quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Histórias do Paraná - Vitória mais que apertada

Histórias do Paraná - Vitória mais que apertada

Vitória mais que apertada
João do Planalto

Relendo interessantes narrativas que se encontram no Livro "Sombras do Passado ou Histórias do Distrito do Pinhão", de autoria do meu conterrâneo guarapuavano-pinhãoense José Bischof, encontrei o espetacular caso referente à realização de um disputadíssimo pleito eleitoral municipal em Guarapuava, nos recuados idos de 1937.
Eram dois os concorrentes, ambos candidatos prestigiosos.
Pela situação, o Cel.
Anibal Virmond, abastado fazendeiro-pecuarista, lançado pela agremiação "Frente Única", dirigida pelo entusiasta e hábil chefe político guarapuavano Cel.
Antônio Villaça.
Pela oposição, o candidato era o senhor Generoso de Paula Bastos, operoso comerciante, dono de uma das maiores firmas comerciais do município de Guarapuava, indicado e apoiado pelo Partido Municipal Independente, aguerrida agremiação política, presidida pelo industrial, comerciante e banqueiro Francisco Missino.
A renhida batalha eleitoral, como se dizia então, realizou-se dentro de um clima de incontido entusiasmo do eleitorado, dividido em dois grupos.
Os dois cantavam antecipadamente uma esmagadora vitória, visto que ambos os candidatos eram portadores de valiosos predicados de honradez e competência administrativa.
Chega o dia da eleição, realizada dentro de perfeita ordem e com maciço comparecimento do eleitorado, como era esperado pelas chefias das agremiações políticas e pelos próprios candidatos.
Encerrada a votação, as urnas são imediatamente abertas para a contagem dos votos. A cada nome anunciado pelos escrutinadores seguiam-se os sorrisos e aplausos na compacta massa popular que se apinhava no local da apuração.
E a apuração chega ao fim, com o resultado causando imensa surpresa.
Pela diferença só de UM voto, o candidato Generoso de Paula Bastos sagra-se como vencedor.
Os seus eleitores fazem então uma enorme festa e dias depois, em solenidade mais festiva ainda, assistem a posse de seu candidato vitorioso.
A euforia da vitória alcançada, porém durou pouco. O candidato derrotado, Anibal Virmond, não se conformando em perder por um único sufrágio, recorreu do resultado pedindo recontagem dos votos. O Tribunal Regional Eleitoral do Estado fez a recontagem e constatou que, de fato houvera um erro.
O resultado correto era um não menos surpreendente EMPA-
TE! Diante disso, o TRE proclamou Anibal Virmond o vencedor do pleito, visto ser ele o mais idoso dos dois candidatos... pela diferença de UM único dia!

João do Planalto, jornalista em Guarapuava desde 1919

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Histórias do Paraná - A Lapa e os Farrapos

Histórias do Paraná - A Lapa e os Farrapos

A Lapa e os Farrapos
Sérgio A. Leoni

Dentre os documentos que compõem o acervo da Casa da Memória da Lapa, encontra-se um de grande valor histórico,
oriundo do quartel general na vila de Paranaguá, datado de 9 de fevereiro de 1940, e assinado pelo general Pedro Labatut.
Labatut era um veterano das campanhas napoleônicas e das guerras das independências e da Grã Colômbia, tendo chegado a comandar Simão Bolívar.
No documento em questão, esse notável militar comunicava ao juiz municipal da ‘Villa do Príncipe"* que em breve chegaria a essa localidade, em companhia de seu estado maior, para assumir o comando das forças regulares imperiais, que continuaram combatendo os farroupilhas.
O sul da então província de São Paulo encontrava-se em perigo, desde 1837, quando a vila de Lages não resistiu à investida dos farrapos e quando Anita Garibaldi chegou até perto do Rio Negro, limite com a província do Rio Grande do Sul.
Nessa ocasião, fora designado para defender São Paulo o brigadeiro Xavier da Cunha, que contava com um total de 1527 soldados, sendo 120 voluntários da Lapa e de Campo do Tenente, comandados pelo capitão Valentiniano José de
Lima.
Em novembro de 1839, essa força acampou no Corisco, ao sul de Rio Negro, depois de permanecer muito tempo na Lapa.
No começo de dezembro marchou até Curitibanos, quando Hipólito Machado Dias, um bravo lapeano, com 120 homens de sua cavalaria voluntária, foi mandado guarnecer o Passo de SantAna, ficando frente a frente com os piquetes republicanos.
Em seguida, a coluna alcançou Campos Novos e logo após retornou a Lages, preparando-se para invadir o Rio Grande do Sul.
Isso realmente aconteceu, porém de forma precipitada pelo brigadeiro Cunha, que acabou sendo derrotado pelas forças do caudilho gaúcho Marinho Aranha, no Passo de Santa Vitória.
A força imperial que contava com aproximadamente 500 homens, foi desbaratada pelas de Aranha que tinha mais de 800, ocasião em que morreram muitos soldados e oficiais e o próprio brigadeiro Xavier da Cunha.
Nesse desastre só não ficaram desmoralizados os voluntários da Lapa e Campo do Tenente que, sitiados por todos os lados, fazendo dos muros de pedras trincheiras, conseguiram de forma heróica romper o cerco.
O "Noticiário", um jornal de São Paulo, publicou o fato em termos concisos, ao mesmo tempo em que veiculava a infausta morte do brigadeiro Cunha: "O denodado Valentiniano e os seus companheiros, verificando desesperada a situação, gritaram a quantos combatentes a seu lado haviam sustentado aquele ponto, que iam tentar romper o cerco, rejeitando as intimações.
Investindo sobre a porteira com coragem de leões, fizeram retroceder o grosso da força, com mortífero e bem dirigido fogo de fuzilaria.
Jogados fora da taipa, os rebeldes deixaram o terreno juncado de cavalos e cavaleiros."
Depois da derrota de Xavier da Cunha, vem a participação do comandante, general Pedro Labatut na Guerra dos Farrapos, cujo acesso havia se dado através da então "Villa do Príncipe".
Teria sido esse o último contacto da Lapa com a campanha farroupilha, se não fosse um juiz lapeano quem pusesse pá de cal às veleidades da união dos liberais de São Paulo com os republicanos gaúchos, com a prisão, perto de Passo Fundo do brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar.
O juiz lapeano referido foi o Dr. José Gaspar de Oliveira Lima, bacharel de 1832, da primeira turma do curso jurídico de São Paulo.

Sergio A. Leoni, ex-prefeito da Lapa ** "Villa do Príncipe" era a denominação da Lapa, de 1806 a 1872, quando foi elevada a categoria de cidade.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Histórias do Paraná - Um peixe para seu Amador

Histórias do Paraná - Um peixe para seu Amador

Um peixe para seu Amador
Odmir P.C. Valsecchi

Esta historinha me foi contada por um velho amigo, pioneiro do Norte do Paraná.
Contava-me ele, logo após a morte do Sr. Amador Aguiar que em Maringá, no decorrer da década de cinqüenta, havia um corretor de café e de terras que estava muito bem de vida, mas por uma descarga do infortúnio acabou se atrapalhando nos negócios e teve que vender tudo e recomeçar a vida completamente zerado.
Como esse cidadão era bom pescador amador, e possuía barco e redes, resolveu ir pescar profissionalmente para sobreviver.
Assim foi que se instalou no Paranazão no região de Guaíra, mas no primeiro dia, após bater rede de baixo pra cima e de cima pra baixo, acabou pescando um único Dourado, peixe de bom porte.
Como já estava cansado, resolveu parar naquele dia e aportou seu barco perto do trapiche da balsa que fazia a travessia para Mato Grosso.
No porto, um senhor alto achou bonito o peixe e se propôs a comprá-lo.
Era o banqueiro Amador Aguiar, fundador do Bradesco, mas o nosso pescador não o conhecia e travou-se mais ou menos o seguinte diálogo:
- Quanto quer pelo peixe?
- Nem sei, é o primeiro que pesco.
Sabe de uma coisa, prá me dar sorte nesta nova vida vou lhe dar de presente.
O senhor Amador, meio constrangido, insistiu em pagar e o pescador insistia em dar.
Em decorrência disso o papo se alongou enquanto aguardavam o retorno da balsa, e o banqueiro deu um cartão e se identificou ao neo pescador, acrescentando que se o mesmo, que era conhecedor de terras, achasse alguma fazenda boa na região, ele estaria interessado na compra, acrescentando ainda que podia se dirigir a uma fazenda ali perto, do próprio Amador, e contatar pelo rádio com São Paulo.
O pescador não levou muito a sério, achou que era uma simples gentileza e que para falar com um homem daqueles era tão difícil quanto falar com um Presidente.
Assim mesmo guardou o cartão e continuou vegetando pelas barrancas do Rio Paraná, até que um certo dia, decorridos já seis meses do encontro, soube de uma boa fazenda de cinco mil alqueires cheia de gado, especulou o preço e, lembrando-se do cartão, resolveu ir até a fazenda do Seu Amador para contatar com São Paulo. Não punha muita fé, mas foi.
Foi bem recebido na fazenda e o capataz passou o rádio para Seu Amador com os detalhes e preço. O capataz avisou que o novo contato era somente à tarde, e o pescador saiu e retomou na hora aprazada, ficando um tanto decepcionado, pois não veio resposta alguma e nem no dia seguinte.
Estava crente que o assunto havia morrido, mesmo assim desanimado retornou no terceiro dia. O capataz, ao avistá-lo de longe, gesticulava com um bilhete na mão e cara de felicidade, passando às mãos do pescador a seguinte mensagem:
- ‘Pode fechar negócio fazenda vg amanhã cedo segue ordem pagamento juntamente com o procurador para ultimar transferência pt saudações Amador Aguiar."
No dia seguinte pousava na fazenda um avião com o procurador, o qual fez todos os acertos e ainda trouxe um recado ao pescador.
- Pode procurar mais fazendas, o chefe disse que confia em sua palavra.
Com uma carta branca desse tipo o pescador renasceu e só foi cuidar de procurar mais fazendas.
Dizem que comprou mais de dez para o Sr. Amador e ficou amicíssimo do mesmo.
Para encerrar a história, conta-se que o pescador virou fazendeiro forte e mora em Londrina.

Odmir P. C. Valsecchi, dentista em Jandaia do Sul

domingo, 27 de novembro de 2016

Histórias do Paraná - A barba de Jocelin

Histórias do Paraná - A barba de Jocelin

A barba de Jocelin
Túlio Vargas

Conta-nos o historiador Ermelino de Leão: "Manoel Leme, paulista de Mogi das Cruzes, casou-se em Paranaguá com a filha do provedor Manoel de Lemos Conde, de grande prestígio no litoral em meados do século passado.
Amealhou fortuna.
Comprou sítio no Boqueirão, em Curitiba, e fazenda de gado às margens do Rio Tibagi, nos Campos Gerais."
Elevado ao cargo de juiz ordinário, instaurou curioso processo contra o escrivão Euzébio Simões da Cunha, taxando-o de ladrão.
Uma denúncia gravíssima.
Este, por desgosto, deixou crescer a barba até que, ao concluir-se a instrução criminal, viu-se obrigado a raspá-la por ordem superior."
Parece ter sido costume dos antigos esse tipo de expiação, modo de purificar-se de imerecido castigo.
Lembrando-se, a propósito, de outro exemplo dessa prática bizarra.
Soubemos, por tradição oral de família, que Jocelin Morocines Borba também recorreu a esse ritual incomum.
Segundo Ermelino: "ele era homem de rara abnegação.
Um belo tipo gaúcho: alto, elegante, com a longa barba branca ondulante aos ventos, usando botas e esporas como exímio cavaleiro que era.
Prendia a atenção e impunha-se pela estima e bonomia.
Durante a Revolução
Federalista exerceu o cargo de comandante da fronteira da Ribeira." (Dic.
Hist. e Geográfico Paranaense, vol 3, fls 1.032).
Irmão de Telêmaco e Nestor Borba, toma-se conhecido pelos serviços prestados como diretor de aldeamentos indígenas e fidelidades à causa dos maragatos.
Correligionário de Generoso Marques dos Santos, da União Republicana, influente na política, viu-se nomeado contador dos Correios e Telégrafos, em Curitiba, durante o governo de Prudente de Moraes.
Nesse exercício mostrou-se sempre dedicado e operoso.
Certo dia, porém, desapareceu da sua seção um envelope de valores (quantia avultada para a época), sem que se pudesse apurar-lhe o paradeiro.
Depois de longas averiguações, em tumultuado inquérito administrativo, a responsabilidade recaiu sobre Jocelin, pois os bens estavam sob a sua guarda.
Acusado de peculato, sobreveio-lhe a demissão a bem do serviço público.
Honra enxovalhada, inconformado até a indignação, pelo que considerava erro imperdoável, deixou, como protesto pela injustiça, que lhe crescessem a barba, os cabelos e as unhas, resignando-se a cortá-los, somente quando se restabelecesse a verdade.
A repercussão do episódio causou-lhe irreparáveis danos morais.
Parecia um monge recolhido ao abandono, as unhas retorcidas, os cabelos compridos e a barba hirsuta, olhado com certo escárnio pelos maledicentes.
Todavia, diz o ditado, não há mal que sempre dure.
Anos depois, o escândalo já no esquecimento, numa reforma do prédio dos Correios encontrou-se, em surpresa, nos desvãos entre o armário e a parede, o extraviado enveloPe. Despencara da prateleira por detrás do móvel em lugar inacessível.
Estava explicado o sumiço.
Jocelin foi readmitido, mas nenhum desagravo compensou-lhe a terrível humilhação.
No barbeiro, ao recompor-se da penitência, sentiu, após sofridos anos, a emoção de um homem reabilitado.
Durante certo tempo, naquela geração, cada vez que alguém alegava inocência de uma acusação, invocava sempre o exemplo da "barba de Jocelin". A partir desse rumoroso processo, as autoridades do governo mostram-se mais cautelosas na apuração das denúncias.
Jocelin deixou numerosa família.
Entre filhos, netos e bisnetos, encontram-se os nomes do deputado federal Divonsir Borba Cortes e médico Helenton Borba Cortes (falecidos), médico Atlântido Borba Cortes e advogado Divonsir Cortes Filho.
Descendência digna da ancestralidade.

Túlio Vargas, ex-deputado e membro da Academia Paranaense de Letras

sábado, 26 de novembro de 2016

Histórias do Paraná - Gratidão decrescente

Histórias do Paraná - Gratidão decrescente

Gratidão decrescente
Flora C. Munhoz da Rocha

Sempre que a gente recontava aquele caso e todos gargalhavam, nosso tio ficava irritado;
- Que exagero! Não foi nada assim.
Querem saber mais que eu?
Ele ficava mais era com vergonha, pois sabia que estávamos contando bem direitinho como se passara.
Era uma vez uma tarde de calor.
Nosso tio Lindolfo Pessoa, que passava seu mês de férias de Deputado Federal na Ilha do Mel, resolveu dar um mergulho.
Mas a água estava tão boa que foi ficando, boiando de papo pro ar.
De repente foi ficar de pé e não tinha pé. Sem saber nadar, afobou, ficou nervosa Estava escurecendo.
Teve certeza de que iria se afogar se alguém não viesse com urgência ao seu socorro.
Então começou com os chamados e apelos desesperados de braços.
Nada, ninguém o estava vendo. O recurso era implorar ajuda do céu. E começaram as promessas: - "Juro que se alguém chegar a tempo de me salvar, este alguém receberá tudo que tenho.
Tudo. O dinheiro, a casa, a fazenda de café."
Chama novamente. A voz sai cada vez mais apertada.
Daí percebeu que a maré o estava afastando mais e mais.
Deixou-se levar pelas ondas e pela angústia da solidão, sentindo lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto.
Foi naquele exato momento que exultou, alguém vinha em largas braçadas ao seu encalço. "Obrigado meu Deus, obrigado.
Amanhã mesmo entrego os oito milhões que tenho no Banco do Brasil."
O salvador forte e ágil já o segurava por um braço.
Tio Lindolfo pôde reparar que era um homem de cor.
Sem demora pensou que seria bobagem entregar-lhe os oito milhões.
Ridículo até. Negociava com a generosidade.
Um milhão ele ficará na maior felicidade.
Agora já pisava areia firme.
Juntou gente com fáceis sorrisos.
Exausto, ele também forçou um lento sorriso e o olhar fixo naquele gigante negro era de eterna gratidão.
Mas quando apertou-lhe a mão forte falando em gratificação, ouviu nitidamente um ‘‘Não se preocuPe. Sou salva-vidas. É minha profissão". Nosso tio insistiu:
- Por favor apareça ali naquela casa amarela.
Quando o mulato bateu à sua porta com os dentes à mostra de contentamento antecipado, o próprio tio Lindolfo veio abrí-la, de envelope já pronto no bolsinho da camisa.
Era um bonito envelope azul turquesa com 10 notas novinhas de 100 cruzeiros.

Flora C. Munboz da Rocha, ex-primeira dama do Estado e cronista