quinta-feira, 5 de junho de 2014

Histórias do Paraná - Pênalti para o Londrina

Histórias do Paraná - Pênalti para o Londrina

Pênalti para o Londrina
Ernani Buchman

Conto aqui um fato, que se assim não se passou, passa a ser esta a versão histórica.
Inicio dos anos sessenta, lá estavam Apucarana e Londrina a decidir um campeonato da região.
Jogo em Apucarana, a ser transmitido para Londrina. O problema era que duas rádios faziam as coberturas esportivas, mas havia entre as duas cidades não mais que uma linha para a transmissão. O remédio foi fazer um sorteio. E como costuma acontecer com sorteios, ganhou a radio que mantinha 20% da audiência. A outra, a Paiquerê, que detinha os 80% restantes, ficou na poeira, Ou quase: seu locutor, Willy Gonzer, conhecido tanto pela competência como por mudar mais de emissora e cidade que cigano fugido, resolveu usar um velho recurso do rádio de outrora: dublar o jogo.
Aos menos iniciados, consiste em ficar no estúdio, microfones nos ouvidos, repetindo aquilo que ouve do locutor da outra rádio.
Uma pirataria justificável, até porque os patrocinadores da equipe de esportes da Paiquerê não poderiam ficar fora do ar, logo na decisão do campeonato.
Corre o jogo em Apucarana.
Seria campeão quem vencesse. O Apucarana é todo ataque.
No estúdio, Willy Gonzer segura a audiência como se estivesse no estádio. A partida vai chegando ao fim.
Nada de gols, mas o Apucarana continua insistindo.
Até que, passados já os quarenta minutos do segundo tempo, sobra a bola para um Adamastor qualquer escapar em direção ao gol do Apucarana.
Entrou na área naquela situação que Nireu Teixeira descreveria como ele, o goleiro, as traves e Deus. E foi derrubado.
Se não tivesse sido tão escandaloso, sua honestidade não teria marcado, que nenhum juiz de futebol é louco o bastante para apostar o próprio escalpo.
Mas não houve jeito. Pênalti a favor do Londrina.
Willy Gonzer narrou o pênalti a plenos pulmões, quando houve uma queda de energia. E adeus ao sinal de rádio vindo de Apucarana.
Silêncio do outro lado, não no estúdio da Paiquerê. Willy continuou transmitindo.
Falou das reclamações dos jogadores do Apucarana, da fúria da torcida, da expectativa da torcida do Londrina, presente ao estádio. E nada do sinal voltar.
Esperou uns bons dez minutos, até que não houve mais jeito.
Era preciso bater o pênalti. E lembrando que o centroavante Gauchinho já havia batido dez pênaltis naquele campeonato, sem errar nenhum, Willy não teve dúvida: usando o nome do jogador, tomou a liberdade de bater a falta e fazer o gol.
Gritou, comemorou e começou a ouvir os foguetes estourarem na cidade. E nada do sinal voltar.
Manteve a platéia atenta mais alguns minutos, até ser obrigado a encerrar o jogo.
Convenhamos que para quem havia feito o gol, terminar uma partida não era tarefa das mais difíceis. E o sinal não voltava, como não voltou jamais.
Quem voltou foi do time do Londrina, recebido na entrada da cidade por uma multidão em delírio a comemorar a conquista do campeonato, para espanto da delegação.
Gauchinho, naquela tarde em Apucarana, havia errado o primeiro pênalti da sua carreira.
Willy Gonzer foi, como um anônimo torcedor, conferir a chegada do time.
E antes de ouvir a sentença de morte contra ele decretada, ali mesmo apanhou mulher e filho pequeno e foi pedir emprego em outra cidade de estado distante.
Consta haver em Londrina, até hoje, torcedores inconformados que a cada jogo conferem, nas cabines de rádio, os locutores presentes.
Ainda não tiveram a sorte de encontrar por lá o criativo Willy.
Ernani Buchman é publicitário

Histórias do Paraná - Os sonhos de Rossi

Histórias do Paraná - Os sonhos de Rossi

Os sonhos de Rossi
Valêncio Xavier

Giovanni Rossi foi o único cara que, antes do tempo, viu o Paraná no século XX. Um Paraná bem diferente do de hoje, neste final de século: em crise como todo o Brasil, com sua inflação a prova de choque.
Médico-veterinário, agrônomo, ativista anarquista, nascido na Itália, Rossi foi o criador da tão pouco estudada Colônia Cecília, comunidade anarquista implantada em 1890, no Paraná, por imigrantes italianos.
Da Colônia Cecília dizem tantas besteiras como a que fora Dom Pedro II quem doara a terra para os anarquistas praticarem, entre outras coisas, o fim da monarquia. O próprio Rossi desmente: as terras, a 18 quilômetros ao sul de Palmeiras, "com 10 km2 de campos e bosques compramos ao preço de 15 libras o hectare pagável a prestações".
A Colônia Cecília, que chega a ter cerca de 200 habitantes, se extingue em 1893. Várias tm sido as explicações sobre seu fim: dificuldades financeiras, perseguição governamental pelos colonos terem aderido à Revolução Federalista.
Ou explicações tão bestas como a que, escandalizadas pelo amor livre ali praticado, as famílias fugiram antes que traçassem suas virginais filhi-nhas.
Mas a explicação certa é o próprio Rossi quem dá: "o nosso pequeno mundo anárquico era muito pequeno e, por isso, muito pobre para assegurar o pão branco, a garrafa de vinho, a entrada para o teatro, a cama macia, a companheira para o amor.
Ao contrário da retórica dos poetas, preferimos as rosas da escravidão aos espinhos da liberdade".
Com a dispersão da Colônia Cecília, Rossi monta uma fabriqueta de bebidas, em Curitiba.
Fracassa e vai para Santa Catarina trabalhar em sua profissão.
Em 1907, volta para a Itália, onde morre em 1943.
Em 1895, escreve "O Paraná no Século XX", livro que faz uma novela de ficção científica, "Visão de Bêbado Contada por ele Mesmo". Na novela, numa sessão espírita, o espírito do Dr. Grillo (médico em Palmeiras) relata que em 1950, o Paraná vive grande progresso sob o regime anarquista.
Tem 20 milhões de habitantes, 4/5 deles imigrantes.
Suas linhas férreas cobrem todo o estado e alcançam o Pacífico. A ecologia é preservada. O centro do progresso é a cidade de Elettropoli, que se ergue em meio ao Parque Nacional de 7 Quedas, que não foram destruídas.
Eis um trecho desse livro inédito de Giovanni Rossi por mim traduzido:
"Elettropoli, fabulosa cidade de 500 mil habitantes, que se ergue perto das Sete Quedas, não é famosa apenas pelas milhares de turbinas hidráulicas submersas de uma margem a outra do rio, para alimentar enorme bateria de milhares e milhares de dínamos fornecedores de energia e eletricidade a todo Paraná... tem fama mundial por seus laboratórios eletrotécnicos e suas fábricas... produzem todo material da iluminação, da rede telefônica e de aparelhos fonográficos... maquinaria aperfeiçoada, multiplica os resultados industriais, reduzindo o trabalho dos operários... novas descobertas como a transmissão a cores de imagens em movimento... Elettropoli é o templo sagrado da ciência, vanguarda de todo progresso futuro".
Pena que não se cumpriram os sonhos de Giovanni Rossi.

Valêncio Xavier é escritor e historiador.

Histórias do Paraná - Bigodes torcidos

Histórias do Paraná - Bigodes torcidos

Bigodes torcidos
Nilson Monteiro

Engraçado o Jaime e o Jorge.
Tem vários pontos comuns. A começar pela letra inicial do nome.
Os dois são risonhos.
Trabalham na mesma galeria, com o mesmo produto e com uma freguesia que tem -se tiver - pálidas diferenças.
Consideram-se londrinenses roxos, o que, para anotar, já é mais uma identificação.
Mas, suas vidas até parecem absurdas para a lógica do sistema, em que seu compadre rouba-lhe as meias sem tirar os sapatos.
Eu diria engraçados porque eles contrariam exatamente esta lógica imbecil. O Jorge tem um bar. E o Jaime tem outro.
Da janelinha do bar do Jorge, os dois conversam os mais diversos assuntos, trocam até os nomes dos fregueses mais duros, clientes constantes da pendura.
Os bares são na mesma galeria, meio espremida, desta cidade que abraçou as mais diversas procedências — os carcamanos, os açorianos, os japas, os ingleses, os baianos, paulista, gaúchos, paraibanos, brasileiros de cabo a rabo, sob o seu manto de terra roxa, cuja fama vazou fronteiras e preconceitos.
Sim, é obvio, há pequenas e quase imperceptíveis diferenças entre fregueses do Jorge e do Jaime.
Afinal, os ambientes são os mesmos e a cachaça custa o mesmo. A cerveja também.
Estas pequenas diferenças são de horários: às vezes, aquele paraguaio visita primeiro o santuário do Jaime, para depois rezar no balcão do Jorge, com os cotovelos enfiados nas histórias de sua convivência com a cidade.
Ou então aquele jornalista magriça, que não despreza um olhar mais agudo para as garotas que trabalham mais pro lado do Jaime, escorrega os salgadinhos do Jorge goela abaixo antes de visitar o bar vizinho.
Ou mesmo aquele imobilirista, pançudo e com cara de cansado, balança pra lá e pra cá, sem definir-se.
Sua única definição é pelo undenberg, que desce com um arrepio na nuca.
Mais ou menos os mesmos habitantes ocupam o metro disponível do estacionamento do Jorge ou as duas laterais do bar do Jaime.
As histórias, conversas e propostas também são mais ou menos as mesmas.
Também as desgraças, contadas com tom de cochicho ou de escândalo de manchete.
Ou as maldosas insinuações sobre as brasileiras que trabalham, de calças compridas ou vestidinhos colados, neste território. O cardápio também é o mesmo.
Vez ou outra, o Jorge corre provar a dobradinha do Jaime.
Por sua vez, o
Jaime descamba o paladar para as sardinhas fritas de Jorge.
Pra lá e pra cá, os dois não disputam, ajudam-se.
Engraçados.
Engraçados nada, eles desmoralizam os dentes da máquina capitalista.
Bonito o Jorge e o Jaime vivendo ali, na colméia do Centro Comercial, no coração de Londrina, alimentando famílias do lucro dos seus botecos, cara a cara.
Sem rancores. E poucas diferenças.
Ah sim, uma diferença que os aparta irremediavelmente: o Jaime, português, torce o bigode para a Portuguesa, com certeza. E o Jorge, nissei, não abre mão do Palmeiras. São diferentes.
Nilson Monteiro, iondrinense, êjornalista e escritor

300 e tantas Historias do Paraná, Brasil.

300 e tantas Historias do Paraná, Brasil.

Em 1993, aos trezentos dias que antecediam o aniversário da Cidade de Curitiba, o Jornal Gazeta do Povo
iniciou a publicação de uma série de contos históricos chamados 300 histórias de Curitiba.
Trata-se de obras de autores independentes que formam reunidas e preservadas neste material.
São pequenos escritos que contam um pouco da história e da cultura da cidade de Curitiba Paraná Brasil.
Com o sucesso dessa publicação deu-se a publicação das 300 e tantas histórias do Paraná seguindo o mesmo molde.
Neste site reunimos as obras desses diversos autores paranaenses que contam um pouco da história do Paraná, Brasil.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Stories of Paraná - Race Day

Stories of Paraná - Race Day

Race Day
Luiz Ribeiro Spinato

Half a century ago, the small Curitiba stood on street corners.
Virtually everyone knew and theme, then obviously it was
War II had "captured" our GIs FEB (Brazilian Expeditionary Force). Manoel Ribas - the Maneco Machete - ruled the State with authority and austerity. And in this country for so many holidays, there was one decipherable by the current regime and ambiguous: sent troops to fight alongside the allies, but had interior colors dictatorial.
This holiday was the "Race Day", celebrated on September 4.