Histórias do Paraná - Fábulas indígenas
Fábulas indígenas
Luiz Augusto Pierin
"Macaco velho não mete a mão em cumbuca".
Bem velho é esse ditado, nossos avós já o recitavam.
Seu significado, também, não é mistério para ninguém. O que a maioria sequer desconfia é que esse velho ditado foi cunhado em tempos imemoriais pelos índios tupis brasileiros.
Eles pronunciavam algo como: "Kai tuimbaé i pó kuiambuka pupé ndoimondeb'.
A "literatura", por assim dizer, de nossos indígenas era vasta, mesmo com sua característica de iransmissão oral.
Isso incluía os primeiros ocupantes do território que hoje vem a ser o Paraná, principalmente os guaranis.
Algumas de suas lendas - como a da criação cias Cataratas do Iguaçu, por exemplo — são fartamente conhecidas.
Mas suas criações abrangiam, ainda, muitas histórias lipo fábulas, provérbios e trovas -algumas de grande apelo poético.
Diversos antropólogos, lingüistas e outros estudiosos, principalmente nos séculos XVIII e XIX recolheram e compilaram parte da produção literária ou do imaginário dos nossos índios, entre os paranaenses.
Faris Antonio S. Michaele, no seu trabalho "Presença do índio no Paraná" (in História do
Paraná — Coleção Grafipar), destaca, por exemplo, belas fábulas como a da onça e a raposa.
Há muito tempo que a onça queria deitar as patas — e a boca — na ladina da raposa.
Esta, além de ágil, era muito esperta, e sempre escapava da onça.
Até que a onça bolou um plano que julgava infalível para pegar a raposa: fingiu-se de morta. A notícia da morte da rainha da floresta correu a mata, todos os animais apareciam para ver e velar a onça morta.
A raposa perguntou então aos outros animais:
- "A onça já arrotou três vezes?"
Ante a surpresa dos demais animais, a raposa tratou de esclarecer que toda onça, quando morre arrota três vezes.
Ao ouvir a explicação, a onça cuidou de convencer a bicharada toda de que, realmente, estava morta, e arrotou forte três vezes. A raposa, mais que depressa, deu no pé, não sem antes dar uma gostosa gargalhada: "Onde já se viu um defunto arrotar?"
Já a história indígena, da raposa e do jaboti lembra em muito a nossa fábula do coelho e da tartaruga.
Nas duas histórias os bichos apostam uma corrida. Só que, no caso da fábula indígena, o jaboti é muito mais esperto.
Na história indígena, o vencedor da corrida ganha como prêmio o direito de casar com a filha do gavião.
Como é muito devagar, o jabuti pegou sua parentada toda -centenas de outros jabotis iguais a ele - e colocou os bichos em intervalos regulares ao longo do trajeto. E dada a largada e lá se vão a raposa e o jabuti. A raposa dispara na frente, é claro, e volta e meia olha para trás, para se certificar que o jaboti esta longe.
Mas o que vê a raposa? Um jaboti quase nos seus calcanhares. A raposa apressa a corrida, olha para trás e o jaboti continua no seu encalço.
Até que a raposa não agüenta mais, desfalece de cansaço, e o jaboti ganha a corrida.
Para completar, uma trovinha em guarani:
"Ixe, man, guirá mirim!
Xá rekó, man, ce pepó.
Xa bebê ne rakaquera Xapuana ne rekô.
A tradução nos revela uma bela e sutil poesia que nada deixa a dever aos mais sensiveis hai-kais.
A tradução diz: "Se eu fora um passarinho, oh, quem me dera!
Eu teria minhas asas, voaria no teu encalço, e me ergueria ao pé de ti."
Luiz Augusto Pierin, contador aposentado e pesquisador em Foz do Iguaçu
terça-feira, 31 de maio de 2016
segunda-feira, 30 de maio de 2016
Histórias do Paraná - Vidas demais
Histórias do Paraná - Vidas demais
Vidas demais
Almir Aires Arruda
"Oh! Quatiguá
Oh! Quatiguá
És o celeiro deste Paraná..."
Com este hino, cantado por todos os escolares e a população, homenageávamos o Distrito de Quatiguá
quando de sua emancipação político-administrativa da comarca de Joaquim Távora e a sua conseqüente instalação como Município, em 26 de outubro de
1947.
Quanto ufanismo, vejo agora. O "celeiro deste Paraná" era na ocasião o menor município do Estado, com apenas 4.500 alqueires de área, o equivalente a poucos 108 quilômetros quadrados.
Na verdade, melhor lhe cabia o apodo de "Cidade Botão", como também era chamada, pois Quatiguá tinha casas de um só lado de sua rua central, a outra margem pertencia à Estrada de Ferro onde corria o trem.
Assumiu provisoriamente o cargo de prefeito municipal, nomeado por Moysés Lupion, governador do Estado, o Sr. Orlando Athaíde Bittencourt, com mandato até dezembro de 1947, quando seriam realizadas eleições para a Prefeitura e a Câmara Municipal.
Eleições ordeiras disputadas por Ernesto Zanini, do PSD, e Antônio Rodrigues Filho, da UDN com apoio
do PTB e PSP. Venceu o primeiro, por uma diferença mínima de votos, mesmo porque o colégio eleitoral todo não atendia a 500 eleitores. O PSD também fez maioria para a Câmara Municipal, elegendo cinco vereadores, entre eles o autor destas mal-traçadas.
Era comum após o término das sessões da Câmara, que realizávamos à noite, na parte superior do prédio onde funcionava a Prefeitura Municipal, nos reunirmos no "Bar do Nogueira" a fim de comentarmos extra-sessão, os assuntos concernentes à ordem dos trabalhos.
Os mais idosos e os que moravam distante da sede do município se retiravam, permanecendo invariavelmente a bancada do PSD e o vereador Nestor Cassemiro Teixeira, da UDN, amigo de todos.
Uma das sessões, em abril de
1948, quando da elaboração do Regimento Interno da Câmara Municipal, se prolongou até altas horas da noite pelo cuidado que se estava tendo, a fim de que não colidisse com a Lei Orgânica dos Municípios que estava em discussão na Assembléia Legislativa do Estado.
Ao final, saímos para encostar o estômago no Bar do Nogueira. Éramos seis vereadores.
A conversa fluía descontraída, quando a porta do bar que estava semicerrada foi aberta com estrépito, uma figura com quase 2 metros de altura adentra a sala e, num vozeirão, brada: - "Senhores vereadores, vim cobrar a promessa da campanha!" Olhamos atônitos.
Aquela figura era o querido amigo Francisco Ormeseze, carinhosamente chamado por toda a população quatiguaense de "Florindo", um homenzarrão de 1,95 de altura e 100 quilos de peso que voltou a falar:
- "Os Senhores já estão há mais de quatro meses em exercício na Câmara Municipal e até hoje não cumpriram a promessa feita em campanha".
Perguntamos ao mesmo tempo: - "Que promessa, Florindo?" Ele, do alto de seu 1,95 de altura respondeu: - "Vocês não prometeram acabar com as vidas da rua João Pessoa?" (A Rua João Pessoa era a artéria principal da "Cidade Botão"). Todos continuaram não entendendo nada.
— "Que vidas, Florindo?"
Gargalhando, o Florindo respondeu: - "Não se diz que a vida é um buraco? Pois a rua João Pessoa esta cheia deles!"
A ironia surtiu o efeito desejado.
Providências foram tomadas e a rua recebeu uma generosa camada de saibro.
Almir Aires Arruda, professor e empresário, ex-vereador e fundador do município de Quatiguá
Vidas demais
Almir Aires Arruda
"Oh! Quatiguá
Oh! Quatiguá
És o celeiro deste Paraná..."
Com este hino, cantado por todos os escolares e a população, homenageávamos o Distrito de Quatiguá
quando de sua emancipação político-administrativa da comarca de Joaquim Távora e a sua conseqüente instalação como Município, em 26 de outubro de
1947.
Quanto ufanismo, vejo agora. O "celeiro deste Paraná" era na ocasião o menor município do Estado, com apenas 4.500 alqueires de área, o equivalente a poucos 108 quilômetros quadrados.
Na verdade, melhor lhe cabia o apodo de "Cidade Botão", como também era chamada, pois Quatiguá tinha casas de um só lado de sua rua central, a outra margem pertencia à Estrada de Ferro onde corria o trem.
Assumiu provisoriamente o cargo de prefeito municipal, nomeado por Moysés Lupion, governador do Estado, o Sr. Orlando Athaíde Bittencourt, com mandato até dezembro de 1947, quando seriam realizadas eleições para a Prefeitura e a Câmara Municipal.
Eleições ordeiras disputadas por Ernesto Zanini, do PSD, e Antônio Rodrigues Filho, da UDN com apoio
do PTB e PSP. Venceu o primeiro, por uma diferença mínima de votos, mesmo porque o colégio eleitoral todo não atendia a 500 eleitores. O PSD também fez maioria para a Câmara Municipal, elegendo cinco vereadores, entre eles o autor destas mal-traçadas.
Era comum após o término das sessões da Câmara, que realizávamos à noite, na parte superior do prédio onde funcionava a Prefeitura Municipal, nos reunirmos no "Bar do Nogueira" a fim de comentarmos extra-sessão, os assuntos concernentes à ordem dos trabalhos.
Os mais idosos e os que moravam distante da sede do município se retiravam, permanecendo invariavelmente a bancada do PSD e o vereador Nestor Cassemiro Teixeira, da UDN, amigo de todos.
Uma das sessões, em abril de
1948, quando da elaboração do Regimento Interno da Câmara Municipal, se prolongou até altas horas da noite pelo cuidado que se estava tendo, a fim de que não colidisse com a Lei Orgânica dos Municípios que estava em discussão na Assembléia Legislativa do Estado.
Ao final, saímos para encostar o estômago no Bar do Nogueira. Éramos seis vereadores.
A conversa fluía descontraída, quando a porta do bar que estava semicerrada foi aberta com estrépito, uma figura com quase 2 metros de altura adentra a sala e, num vozeirão, brada: - "Senhores vereadores, vim cobrar a promessa da campanha!" Olhamos atônitos.
Aquela figura era o querido amigo Francisco Ormeseze, carinhosamente chamado por toda a população quatiguaense de "Florindo", um homenzarrão de 1,95 de altura e 100 quilos de peso que voltou a falar:
- "Os Senhores já estão há mais de quatro meses em exercício na Câmara Municipal e até hoje não cumpriram a promessa feita em campanha".
Perguntamos ao mesmo tempo: - "Que promessa, Florindo?" Ele, do alto de seu 1,95 de altura respondeu: - "Vocês não prometeram acabar com as vidas da rua João Pessoa?" (A Rua João Pessoa era a artéria principal da "Cidade Botão"). Todos continuaram não entendendo nada.
— "Que vidas, Florindo?"
Gargalhando, o Florindo respondeu: - "Não se diz que a vida é um buraco? Pois a rua João Pessoa esta cheia deles!"
A ironia surtiu o efeito desejado.
Providências foram tomadas e a rua recebeu uma generosa camada de saibro.
Almir Aires Arruda, professor e empresário, ex-vereador e fundador do município de Quatiguá
domingo, 29 de maio de 2016
Histórias do Paraná - A reação do candidato
Histórias do Paraná - A reação do candidato
A reação do candidato
Lauro Grein Filho
Corria o ano de 1955... E Castro, a pérola do Iapó, contrastava sua habitual serenidade, embalada nas emoções do pleito eleitoral, próximo e renhido.
No Diretório do PSD, somava esforços com o presidente Vespasiano Carneiro de Mello no comando de operações e estratégias contra os poderes de uma UDN fortíssima, sedimentada e engrandecida pelas mais tradicionais cepas da terra. A eleição prenunciava-se altamente renhida e a conquista da Prefeitura dependia, fundamentalmente, de uma boa chapa de vereadores.
Com eles e seus cmpenhos, viriam implicitamente os votos para o prefeito e para a vitória.
Em Distrito importante, de quatro mesas receptoras, morava um senhor idoso de reconhecidas potencialidades eleitorais.
Comerciante próspero e conceituado, alimentava no fiado e no compadrio o maior prestígio do bairro.
Por isso lá estávamos àquela larde, em seu estabelecimento e residência, distante 70 quilômetros da cidade, a tentar de qualquer maneira seu ingresso em nossos <|uadros.
Resistente ao assédio das agremiações adversárias que já o haviam procurado, o homem lambém não quis vir conosco na parada.
Baldados os esforços, esgotados os argumentos, decidimos bater à porta de outro companheiro, também morador da região e membro do Diretório local.
Era um jovem recém-chegado na vila, despretensioso e tímido, sem grandes projeções no lugarejo e adjacências.
Convidado, após alguns momentos de perplexidade e ensaios, resolveu finalmente aceitar.
De regresso à cidade, lamentávamos o malogro da viagem, deplorada na alternativa de um candidato inexpressivo e inviável. A escolha, de resto, inconformou os demais companheiros, e exigiu-se uma reformulação capaz de maiores chances e probabilidades.
As coisas não podiam, mesmo, continuar assim... E para melhorá-las, uma semana depois voltamos ao velho, teimando no pedido e na insistência.
Acuado ante a argumentação inclemente e obstinada, o homem afinal cedeu a figurar glorioso e destacado em nossa chapa.
Restava agora eliminar as pretensões do jovem correligionário, desfazer o trabalho errôneo de dias atrás e que resultara no equivoco de uma candidatura a esta altura totalmente indesejável.
Junto a ele debulhamos uma série de ponderações e conselhos.
Mas desta feita no sentido contrário, desdizendo as conversações anteriores, sugerindo e animando-o à renúncia e à desistência. O moço imediatamente compreendeu e de bom grado nos liberou, com reforços de fidelidade partidária e juras de apoio ao novo candidato do qual se confessava amigo e admirador. O retorno foi eufórico, com gozos antecipados dos desesperos da oposição.
Não foram necessários, entretanto, muitos dias para sabermos do tal jovem e já não nosso companheiro, engajado em outro partido a trabalhar com todas as forças em prol de sua candidatara que já despontava vitoriosa. E, na revolta e na raiva, correndo e lutando, batendo e brigando, conseguiu alcançar um convincente e esmagador triunfo.
A nós restaram as reinaçÕes do velho... Indeciso e irresoluto, apático e insensível a todos os estímulos, trôpego e claudicante, acabou desistindo em meio à jornada, farrapo aparvalhado completamente inútil.
Amargamos séria derrota no Distrito, tido e havido como reduto de nossa incontestável supremacia.
E provável que histórias como esta se contem e se repitam nas regras das pelejas interioranas.
Mas quem apanha nunca esquece.
Recordo-a por isso, nas implicações do seu conteúdo moral e ético a advertir que jamais se deve menosprezar quem quer que seja.
Porque a natureza não tolera e violentamente explode em reações imprevisíveis, quando ferida no seu amor próprio, na sua honra e nos seus brios.
Lauro Grein Filho, médico, presidente de Centro de Letras do Paraná em 1993
A reação do candidato
Lauro Grein Filho
Corria o ano de 1955... E Castro, a pérola do Iapó, contrastava sua habitual serenidade, embalada nas emoções do pleito eleitoral, próximo e renhido.
No Diretório do PSD, somava esforços com o presidente Vespasiano Carneiro de Mello no comando de operações e estratégias contra os poderes de uma UDN fortíssima, sedimentada e engrandecida pelas mais tradicionais cepas da terra. A eleição prenunciava-se altamente renhida e a conquista da Prefeitura dependia, fundamentalmente, de uma boa chapa de vereadores.
Com eles e seus cmpenhos, viriam implicitamente os votos para o prefeito e para a vitória.
Em Distrito importante, de quatro mesas receptoras, morava um senhor idoso de reconhecidas potencialidades eleitorais.
Comerciante próspero e conceituado, alimentava no fiado e no compadrio o maior prestígio do bairro.
Por isso lá estávamos àquela larde, em seu estabelecimento e residência, distante 70 quilômetros da cidade, a tentar de qualquer maneira seu ingresso em nossos <|uadros.
Resistente ao assédio das agremiações adversárias que já o haviam procurado, o homem lambém não quis vir conosco na parada.
Baldados os esforços, esgotados os argumentos, decidimos bater à porta de outro companheiro, também morador da região e membro do Diretório local.
Era um jovem recém-chegado na vila, despretensioso e tímido, sem grandes projeções no lugarejo e adjacências.
Convidado, após alguns momentos de perplexidade e ensaios, resolveu finalmente aceitar.
De regresso à cidade, lamentávamos o malogro da viagem, deplorada na alternativa de um candidato inexpressivo e inviável. A escolha, de resto, inconformou os demais companheiros, e exigiu-se uma reformulação capaz de maiores chances e probabilidades.
As coisas não podiam, mesmo, continuar assim... E para melhorá-las, uma semana depois voltamos ao velho, teimando no pedido e na insistência.
Acuado ante a argumentação inclemente e obstinada, o homem afinal cedeu a figurar glorioso e destacado em nossa chapa.
Restava agora eliminar as pretensões do jovem correligionário, desfazer o trabalho errôneo de dias atrás e que resultara no equivoco de uma candidatura a esta altura totalmente indesejável.
Junto a ele debulhamos uma série de ponderações e conselhos.
Mas desta feita no sentido contrário, desdizendo as conversações anteriores, sugerindo e animando-o à renúncia e à desistência. O moço imediatamente compreendeu e de bom grado nos liberou, com reforços de fidelidade partidária e juras de apoio ao novo candidato do qual se confessava amigo e admirador. O retorno foi eufórico, com gozos antecipados dos desesperos da oposição.
Não foram necessários, entretanto, muitos dias para sabermos do tal jovem e já não nosso companheiro, engajado em outro partido a trabalhar com todas as forças em prol de sua candidatara que já despontava vitoriosa. E, na revolta e na raiva, correndo e lutando, batendo e brigando, conseguiu alcançar um convincente e esmagador triunfo.
A nós restaram as reinaçÕes do velho... Indeciso e irresoluto, apático e insensível a todos os estímulos, trôpego e claudicante, acabou desistindo em meio à jornada, farrapo aparvalhado completamente inútil.
Amargamos séria derrota no Distrito, tido e havido como reduto de nossa incontestável supremacia.
E provável que histórias como esta se contem e se repitam nas regras das pelejas interioranas.
Mas quem apanha nunca esquece.
Recordo-a por isso, nas implicações do seu conteúdo moral e ético a advertir que jamais se deve menosprezar quem quer que seja.
Porque a natureza não tolera e violentamente explode em reações imprevisíveis, quando ferida no seu amor próprio, na sua honra e nos seus brios.
Lauro Grein Filho, médico, presidente de Centro de Letras do Paraná em 1993
sábado, 28 de maio de 2016
Histórias do Paraná - Guerra é guerra
Histórias do Paraná - Guerra é guerra
Guerra é guerra
Francisco Camargo
Em novembro de 1959, Curitiba foi sacudida pelo que ficou conhecido como a Guerra do Pente.
Muito já foi escrito sobre a explosão da massa que, na ocasião, elegeu como bode expiatório, os comerciantes de origem árabe da Praça Tiradentes, numa inconsciente prova de que o brasileiro cordial, de Sergio Buarque de Hollanda, só existiu mesmo no papel.
O governo tinha lançado o concurso "Seu Talão Vale um Milhão".
Simples: o cidadão exigia nota fiscal, que trocava por um tíquete para concorrer a prêmios.
Na compra de um pente, determinado comerciante se recusou a sacar o bloco.
Discussão, empurrões, xingamentos, sopapos.
O freguês era policial-militar, o que acendeu um estopim que levou o centro de Curitiba à explosão de fúria.
Quebra-quebra que só teve fim, no terceiro dia, quando da intervenção de tropas do Exército.
Isso todos, ou quase todos, sabem.
O que não sabem — e me proponho a tentar contar aqui - é que naquele primeiro dia de violência,
um pacato Segundo Sargento, à paisana, deixava o velho Serviço Regional de Obras, na Rua Presidente Faria, juntos ao Passeio Público, e tratava de alcançar o ônibus da Rua Marechal Floriano que, na época, fazia o percurso no sentido Tiradentes-Adauto Botelho,
o popular "hospício", no final da rua.
Final da Floriano e da cidade, já que tudo praticamente terminava ali, no hospício, quarteirão que, anos antes, tinha sido transformado em pista (terra batida) para uma sensacional e inédita prova automobilística -onde Barranco, do ferro-velho que levava seu nome, deu um show ao volante de suas carreta.
Levantando poeira e tirando finas dos amontoados de pneus que serviam de guard-rail.
Pois seguia o Sargento em passos acelerados.
Sobre pés que se chocam com os paralelepípedos e pedras negras do calçamento, 120 quilos distribuídos por um corpanzil de um homem de 1,80 metros.
No rosto, a expressão de quem estava com fome e não via a hora de chegar em casa.
Talvez o imenso bigode, de fios negros e espessos, dissimulasse um pouco o ricto labial que denunciava o estômago vazio.
Tratou de cortar a Tiradentes, para atingir o ponto de ônibus, mal olhando para os lados, preocupado com as coisas de sua vida e com a comida que o aguardava, fumegante, num canto do fogão a lenha - meio-dia, panela no fogo e barriga vazia.
Tanto que não notou a barulhenta turba, que a tudo atacava e destruía, numa fúria de paquidermes enlouquecidos ou a caoticamente metódica ânsia destrutiva de uma nuvem de gafanhotos.
Um grito salvador, partindo de um jipe do Exército que por ali passava, evitou que o homem de corpo avantajado e rosto a la Oriente Médio penetrasse como um inadvertido Moisés no mar de violência que se lhe abria à frente:
- Venha, Salada! Sai daí!
Ao mesmo tempo, era aberta a pequena porta de lona do jipe.
Possuído por uma súbita agilidade de felino, o sargento fugiu da cena do crime.
Sim, porque, com suas características, fatalmente seria tomado por sírio ou libanês e literalmente trucidado pelo povão ensandecido.
Naquele dia, qualquer cidadão que lembrasse um "batrício" seria buxado feito balão de festa junina.
Mesmo ele, um descendente de portugueses como, de fato, o era.
Mas, no caso, com a "agravante" de ter Saladim como prenome, que derivou para o apelido Salada.
Graças aos colegas do Serviço Regional de Obras, que iam para casa de viatura, o autor destas linhas, ficou livre de se tornar órfão bem antes do que veio a ocorrer quatro anos mais tarde.
Francisco Camargo, jornalista
Guerra é guerra
Francisco Camargo
Em novembro de 1959, Curitiba foi sacudida pelo que ficou conhecido como a Guerra do Pente.
Muito já foi escrito sobre a explosão da massa que, na ocasião, elegeu como bode expiatório, os comerciantes de origem árabe da Praça Tiradentes, numa inconsciente prova de que o brasileiro cordial, de Sergio Buarque de Hollanda, só existiu mesmo no papel.
O governo tinha lançado o concurso "Seu Talão Vale um Milhão".
Simples: o cidadão exigia nota fiscal, que trocava por um tíquete para concorrer a prêmios.
Na compra de um pente, determinado comerciante se recusou a sacar o bloco.
Discussão, empurrões, xingamentos, sopapos.
O freguês era policial-militar, o que acendeu um estopim que levou o centro de Curitiba à explosão de fúria.
Quebra-quebra que só teve fim, no terceiro dia, quando da intervenção de tropas do Exército.
Isso todos, ou quase todos, sabem.
O que não sabem — e me proponho a tentar contar aqui - é que naquele primeiro dia de violência,
um pacato Segundo Sargento, à paisana, deixava o velho Serviço Regional de Obras, na Rua Presidente Faria, juntos ao Passeio Público, e tratava de alcançar o ônibus da Rua Marechal Floriano que, na época, fazia o percurso no sentido Tiradentes-Adauto Botelho,
o popular "hospício", no final da rua.
Final da Floriano e da cidade, já que tudo praticamente terminava ali, no hospício, quarteirão que, anos antes, tinha sido transformado em pista (terra batida) para uma sensacional e inédita prova automobilística -onde Barranco, do ferro-velho que levava seu nome, deu um show ao volante de suas carreta.
Levantando poeira e tirando finas dos amontoados de pneus que serviam de guard-rail.
Pois seguia o Sargento em passos acelerados.
Sobre pés que se chocam com os paralelepípedos e pedras negras do calçamento, 120 quilos distribuídos por um corpanzil de um homem de 1,80 metros.
No rosto, a expressão de quem estava com fome e não via a hora de chegar em casa.
Talvez o imenso bigode, de fios negros e espessos, dissimulasse um pouco o ricto labial que denunciava o estômago vazio.
Tratou de cortar a Tiradentes, para atingir o ponto de ônibus, mal olhando para os lados, preocupado com as coisas de sua vida e com a comida que o aguardava, fumegante, num canto do fogão a lenha - meio-dia, panela no fogo e barriga vazia.
Tanto que não notou a barulhenta turba, que a tudo atacava e destruía, numa fúria de paquidermes enlouquecidos ou a caoticamente metódica ânsia destrutiva de uma nuvem de gafanhotos.
Um grito salvador, partindo de um jipe do Exército que por ali passava, evitou que o homem de corpo avantajado e rosto a la Oriente Médio penetrasse como um inadvertido Moisés no mar de violência que se lhe abria à frente:
- Venha, Salada! Sai daí!
Ao mesmo tempo, era aberta a pequena porta de lona do jipe.
Possuído por uma súbita agilidade de felino, o sargento fugiu da cena do crime.
Sim, porque, com suas características, fatalmente seria tomado por sírio ou libanês e literalmente trucidado pelo povão ensandecido.
Naquele dia, qualquer cidadão que lembrasse um "batrício" seria buxado feito balão de festa junina.
Mesmo ele, um descendente de portugueses como, de fato, o era.
Mas, no caso, com a "agravante" de ter Saladim como prenome, que derivou para o apelido Salada.
Graças aos colegas do Serviço Regional de Obras, que iam para casa de viatura, o autor destas linhas, ficou livre de se tornar órfão bem antes do que veio a ocorrer quatro anos mais tarde.
Francisco Camargo, jornalista
sexta-feira, 27 de maio de 2016
Histórias do Paraná - Funéreos adereços
Histórias do Paraná - Funéreos adereços
Funéreos adereços
Francisco Brito de Lacerda
Ainda moço, meia-idade, nomeado Coletor de Rendas na Linha Sul, Neco Pacheco foi viver em Irati.
Logo fez amigos, comandando certas iniciativas.
Organizar um baile, por exemplo, dava-lhe muito gosto.
Naquele 31 de dezembro, sexta, depois do almoço, o aventureiro coletor se ocupava em decorar um salão para o grande baile de Ano Novo.
Até uma quadrilha ia ser dançada.
Sentiu-se tonto, de repente, o nosso Neco Pacheco.
Pôs as mãos no peito, onde se localizava a dor crudelíssima que o fazia rebentar os botões da camisa;
pálido, deitado no assoalho, a cabeça apoiada numa almofada, ele suava em bicas.
Quando o médico chegou, Neco tinha acabado de morrer.
Fretado um trem especial para levar o corpo a Curitiba, umas cem pessoas, entre amigos e parentes,
esperavam a chegada do comboio na plataforma.
O trem encostou depois das onze da noite. O caixão lilás, enfeites dourados, saindo do bagageiro pelas mãos dos parentes mais próximos (um em cada alça), foi transferido para o coche, ao qual estavam atrelados quatro cavalos brancos, o arreamento guarnecido com negros laços de cetim.
Devagar, o coche subia a Rua Barão.
Seguiam-no os acompanhantes. Um Desembargador, amigo da família, a cada passo tirava o relógio da algibeira, como a conferir quanto faltava para meia-noite.
No instante em que o enterro achava-se prestes a atingir a esquina da Barão com Rua Quinze, começou o esfuziar de foguetes, que estouravam nos céus de Curitiba.
Batiam os sinos da Catedral, festivos.
Ouvia-se à distância o apito das fábricas.
Era o ano novo que chegava.
Na calçada, perplexa melindrosa, fita na testa, lábios muito pintados, só faltava bater palmas à passagem do funeral.
Moço sensível, um primo do morto sentia-se personagem de melodrama.
Cutucando o acompanhante, que caminhava ao seu lado e fingia não ouvir o foguetório, ele disse:
"Bons-anos!"
"Bons-anos", o outro retribuiu.
Bem nessa hora, a vara de um foguete caiu entre os cavalos, que ameaçaram disparar.
Quase derrubando a cartola, o cocheiro conseguiu conter os animais.
Com o enterro perto da Praça
Tiradentes, os sinos da Catedral tinham silenciado.
Raros foguetes ainda subiam nas bandas do Pilarzinho.
Permanecia no ar o triste apito de um engenho.
Já se podia dizer que era sábado, primeiro de janeiro.
Francisco Brito de Lacerda, advogado
Funéreos adereços
Francisco Brito de Lacerda
Ainda moço, meia-idade, nomeado Coletor de Rendas na Linha Sul, Neco Pacheco foi viver em Irati.
Logo fez amigos, comandando certas iniciativas.
Organizar um baile, por exemplo, dava-lhe muito gosto.
Naquele 31 de dezembro, sexta, depois do almoço, o aventureiro coletor se ocupava em decorar um salão para o grande baile de Ano Novo.
Até uma quadrilha ia ser dançada.
Sentiu-se tonto, de repente, o nosso Neco Pacheco.
Pôs as mãos no peito, onde se localizava a dor crudelíssima que o fazia rebentar os botões da camisa;
pálido, deitado no assoalho, a cabeça apoiada numa almofada, ele suava em bicas.
Quando o médico chegou, Neco tinha acabado de morrer.
Fretado um trem especial para levar o corpo a Curitiba, umas cem pessoas, entre amigos e parentes,
esperavam a chegada do comboio na plataforma.
O trem encostou depois das onze da noite. O caixão lilás, enfeites dourados, saindo do bagageiro pelas mãos dos parentes mais próximos (um em cada alça), foi transferido para o coche, ao qual estavam atrelados quatro cavalos brancos, o arreamento guarnecido com negros laços de cetim.
Devagar, o coche subia a Rua Barão.
Seguiam-no os acompanhantes. Um Desembargador, amigo da família, a cada passo tirava o relógio da algibeira, como a conferir quanto faltava para meia-noite.
No instante em que o enterro achava-se prestes a atingir a esquina da Barão com Rua Quinze, começou o esfuziar de foguetes, que estouravam nos céus de Curitiba.
Batiam os sinos da Catedral, festivos.
Ouvia-se à distância o apito das fábricas.
Era o ano novo que chegava.
Na calçada, perplexa melindrosa, fita na testa, lábios muito pintados, só faltava bater palmas à passagem do funeral.
Moço sensível, um primo do morto sentia-se personagem de melodrama.
Cutucando o acompanhante, que caminhava ao seu lado e fingia não ouvir o foguetório, ele disse:
"Bons-anos!"
"Bons-anos", o outro retribuiu.
Bem nessa hora, a vara de um foguete caiu entre os cavalos, que ameaçaram disparar.
Quase derrubando a cartola, o cocheiro conseguiu conter os animais.
Com o enterro perto da Praça
Tiradentes, os sinos da Catedral tinham silenciado.
Raros foguetes ainda subiam nas bandas do Pilarzinho.
Permanecia no ar o triste apito de um engenho.
Já se podia dizer que era sábado, primeiro de janeiro.
Francisco Brito de Lacerda, advogado
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