Histórias do Paraná - Um mineiro paranaense
Um mineiro paranaense
Maria do Carmo R. Krieger Goulart
"Mineiro bom foi feito para exportação; sófica em casa quem tem defeito de fabricação". Não fosse dita por um legítimo filho das Minas Gerais, essa frase poderia parecer ofensiva.
Na boca de um mineiro que passou a maior parte de sua vida no Paraná, e que gostava da conversa descontraída, das frases de humor e de contar "causos", ela tinha um sabor especial.
Quase cinco anos depois de sua morte (em 18.05.89), o mineiro em questão é homenageado pelo Governo do Estado, Roberto Requião, e pelo Secretário da Saúde, Nizan Almeida Pereira: o Hospital Geral do Portão passa a chamar-se Hospital Mauro Senna Goulart.
Curiosos os caminhos da vida.
Ao chegar a Curitiba, em 1949, não foi recebido por médicos, enfermeiros ou doentes, embora viesse a passar longos quarenta anos como laboratorista do Sanatório Portão.
Em sua mala não havia fórmulas químicas ou tubos para exames.
Havia, sim, chuteiras e camisas dos três últimos times de futebol que havia defendido: Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, Grêmio Football Portoalegrense, de Porto Alegre, e Clube Atlético Mineiro, de Belo Horizonte.
Quem o esperava eram os dirigentes do Clube Atlético Paranaense, que o haviam contratado e que depositavam muita esperança em suas pernas.
Se a esperança era muita, o salário era modesto, já que a palavra mordomia era desconhecida do linguajar da época e inexistia como prática nos times de futebol. A rigor, nem se poderia dizer que o futebol era profissional.
Jogava-se por puro prazer e o negócio era completar a renda pessoal com alguma profissão. Aí sim, havia algum privilégio: o jogador que conquistasse a torcida não teria muita dificuldade em encontrar um emprego. E lá se foi o Mauro, com 28 anos de idade e com a cabeça voltada para o futebol, trabalhar num laboratório cuja especialidade maior era verificar e acompanhar os casos de tuberculose.
Foi, gostou e envolveu-se com entusiasmo nesse trabalho meticuloso e exigente.
Prova de sua dedicação foi a declaração, dada alguns anos depois, pelo chefe do Serviço de Pessoal do Departamento de Administração da Secretaria de Saúde Pública, Elianor Muricy: trata-se de "um excelente funcionário, com ótimo acervo de serviços prestados". Um outro depoimento poderia ter sido dado pelas turmas de alunos da cadeira de Tisiologia da então Faculdade de Medicina da
Universidade do Paraná: Seu Mauro os introduzia nos segredos do Laboratório e a admiração que tinham por seus conhecimentos não impedia que crescesse entre eles uma grande amizade. E quantos amigos fez entre funcionários, médicos, alunos e pacientes ao longo de sua vida!
As lembranças de sua infância na cidade natal — Lavras — ficavam cada vez mais longe.
Seu mundo — melhor, sua paixão! — agora era Curitiba.
Sua certidão de nascimento garantia que era mineiro — e isso lhe dava autoridade para brincar: ‘Mineiro bomfoi feito para exportação... " Se houvesse uma certidão especial do seu coração, todos saberiam: seu Mauro era paranaense. E se alguém duvidar, passe agora pelo Portão: lá está o Hospital Geral Mauro Senna Goulart.
Justa homenagem a quem muito amou esta terra e sua gente.
Maria do Carmo K Krieger Goulart, historiadora e escritora
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Histórias do Paraná - Violeta
Histórias do Paraná - Violeta
Violeta
Arthur Virmond de Supplicy de Lacerda
Violeta Amaral foi uma das figuras mais queridas de minha infância.
Curitibana de antiga cepa, foi Violeta abandonada no altar doméstico pelo noivo, rapaz abastado de sobrenome Cerjat, porque seu genitor ameaçou deserdá-lo se a des-posasse, ela filha de um simples dentista, profissão pouco enriquecedora porém nada desonrosa.
Envergonhado com a desdita da filha, o pai de Violeta, José Gomes do Amaral Júnior (filho de um médico maragato durante o cerco da Lapa), preferiu evitar o ambiente em que se tornara o fato notório, radicando-se em São Paulo, capital.
Residindo já naquela cidade, um acaso viria alterar o perfil biográfico de Violeta, enriquecendo-o com o primeiro matrimônio que contraiu: certa feita acudiu ela um menino, ferido levemente em atropelamento por automóvel ou bicicleta.
Sensibilizado, o pai da criança foi agradecer-lhe a solicitude.
Do relacionamento assim inaugurado resultou pouco depois Violeta passar a chamar-se Violeta do Amaral Pereira, mais moça que o marido cerca de duas décadas.
Delegado de Polícia de Santos, e Chefe de Polícia do Estado de São Paulo, João Clímaco Pereira, o marido, era viúvo, condição em que deixou sua esposa oito ou dez anos depois.
Ora, antes do frustrado noivado, fora Violeta namorada daquele que por ela se havendo encantado uma vez, jamais dela se esqueceu, mesmo durante seu efêmero consórcio.
O enamorado era filho de um lapeano picapau, cônsul honorário da Espanha em 1922 e hervateiro abastado, Joaquim da Silva Sampaio.
Chamava-se ele Edgard Chalbaud Sampaio.
Era tal a paixão de Edgard por Violeta que, quando a perdeu para seu rival paulista, desarvorou-se da vida.
Entregou-se a uma abundante melancolia, a roupa em desalinho, o cabelo por cortar, a barba por fazer, vagando pelas ruas da cidade.
Inapetente, evitava comer e beber e fumava muito.
Inesperado e surpreendente, sorriu-lhe o destino, oferecendo-lhe uma possibilidade com o óbito de João Clímaco.
Edgar reanimou-se.
Durante o primeiro ano de luto de Violeta, acalentou a esperança.
Vencido o interregno fúnebre, telefonou de Curitiba a Violeta a São Paulo, solicitando permissão para visitá-la.
Ao reencontrarem-se, avivou-se no coração de ambos o amor que em
Edgar jamais arrefecera e que em Violeta representou a base da felicidade de ambos de então por diante.
Pouco depois podia Edgard ufanar-se de ser um homem afortunado.
Recuperara seu amor pela vida, que novamente fazia-lhe sentido.
Violeta chamava-se, então, Violeta do Amaral Sampaio.
Habitaram várias casas, por derradeiro o número 2452 da Rua Brigadeiro Franco, onde conheci a biblioteca invejável de Edgard.
E depois? Depois Violeta perdeu Edgard em 1984. Novamente viúva, pranteava desolada o marido saudoso, homenagem dolorosa de quem o mantinha vivo em seu coração e em sua memória — afinal, os dois únicos lugares nos quais podemos aspirar à eternidade são o coração e a memória de quantos nos sobrevivem.
Finalmente, em 1991, entre perplexo e surpreso, soube que Violeta expirara deixando-nos viúvos de sua imensa bondade a quantos a conhecemos como Violeta e como esposa de Edgard...
Arthur Virmond de Supplicy de Lacerda, presidente do Centro Positivista do Paraná
Violeta
Arthur Virmond de Supplicy de Lacerda
Violeta Amaral foi uma das figuras mais queridas de minha infância.
Curitibana de antiga cepa, foi Violeta abandonada no altar doméstico pelo noivo, rapaz abastado de sobrenome Cerjat, porque seu genitor ameaçou deserdá-lo se a des-posasse, ela filha de um simples dentista, profissão pouco enriquecedora porém nada desonrosa.
Envergonhado com a desdita da filha, o pai de Violeta, José Gomes do Amaral Júnior (filho de um médico maragato durante o cerco da Lapa), preferiu evitar o ambiente em que se tornara o fato notório, radicando-se em São Paulo, capital.
Residindo já naquela cidade, um acaso viria alterar o perfil biográfico de Violeta, enriquecendo-o com o primeiro matrimônio que contraiu: certa feita acudiu ela um menino, ferido levemente em atropelamento por automóvel ou bicicleta.
Sensibilizado, o pai da criança foi agradecer-lhe a solicitude.
Do relacionamento assim inaugurado resultou pouco depois Violeta passar a chamar-se Violeta do Amaral Pereira, mais moça que o marido cerca de duas décadas.
Delegado de Polícia de Santos, e Chefe de Polícia do Estado de São Paulo, João Clímaco Pereira, o marido, era viúvo, condição em que deixou sua esposa oito ou dez anos depois.
Ora, antes do frustrado noivado, fora Violeta namorada daquele que por ela se havendo encantado uma vez, jamais dela se esqueceu, mesmo durante seu efêmero consórcio.
O enamorado era filho de um lapeano picapau, cônsul honorário da Espanha em 1922 e hervateiro abastado, Joaquim da Silva Sampaio.
Chamava-se ele Edgard Chalbaud Sampaio.
Era tal a paixão de Edgard por Violeta que, quando a perdeu para seu rival paulista, desarvorou-se da vida.
Entregou-se a uma abundante melancolia, a roupa em desalinho, o cabelo por cortar, a barba por fazer, vagando pelas ruas da cidade.
Inapetente, evitava comer e beber e fumava muito.
Inesperado e surpreendente, sorriu-lhe o destino, oferecendo-lhe uma possibilidade com o óbito de João Clímaco.
Edgar reanimou-se.
Durante o primeiro ano de luto de Violeta, acalentou a esperança.
Vencido o interregno fúnebre, telefonou de Curitiba a Violeta a São Paulo, solicitando permissão para visitá-la.
Ao reencontrarem-se, avivou-se no coração de ambos o amor que em
Edgar jamais arrefecera e que em Violeta representou a base da felicidade de ambos de então por diante.
Pouco depois podia Edgard ufanar-se de ser um homem afortunado.
Recuperara seu amor pela vida, que novamente fazia-lhe sentido.
Violeta chamava-se, então, Violeta do Amaral Sampaio.
Habitaram várias casas, por derradeiro o número 2452 da Rua Brigadeiro Franco, onde conheci a biblioteca invejável de Edgard.
E depois? Depois Violeta perdeu Edgard em 1984. Novamente viúva, pranteava desolada o marido saudoso, homenagem dolorosa de quem o mantinha vivo em seu coração e em sua memória — afinal, os dois únicos lugares nos quais podemos aspirar à eternidade são o coração e a memória de quantos nos sobrevivem.
Finalmente, em 1991, entre perplexo e surpreso, soube que Violeta expirara deixando-nos viúvos de sua imensa bondade a quantos a conhecemos como Violeta e como esposa de Edgard...
Arthur Virmond de Supplicy de Lacerda, presidente do Centro Positivista do Paraná
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Histórias do Paraná - A Lapa na Guerra do Paraguai
Histórias do Paraná - A Lapa na Guerra do Paraguai
A Lapa na Guerra do Paraguai
Sergio A Leoni
Para combater as forças de Solano Lopes, o Paraná que tinha então menos de 70.000 habitantes foi, proporcionalmente à sua população, a província que mais contribuiu com mais sangue àquele conflito, com um total de aproximadamente 2.500 homens, dos quais 16% eram lapeanos.
O decreto de criação do Voluntariado da Pátria (n° 3371, de 7 de janeiro de 1865) é lido na então Villa do Príncipe com extrema solenidade já no dia 9 de fevereiro, no Largo da Matriz, na presença do povo e do comandante da Guarda Nacional, Cel.
David dos Santos Pacheco, depois Barão dos Campos Gerais.
O primeiro corpo que foi para a guerra era formado de elementos vindos de toda a província; o segundo só de Curitiba e o terceiro apenas com Lapeanos, que deixaram sua terra natal a 17 de abril de 1865.
Para incentivar o alistamento, foi aberta uma subscrição popular, que visava dar uma gratificação de vinte mil réis (ouro) a cada conscri-to.
David dos Santos Pacheco assumiu, às suas expensas, o treinamento e uniformização de 150 voluntários, que foram por ele próprio levados até Curitiba.
Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá, paranaense de Palmeira, e então Ministro da Agricultura, da Corte aplaude sua província natal dizendo: "Folgo em declarar que, graças ao civismo dos paranaenses, já desembarcou na Corte a primeira força organizada em Curitiba". Logo em seguida, aplaude expressamente a Lapa com as seguintes palavras: "A Guarda Nacional da Lapa vai brilhando, e esse bom povo do Príncipe dá provas de patriotismo.
Segundo sua população e riqueza, o Paraná não está mal representado... o patriotismo está fazendo milagres."
Entre voluntários e designados, a Villa do Príncipe mandou para o Paraguai 412 combatentes, dos quais apenas 73 regressaram perfeitos.
David Carneiro, em sua obra publicada em 1940 "O Paraná na Guerra do Paraguai", relaciona 81 voluntários lapeanos, aparecendo com destaque o major Geraldo Antônio Diniz e ainda Manoel Pereira do Nascimento e Manoel dos Santos Pacheco Lima, estes citados no quadro de Mártires da Pátria.
A lista de nomes obtidos por aquele eminente historiador, através do jornal "19 de Dezembro" da época, mesmo incompleta, será gravada em monumento que a cidade da Lapa erigirá oportunamente, em homenagem àqueles heróis.
Servirá de estímulo para que as gerações presentes e vindouras de lapeanos e lapeanistas cultuem sempre as tradições da cidade legendária, "orgulho e glória do Brasil republicano".
Sérgio A Leoni, ex-prefeito da Lapa
A Lapa na Guerra do Paraguai
Sergio A Leoni
Para combater as forças de Solano Lopes, o Paraná que tinha então menos de 70.000 habitantes foi, proporcionalmente à sua população, a província que mais contribuiu com mais sangue àquele conflito, com um total de aproximadamente 2.500 homens, dos quais 16% eram lapeanos.
O decreto de criação do Voluntariado da Pátria (n° 3371, de 7 de janeiro de 1865) é lido na então Villa do Príncipe com extrema solenidade já no dia 9 de fevereiro, no Largo da Matriz, na presença do povo e do comandante da Guarda Nacional, Cel.
David dos Santos Pacheco, depois Barão dos Campos Gerais.
O primeiro corpo que foi para a guerra era formado de elementos vindos de toda a província; o segundo só de Curitiba e o terceiro apenas com Lapeanos, que deixaram sua terra natal a 17 de abril de 1865.
Para incentivar o alistamento, foi aberta uma subscrição popular, que visava dar uma gratificação de vinte mil réis (ouro) a cada conscri-to.
David dos Santos Pacheco assumiu, às suas expensas, o treinamento e uniformização de 150 voluntários, que foram por ele próprio levados até Curitiba.
Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá, paranaense de Palmeira, e então Ministro da Agricultura, da Corte aplaude sua província natal dizendo: "Folgo em declarar que, graças ao civismo dos paranaenses, já desembarcou na Corte a primeira força organizada em Curitiba". Logo em seguida, aplaude expressamente a Lapa com as seguintes palavras: "A Guarda Nacional da Lapa vai brilhando, e esse bom povo do Príncipe dá provas de patriotismo.
Segundo sua população e riqueza, o Paraná não está mal representado... o patriotismo está fazendo milagres."
Entre voluntários e designados, a Villa do Príncipe mandou para o Paraguai 412 combatentes, dos quais apenas 73 regressaram perfeitos.
David Carneiro, em sua obra publicada em 1940 "O Paraná na Guerra do Paraguai", relaciona 81 voluntários lapeanos, aparecendo com destaque o major Geraldo Antônio Diniz e ainda Manoel Pereira do Nascimento e Manoel dos Santos Pacheco Lima, estes citados no quadro de Mártires da Pátria.
A lista de nomes obtidos por aquele eminente historiador, através do jornal "19 de Dezembro" da época, mesmo incompleta, será gravada em monumento que a cidade da Lapa erigirá oportunamente, em homenagem àqueles heróis.
Servirá de estímulo para que as gerações presentes e vindouras de lapeanos e lapeanistas cultuem sempre as tradições da cidade legendária, "orgulho e glória do Brasil republicano".
Sérgio A Leoni, ex-prefeito da Lapa
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Histórias do Paraná - Jovem estrela
Histórias do Paraná - Jovem estrela
Jovem estrela
Beatriz de Quadros Ribas
Eram os dias da Revolução de 1930. Nas ruas fervilhavam as noticias mais contraditórias.
Combates. Movimentos de tropas.
Trens que chegavam e partiam.
Mentiras e verdades se misturavam como uma só. A cidade fervia e os grupos se formavam nas esquinas da Rua XV de Novembro para comentar as últimas notícias. À noite iria haver um comício.
Das sacadas da Gazeta do Povo localizada então na Rua XV de Novembro, oradores de primeira linha usariam a palavra.
Antes, bem antes da hora marcada, já foram chegando os grupos interessados.
Eu, sempre companheira, lá fui de braço com meu pai Sócrates Scharfemberg de Quadros, para ouvir a declamação de uma jovem que residia em frente à nossa casa. A jovem encerraria o comício.
A rua estava apinhada de povo.
Ficamos em frente à sacada onde apareceriam os oradores.
Na Rua XV de Novembro, depois da Monsenhor Celso, ninguém conseguia passar.
Os oradores se sucederam.
De seus nomes não me recordo.
Eu estava lá para ouvir a declamação.
Terminada a oratória, um pequeno silêncio se fez.
Logo surgiu uma jovem clara de cabelos aloirados, risonha e de mediana estatura.
Sua imagem cativava.
Inicia sua declamação da sacada da Gazeta do Povo, e a faz com tanto sentimento e ardor que, ao terminar, o povo ficou em silêncio, emocionado.
Depois, as palmas, muitas palmas, e o povo; "Bravo! Bravo!"
Era Stelinha Egg, que aos 14 anos emocionava a platéia na Rua XV de Novembro, declamando "O beijo de papai", do poeta Eustórgio Wanderley.
Naquela noite, uma estrela brilhou nos céus de Curitiba.
Começaram os convites, as apresentações.
Stelinha Egg, sempre graciosa e sorridente, a vizinha de frente à nossa casa, se tornou no Rio de Janeiro cantora e declamadora de sucesso, uma brilhante estrela nacional.
Beatriz de Quadros Ribas, professora aposentada e membro do Centro Paranaense Feminino de Cultura.
Jovem estrela
Beatriz de Quadros Ribas
Eram os dias da Revolução de 1930. Nas ruas fervilhavam as noticias mais contraditórias.
Combates. Movimentos de tropas.
Trens que chegavam e partiam.
Mentiras e verdades se misturavam como uma só. A cidade fervia e os grupos se formavam nas esquinas da Rua XV de Novembro para comentar as últimas notícias. À noite iria haver um comício.
Das sacadas da Gazeta do Povo localizada então na Rua XV de Novembro, oradores de primeira linha usariam a palavra.
Antes, bem antes da hora marcada, já foram chegando os grupos interessados.
Eu, sempre companheira, lá fui de braço com meu pai Sócrates Scharfemberg de Quadros, para ouvir a declamação de uma jovem que residia em frente à nossa casa. A jovem encerraria o comício.
A rua estava apinhada de povo.
Ficamos em frente à sacada onde apareceriam os oradores.
Na Rua XV de Novembro, depois da Monsenhor Celso, ninguém conseguia passar.
Os oradores se sucederam.
De seus nomes não me recordo.
Eu estava lá para ouvir a declamação.
Terminada a oratória, um pequeno silêncio se fez.
Logo surgiu uma jovem clara de cabelos aloirados, risonha e de mediana estatura.
Sua imagem cativava.
Inicia sua declamação da sacada da Gazeta do Povo, e a faz com tanto sentimento e ardor que, ao terminar, o povo ficou em silêncio, emocionado.
Depois, as palmas, muitas palmas, e o povo; "Bravo! Bravo!"
Era Stelinha Egg, que aos 14 anos emocionava a platéia na Rua XV de Novembro, declamando "O beijo de papai", do poeta Eustórgio Wanderley.
Naquela noite, uma estrela brilhou nos céus de Curitiba.
Começaram os convites, as apresentações.
Stelinha Egg, sempre graciosa e sorridente, a vizinha de frente à nossa casa, se tornou no Rio de Janeiro cantora e declamadora de sucesso, uma brilhante estrela nacional.
Beatriz de Quadros Ribas, professora aposentada e membro do Centro Paranaense Feminino de Cultura.
domingo, 16 de novembro de 2014
Histórias do Paraná - O operário em construção - Poty
Histórias do Paraná - O operário em construção - Poty
O operário em construção - Poty
Valênáo Xavier
Os documentos que serviram de base para estas histórias encontram-se no Arquivo Público do Paraná.
A pesquisa foi feita pela historiadora Walkiria Pereira Romeu.
Hoje, 29 do três, áries, de não sei que ano, Curitiba faz aniversário, a Catedral também comemora alguma coisa, não é dia de Santo Antônio, é dia do aniversário do Poty: 70 anos, número cabalístico.
Ou será que é 7?
Ele está lá no alto sentado na tábua do andaime da Catedral em obras, suas pernas balançam no vazio.
O czar Ivan, o Terrível ocupou o trono ainda menino e seus pés também não alcançavam o chão, ficaram balangando.
Ele está sentado lá no alto, comendo um sanduíche de pão branco de casca dura com mortadela.
Napoleão Bonaparte que também era baixinho foi mais esperto: mandou fazer as pernas do trono mais curtas.
Ele está na hora do almoço da cesta de vime de onde pegou o pão e mortadela, a botelha de vinho.
Ou é café?
Santo Antônio de Lisboa que é o mesmo de Pádua também ficava no alto duma árvore pregando, pernas balançando.
Ele tem as mãos calejadas de calos ou da cal da construção da Catedral?
O Corcunda de Notre Dame montado na gárgula da Catedral, pés no ar, gritava: Santuário! Aqui ninguém me pega.
Ele sentado na tábua não olha prá baixo, dá tontura, inda mais na hora da comida, olha prá cima, pro céu.
O Harold Loyd lá no alto pendurado no ponteiro do relógio do arranha-céu não olha as horas.
Ele tem pendurado no teto do atelier um velocípede do menino que não sabia pedalar, empurrava com os pés.
O John Wayne galopando na pradaria também balançava as pernas no ar, igual os enforcados de Ox-Bow.
Ele, o menino sentado no vaso trono do banheiro não alcançava os pés no chão.
Melhor fazer cocô no bispote.
A esmeralda do Corcunda não é a da Tábua da Esmeralda: a do o que está em áma é igual o que está embaixo.
Ele sentado lá em cima, comendo, não olha pra baixo, olha pro céu e vê o que está embaixo.
O Leonardo da Vinci sentado no andaime da Santa Ceia ficava pensando que nem o Zequinha sentado na Lua?
Ele, o operário em construção, vê o Zepelin do seu tempo de menino.
Pensa em Curitiba.
Em um paredão na esquina da XV com Marechal tem o painel do Poty de um operário italiano da Catedral.
Era uma vez, era o aniversário do Poty. Não.
Acho que era Natal.
Isso mesmo, era Natal.
Naquele tempo criança tinha medo de Papai Noel, pergunte aos mais velhos, de medo se escondiam debaixo da mesa. Só iam pegar o presente depois que o Bom Velhinho ia embora.
De família humilde, Poty não esperava ganhar grande coisa: ganhou o melhor presente: um triciclo.
Um menino feliz pro resto da vida.
E hoje dia do aniversário desse menino, de Curitiba.
Ele deu tanta coisa boa de presente prá cidade que eu moro e amo.
Tanta coisa boa para você que nem mora aqui, e talvez nem conheça.
Eu tô dando de presente pro Poty este escrito que nem sei se ele vai gostar. E o que posso dar. Não repare, tá.
E você? Já escolheu o presente que vai dar pro Poty? Pra cidade que você ama?
Valêncio Xavier, escritor, diretor de TV e poeta
O operário em construção - Poty
Valênáo Xavier
Os documentos que serviram de base para estas histórias encontram-se no Arquivo Público do Paraná.
A pesquisa foi feita pela historiadora Walkiria Pereira Romeu.
Hoje, 29 do três, áries, de não sei que ano, Curitiba faz aniversário, a Catedral também comemora alguma coisa, não é dia de Santo Antônio, é dia do aniversário do Poty: 70 anos, número cabalístico.
Ou será que é 7?
Ele está lá no alto sentado na tábua do andaime da Catedral em obras, suas pernas balançam no vazio.
O czar Ivan, o Terrível ocupou o trono ainda menino e seus pés também não alcançavam o chão, ficaram balangando.
Ele está sentado lá no alto, comendo um sanduíche de pão branco de casca dura com mortadela.
Napoleão Bonaparte que também era baixinho foi mais esperto: mandou fazer as pernas do trono mais curtas.
Ele está na hora do almoço da cesta de vime de onde pegou o pão e mortadela, a botelha de vinho.
Ou é café?
Santo Antônio de Lisboa que é o mesmo de Pádua também ficava no alto duma árvore pregando, pernas balançando.
Ele tem as mãos calejadas de calos ou da cal da construção da Catedral?
O Corcunda de Notre Dame montado na gárgula da Catedral, pés no ar, gritava: Santuário! Aqui ninguém me pega.
Ele sentado na tábua não olha prá baixo, dá tontura, inda mais na hora da comida, olha prá cima, pro céu.
O Harold Loyd lá no alto pendurado no ponteiro do relógio do arranha-céu não olha as horas.
Ele tem pendurado no teto do atelier um velocípede do menino que não sabia pedalar, empurrava com os pés.
O John Wayne galopando na pradaria também balançava as pernas no ar, igual os enforcados de Ox-Bow.
Ele, o menino sentado no vaso trono do banheiro não alcançava os pés no chão.
Melhor fazer cocô no bispote.
A esmeralda do Corcunda não é a da Tábua da Esmeralda: a do o que está em áma é igual o que está embaixo.
Ele sentado lá em cima, comendo, não olha pra baixo, olha pro céu e vê o que está embaixo.
O Leonardo da Vinci sentado no andaime da Santa Ceia ficava pensando que nem o Zequinha sentado na Lua?
Ele, o operário em construção, vê o Zepelin do seu tempo de menino.
Pensa em Curitiba.
Em um paredão na esquina da XV com Marechal tem o painel do Poty de um operário italiano da Catedral.
Era uma vez, era o aniversário do Poty. Não.
Acho que era Natal.
Isso mesmo, era Natal.
Naquele tempo criança tinha medo de Papai Noel, pergunte aos mais velhos, de medo se escondiam debaixo da mesa. Só iam pegar o presente depois que o Bom Velhinho ia embora.
De família humilde, Poty não esperava ganhar grande coisa: ganhou o melhor presente: um triciclo.
Um menino feliz pro resto da vida.
E hoje dia do aniversário desse menino, de Curitiba.
Ele deu tanta coisa boa de presente prá cidade que eu moro e amo.
Tanta coisa boa para você que nem mora aqui, e talvez nem conheça.
Eu tô dando de presente pro Poty este escrito que nem sei se ele vai gostar. E o que posso dar. Não repare, tá.
E você? Já escolheu o presente que vai dar pro Poty? Pra cidade que você ama?
Valêncio Xavier, escritor, diretor de TV e poeta
Assinar:
Postagens (Atom)