um luxo a que os operários não se iriam adaptar... Ledo engano como Meister previa, ao argumentar com sabedoria e paciência:
- "Se não lhes dermos instalações convenientes, como irão aprender a usá-las?"
As escadas laterais davam para o auditório a cuja frente um palco enorme abrigava, inclusive, uma cancha poli-esportiva para torneios internos. O forro, de madeira nobre artisticamente trabalhada, permitia os espaços necessários para adequada iluminação indireta.
No auditório, amplo e arejado, dispunham-se poltronas estofadas, em couro vermelho.
Ao vê-las, alguém lembrou, apreensivo:
- "O Dr. Otávio Ferreira do Amaral Neto, quando exercia a Superintendência do Teatro Guaíra, confidenciou, certa vez, que precisava dispor de uma verba especial considerável para reparar estragos, cortes a canivete ou navalha nas poltronas do Guairinha, freqüentado pela fina flor da sociedade local..."
Durante seu funcionamento, até ser destruído por um incêndio, a 3 de junho de 1991, realizaram-se, no Teatro do Trabalhador, inúmeros e importantes eventos de toda a natureza; representações teatrais, encenações de peças infantis que faziam o deleite dos filhos de industriários, principalmente dos que freqüentavam os jardins de infância do Sesi; encontros de corais e de conjuntos musicais e os apreciadíssimos festivais de música popular brasileira, com o auditório sempre super lotado e o povão cantando e dançando na platéia as músicas executadas, no palco, pelos conjuntos musicais.
Um delírio!...
Em mais de 15 anos de atividade não houve registro de cortes, navalhadas ou danos intencionalmente causados nas poltronas, sanitários ou outras dependências do teatro...
E viva a diferença!...
Ayrton Ricardo dos Santos, Médico, foi superintendente do Sesi
Viva a diferença!
Ayrton Ricardo dos Santos
Há, na Avenida Cândido de Abreu, um terreno baldio, servindo, hoje, para estacionamento de automóveis.
Ali existia, até pouco tempo, um dos mais bonitos prédios da cidade: o Teatro do Trabalhador.
Construído no início dos anos 70, quando o engenheiro Mário de Mari presidia a Federação das Indústrias do Paraná. Projeto arquitetônico de Rubens Meister, garantia de beleza estética e funcionalidade.
Bastante recuado da rua, deixava espaço suficiente para os canteiros de um jardim com magníficas flores ornamentais e pátio amplo, para abrigar os carros dos freqüentadores.
A fachada principal, em vidro blindex, seguia-se espaçoso "hall" com piso de granito.
Entre as duas escadarias laterais em mármore branco, ficavam os sanitários com seus balcões e lavatórios também em mármore... Houve quem dissesse ser aquilo, um luxo a que os operários não se iriam adaptar... Ledo engano como Meister previa, ao argumentar com sabedoria e paciência:
- "Se não lhes dermos instalações convenientes, como irão aprender a usá-las?"
As escadas laterais davam para o auditório a cuja frente um palco enorme abrigava, inclusive, uma cancha poli-esportiva para torneios internos. O forro, de madeira nobre artisticamente trabalhada, permitia os espaços necessários para adequada iluminação indireta.
No auditório, amplo e arejado, dispunham-se poltronas estofadas, em couro vermelho.
Ao vê-las, alguém lembrou, apreensivo:
- "O Dr. Otávio Ferreira do Amaral Neto, quando exercia a Superintendência do Teatro Guaíra, confidenciou, certa vez, que precisava dispor de uma verba especial considerável para reparar estragos, cortes a canivete ou navalha nas poltronas do Guairinha, freqüentado pela fina flor da sociedade local..."
Durante seu funcionamento, até ser destruído por um incêndio, a 3 de junho de 1991, realizaram-se, no Teatro do Trabalhador, inúmeros e importantes eventos de toda a natureza; representações teatrais, encenações de peças infantis que faziam o deleite dos filhos de industriários, principalmente dos que freqüentavam os jardins de infância do Sesi; encontros de corais e de conjuntos musicais e os apreciadíssimos festivais de música popular brasileira, com o auditório sempre super lotado e o povão cantando e dançando na platéia as músicas executadas, no palco, pelos conjuntos musicais.
Um delírio!...
Em mais de 15 anos de atividade não houve registro de cortes, navalhadas ou danos intencionalmente causados nas poltronas, sanitários ou outras dependências do teatro...
E viva a diferença!...
Ayrton Ricardo dos Santos, Médico, foi superintendente do Sesi
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Histórias do Paraná - Um bilhete
Histórias do Paraná - Um bilhete
Um bilhete
Murilo Walter Teixeira
Um jovem moreno, blusão vermelho desbotado cujas mangas escondiam as mãos, entregou-me ali no canto da praça, próximo à Casa Paroquial, um bilhete rabiscado numa folha de papel almaço, dupla.
Escreveu nas páginas internas.
A medida que me deslocava pelo passeio do muro dos Padres, abrindo-o cuidadosamente, um cachorro com seus latidos estridentes me sobressalta deixando cair a folha de papel que teimava em seguir o vento, alojando-se no meio-fio.
Apanhei-a e vejam o que continha: "O manto divino lhe proteja e guie seus passos.
Estamos em apuros. O comportamento de meu pai está se tornando, além de ridículo, agressivo e incômodo. Não que ele venha a brigar ou injuriar quem quer que seja, mas, a maneira como se apresenta em público.
Veja. Trasanteontem, saiu de casa com meias de cores diferentes: vermelha e branca.
Sapatos, idem. No pé direito um tênis.
No esquerdo, sapato preto.
Guarda chuva aberto para se proteger do sol.
Luvas de couro. Ambas sem o dedo indicador e este envolvido com mercúrio.
Ridículo, pois quando cumprimentou uma vizinha, esta ficou estarrecida com aquele dedo "sangrando".
Ele riu, gostosamente. Mas, o pior.
Saiu com o calção de meu irmão do time lá da fábrica.
Aquelas pernas finas, brancas e compridas, além da indumentária esquisita, serviu de chacota e risos no bairro.
Porém, o impossível aconteceu domingo à tarde, próximo à Igreja, perto da cancha feita pela Prefeitura.
Havia um jogo de Voley com uma respeitável assistência.
Papai apareceu com mais três amigos e todos vestidos da mesma forma bizarra e esdrúxula.
Agora, conduzia uma sombrinha, chapéu de boiadeiro e chinelos diferentes.
Como deve imaginar, o alvoroço foi inevitável, atrapalhando a competição nos seus momentos mais decisivos.
Em casa permanece o dia todo assobiando a mesma música. Não dá, ninguém agüenta.
Quando não, aparece com um papagaio, tentando ensinar-lhe o Hino Nacional.
Diz ser para o desfile de sete de setembro.
Rogo-lhe suas orações e bênçãos.
Obrigada.
Desculpe a letra.
Maria".
Acho que houve um engano.
Era para o Padre, mas, acredito que pouco podia fazer, senão rezar.
Murilo Walter Teixeira, dentista em Guarapuava
Um bilhete
Murilo Walter Teixeira
Um jovem moreno, blusão vermelho desbotado cujas mangas escondiam as mãos, entregou-me ali no canto da praça, próximo à Casa Paroquial, um bilhete rabiscado numa folha de papel almaço, dupla.
Escreveu nas páginas internas.
A medida que me deslocava pelo passeio do muro dos Padres, abrindo-o cuidadosamente, um cachorro com seus latidos estridentes me sobressalta deixando cair a folha de papel que teimava em seguir o vento, alojando-se no meio-fio.
Apanhei-a e vejam o que continha: "O manto divino lhe proteja e guie seus passos.
Estamos em apuros. O comportamento de meu pai está se tornando, além de ridículo, agressivo e incômodo. Não que ele venha a brigar ou injuriar quem quer que seja, mas, a maneira como se apresenta em público.
Veja. Trasanteontem, saiu de casa com meias de cores diferentes: vermelha e branca.
Sapatos, idem. No pé direito um tênis.
No esquerdo, sapato preto.
Guarda chuva aberto para se proteger do sol.
Luvas de couro. Ambas sem o dedo indicador e este envolvido com mercúrio.
Ridículo, pois quando cumprimentou uma vizinha, esta ficou estarrecida com aquele dedo "sangrando".
Ele riu, gostosamente. Mas, o pior.
Saiu com o calção de meu irmão do time lá da fábrica.
Aquelas pernas finas, brancas e compridas, além da indumentária esquisita, serviu de chacota e risos no bairro.
Porém, o impossível aconteceu domingo à tarde, próximo à Igreja, perto da cancha feita pela Prefeitura.
Havia um jogo de Voley com uma respeitável assistência.
Papai apareceu com mais três amigos e todos vestidos da mesma forma bizarra e esdrúxula.
Agora, conduzia uma sombrinha, chapéu de boiadeiro e chinelos diferentes.
Como deve imaginar, o alvoroço foi inevitável, atrapalhando a competição nos seus momentos mais decisivos.
Em casa permanece o dia todo assobiando a mesma música. Não dá, ninguém agüenta.
Quando não, aparece com um papagaio, tentando ensinar-lhe o Hino Nacional.
Diz ser para o desfile de sete de setembro.
Rogo-lhe suas orações e bênçãos.
Obrigada.
Desculpe a letra.
Maria".
Acho que houve um engano.
Era para o Padre, mas, acredito que pouco podia fazer, senão rezar.
Murilo Walter Teixeira, dentista em Guarapuava
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Histórias do Paraná - O espelho da Comendador
Histórias do Paraná - O espelho da Comendador
O espelho da Comendador
Suzi Mariano Gubert
Na década de quarenta, as duas primas freqüentavam as aulas do curso ginasial no Instituto de Educação do Paraná.
Moravam no Batei e seu caminho para a escola era a Rua Comendador Araújo.
Uma alta, bonita, cabelos longos, pele alva e pernas bem feitas. A outra, magrela, cabelos ralos, sem graça.
Porém, nada disso tinha importância para as duas estudantes.
Iam alegres e descuidadas, curtindo sua juventude, sem problemas, que de tudo achavam graça.
Desciam a rua saltitantes, competindo com muito cuidado, para não pisar nas pedras pretas dos pinhões e pinheiros desenhados no petit-pavet semi-novo das largas calçadas daquela rua. O movimento era muito pequeno e elas podiam vislumbrar de longe esses desenhos, tão paranaenses.
Iam devagar, correndo o risco de chegar atrasadas na aula.
Mas não havia pressa.
Mesmo sob a garoa gelada tão conhecida das pequenas curitibanas, ou sob o sol forte batendo em seus rostos, continuavam felizes e brincalhonas.
Uma paradinha aqui para roubar uma flor e levar para a professora, outra parada ali afim de olhar os pássaros que pulavam nos jardins dos grandes ca-sarões daquela rua.
Quando chegassem no colégio, com certeza teriam que enfrentar o olhar murcho e recriminante de Mr.
Higgnes, professor de inglês, tão velho que quase nada ouvia.
Ou pedir licença ao Dr. Eloy, professor de francês, paixão de todas as alunas, e que tinha o sorriso mais lindo da época.
Mas o que dizer do seu Osvaldo Lopes que dava aula de artes? Meu Deus, o homem era quase um Cristo.
Barba castanha bem tratada, dentes perfeitos, muito calmo, pele clara, e atrás de tudo isso aqueles profundos alhos azuis.
Seria ele o Cristo?
Entretanto, a aula mais animada, e na qual a gente tinha plena liberdade, era a de D. Josefa e D. Soledade, irmãs muito unidas que até davam aulas de música juntas.
Ali aprendemos todos os hinos que existem, e que até hoje não esqueci, apesar das aulas serem muito tumultuadas, por que elas não tinham muita autoridade com as alunas. A gente podia dar uma chegadinha na janela e até dar umas saidinhas da sala que as duas não viam.
O nosso caminho ficava mais importante quando chegávamos na esquina da Rua Visconde do Rio Branco, ali estava o momento mágico do trajeto.
Era aquele espelho na vitrine da Casa Glaser.
Alí paráva-mos para ver nossas imagens refletidas, imagens essas que quando nos íamos, elas vinham.
Nossas caras ficavam retorcidas, as cabeças e pernas tortas.
Isso para nós era o máximo.
Esquecíamos o horário das aulas, e quem passava não entendia o que as duas meninas estavam fazendo, rindo até as lágrimas, a ponto de não se importar com o belo pito que levariam de D. Laura, inspetora de alunas rigorosa e durona, de quem morriam de medo.
A loja ainda hoje lá está, mas o espelho não.
Suzi Marino Gubert, professora aposentada
O espelho da Comendador
Suzi Mariano Gubert
Na década de quarenta, as duas primas freqüentavam as aulas do curso ginasial no Instituto de Educação do Paraná.
Moravam no Batei e seu caminho para a escola era a Rua Comendador Araújo.
Uma alta, bonita, cabelos longos, pele alva e pernas bem feitas. A outra, magrela, cabelos ralos, sem graça.
Porém, nada disso tinha importância para as duas estudantes.
Iam alegres e descuidadas, curtindo sua juventude, sem problemas, que de tudo achavam graça.
Desciam a rua saltitantes, competindo com muito cuidado, para não pisar nas pedras pretas dos pinhões e pinheiros desenhados no petit-pavet semi-novo das largas calçadas daquela rua. O movimento era muito pequeno e elas podiam vislumbrar de longe esses desenhos, tão paranaenses.
Iam devagar, correndo o risco de chegar atrasadas na aula.
Mas não havia pressa.
Mesmo sob a garoa gelada tão conhecida das pequenas curitibanas, ou sob o sol forte batendo em seus rostos, continuavam felizes e brincalhonas.
Uma paradinha aqui para roubar uma flor e levar para a professora, outra parada ali afim de olhar os pássaros que pulavam nos jardins dos grandes ca-sarões daquela rua.
Quando chegassem no colégio, com certeza teriam que enfrentar o olhar murcho e recriminante de Mr.
Higgnes, professor de inglês, tão velho que quase nada ouvia.
Ou pedir licença ao Dr. Eloy, professor de francês, paixão de todas as alunas, e que tinha o sorriso mais lindo da época.
Mas o que dizer do seu Osvaldo Lopes que dava aula de artes? Meu Deus, o homem era quase um Cristo.
Barba castanha bem tratada, dentes perfeitos, muito calmo, pele clara, e atrás de tudo isso aqueles profundos alhos azuis.
Seria ele o Cristo?
Entretanto, a aula mais animada, e na qual a gente tinha plena liberdade, era a de D. Josefa e D. Soledade, irmãs muito unidas que até davam aulas de música juntas.
Ali aprendemos todos os hinos que existem, e que até hoje não esqueci, apesar das aulas serem muito tumultuadas, por que elas não tinham muita autoridade com as alunas. A gente podia dar uma chegadinha na janela e até dar umas saidinhas da sala que as duas não viam.
O nosso caminho ficava mais importante quando chegávamos na esquina da Rua Visconde do Rio Branco, ali estava o momento mágico do trajeto.
Era aquele espelho na vitrine da Casa Glaser.
Alí paráva-mos para ver nossas imagens refletidas, imagens essas que quando nos íamos, elas vinham.
Nossas caras ficavam retorcidas, as cabeças e pernas tortas.
Isso para nós era o máximo.
Esquecíamos o horário das aulas, e quem passava não entendia o que as duas meninas estavam fazendo, rindo até as lágrimas, a ponto de não se importar com o belo pito que levariam de D. Laura, inspetora de alunas rigorosa e durona, de quem morriam de medo.
A loja ainda hoje lá está, mas o espelho não.
Suzi Marino Gubert, professora aposentada
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Histórias do Paraná - O problema era a comida
Histórias do Paraná - O problema era a comida
O problema era a comida
Cláudia Regina Kawka
Em 1937, chegaram à Colônia Gleba Orle, hoje situada no município de Arapongas, Norte do Paraná, várias famílias de imigrantes eslavos.
Eram poloneses e ucranianos que vinham para o Brasil em busca de terras e de uma vida melhor.
Vinham cheios de esperança, incentivados pela propaganda que era feita na Europa pela Paraná Plantations Ltda., depois Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, que era colonizadora de uma vasta região do Norte do Estado.
Aqui, os imigrantes poloneses achavam tudo bastante estranho.
Os costumes eram diferentes, o mato também, as comidas nem se fala.
Logo que desembarcaram do navio, ainda em Santos, foram levados para um hotel, onde a mesa já estava posta.
Os imigrantes olhavam para aquelas comidas brasileiras e ficavam espantados.
Como o cheiro era diferente! Todos continuavam de pé, ninguém se encorajava para sentar e comer.
Entre os pratos de comida havia várias garrafas com um líquido transparente.
Finalmente um dos imigrantes resolveu experimentar a tal bebida, crente que fosse pinga.
Pegou o copo, encheu e tomou tudo de um gole só, como se fazia na Polônia.
- Urgh! — exclamou — é água!
Tamanho espanto se explicava pelo fato de que na Polônia não se costuma beber água nas refeições.
Ou então quando foram experimentar caqui:
- Mas que tomate brasileiro ruim! Nem tem gosto de tomate!
E tomates eles também não comiam.
Eva Kawka, minha avó uma das imigrantes polonesas, não deixava que seus filhos comessem tomates, dizia que não prestava.
Isso porque na Polônia não era costume comê-los.
Os poloneses plantavam tomates, mas estes, quando maduri-nhos, serviam para enfeitar as janelas.
Por isso preferiam aquilo que comiam na Polônia, como por exemplo pierogui, barszcz (sopa de beterraba), etc.
Mas comiam também arroz, feijão, quirera de milho cozida, uma espécie de bolinho feito de feijão, etc.
Mas tarde quando começaram a criar porcos, a situação ficou mais fácil.
Quando alguém matava um porco, juntavam duas, três famílias e repartiam-no, cada qual comprando determinada parte.
Para conservar a carne, os poloneses fritavam os diversos pedaços junto com a banha e depois colocavam numa lata.
Assim ela se conservava por muito tempo, e eles iam retirando os pedaços conforme necessitassem.
Também compravam algumas vacas, quando era possível, para ter leite em casa.
Quando Estanislau Kawka, meu avô, foi comprar sua primeira vaca, descobriu que o proprietário estava indo embora para São Paulo e que estava vendendo também o seu sítio de cinco alqueires. O curioso era que o preço do sítio era praticamente o mesmo da vaca.
Então Estanislau voltou para casa e disse para sua esposa e filhos que não ia mais comprar a vaca, e sim o sítio.
Mas eles não concordaram de jeito nenhum:
- Onde já se viu comprar terra ao invés da vaca? Por acaso nos vamos comer terra?...
Como a maioria foi contra, ele acabou comprando a vaca mesmo!
Hoje, quantas vacas compraria com o valor de cinco alqueires das melhores terras do país??
Cláudia Regina Kawka, acadêmica de Historia da UFPR
O problema era a comida
Cláudia Regina Kawka
Em 1937, chegaram à Colônia Gleba Orle, hoje situada no município de Arapongas, Norte do Paraná, várias famílias de imigrantes eslavos.
Eram poloneses e ucranianos que vinham para o Brasil em busca de terras e de uma vida melhor.
Vinham cheios de esperança, incentivados pela propaganda que era feita na Europa pela Paraná Plantations Ltda., depois Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, que era colonizadora de uma vasta região do Norte do Estado.
Aqui, os imigrantes poloneses achavam tudo bastante estranho.
Os costumes eram diferentes, o mato também, as comidas nem se fala.
Logo que desembarcaram do navio, ainda em Santos, foram levados para um hotel, onde a mesa já estava posta.
Os imigrantes olhavam para aquelas comidas brasileiras e ficavam espantados.
Como o cheiro era diferente! Todos continuavam de pé, ninguém se encorajava para sentar e comer.
Entre os pratos de comida havia várias garrafas com um líquido transparente.
Finalmente um dos imigrantes resolveu experimentar a tal bebida, crente que fosse pinga.
Pegou o copo, encheu e tomou tudo de um gole só, como se fazia na Polônia.
- Urgh! — exclamou — é água!
Tamanho espanto se explicava pelo fato de que na Polônia não se costuma beber água nas refeições.
Ou então quando foram experimentar caqui:
- Mas que tomate brasileiro ruim! Nem tem gosto de tomate!
E tomates eles também não comiam.
Eva Kawka, minha avó uma das imigrantes polonesas, não deixava que seus filhos comessem tomates, dizia que não prestava.
Isso porque na Polônia não era costume comê-los.
Os poloneses plantavam tomates, mas estes, quando maduri-nhos, serviam para enfeitar as janelas.
Por isso preferiam aquilo que comiam na Polônia, como por exemplo pierogui, barszcz (sopa de beterraba), etc.
Mas comiam também arroz, feijão, quirera de milho cozida, uma espécie de bolinho feito de feijão, etc.
Mas tarde quando começaram a criar porcos, a situação ficou mais fácil.
Quando alguém matava um porco, juntavam duas, três famílias e repartiam-no, cada qual comprando determinada parte.
Para conservar a carne, os poloneses fritavam os diversos pedaços junto com a banha e depois colocavam numa lata.
Assim ela se conservava por muito tempo, e eles iam retirando os pedaços conforme necessitassem.
Também compravam algumas vacas, quando era possível, para ter leite em casa.
Quando Estanislau Kawka, meu avô, foi comprar sua primeira vaca, descobriu que o proprietário estava indo embora para São Paulo e que estava vendendo também o seu sítio de cinco alqueires. O curioso era que o preço do sítio era praticamente o mesmo da vaca.
Então Estanislau voltou para casa e disse para sua esposa e filhos que não ia mais comprar a vaca, e sim o sítio.
Mas eles não concordaram de jeito nenhum:
- Onde já se viu comprar terra ao invés da vaca? Por acaso nos vamos comer terra?...
Como a maioria foi contra, ele acabou comprando a vaca mesmo!
Hoje, quantas vacas compraria com o valor de cinco alqueires das melhores terras do país??
Cláudia Regina Kawka, acadêmica de Historia da UFPR
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