segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Histórias do Paraná - Idéias exóticas

Histórias do Paraná - Idéias exóticas

Idéias exóticas
Adalberto S. Gomes

Materialismo dialético, revolução proletária, lutas de classes... Você acredita que temas e conceitos dessa natureza sejam facilmente ensináveis a uma criança normal de apenas dois anos de idade? Pois guarde o sorriso.
Houve um tempo, não tão distante assim, em que os chamados "órgãos de segurança" do país não só acreditavam num disparate desses, como, até, mandavam prender os "agentes responsáveis pela inoculação, nas inocentes criancinhas do terrível vírus das ideologias exóticas" (cruz credo).
Aconteceu aqui mesmo, em Curitiba, em março de 1978. Final do governo do General Ernesto Geisel, apelidado a boca pequena de "Alemão". O general-presidente acenava à nação com uma tal de "distensão lenta e gradual", espécie de travessia para substituição, em prazo indeterminado, do arbítrio pelas leis. Não era muito, mas para os setores mais à direita do próprio governo isso era até demais.
Daí a reação em áreas do próprio governo, com ações violentas patrocinadas por órgãos de repressão, velada ou abertamente.
Nesse clima, na noite de 18 de março, um sábado, agentes da Polícia Federal de Curitiba batem à porta de onze intelectuais e professores e os levam presos, incomunicáveis, sob a alegação de que desenvolviam "atividades contrárias à segurança nacional". Os intelectuais e professores eram todos ligados a dois pequenos jardins de infância, "Oca" e "Oficina", fundados com a preocupação de proporcionar um bom atendimento pré-escolar às crianças.
Mas, segundo a Superintendência da Polícia Federal no Paraná, em nota oficial distribuída no dia seguinte às prisões, nessas duas singelas escolas as crianças seriam "doutrinadas dentro de princípios marxistas, desenvolvendo-se-lhes uma visão materialista e dialética do mundo".
A revista Veja, na edição de 29 de março de 1978, registrou o caso em reportagem intitulada "As crianças e o vírus das idéias exóticas". Eis alguns trechos:
"Jean Piaget, o psicólogo suíço levemente progressista, que se consagrou no entre guerras como um mestre na pedagogia infantil, costumava ensinar que a natureza e o funcionamento da articulação mental no adulto estão intrinsicamente ligados à formação da criança.
Em Curitiba, neste final dos anos 70, isso tornou-se subversivo.
Tanto que, na semana passada, sessenta crianças entre 18 meses e 6 anos de idade, matriculados nas escolas Oca e Oficina,
da capital do Paraná, encontravam-se sob a suspeita de estarem inocula-das com o vírus das ideologias exóticas transmitido através de método de educação adotado pelos professores do pré-primário e baseado nas teorias do notório Piaget.
"Nas decantadas provas coibidas pelos policiais entre os arquivos, encontrava-se, por exemplo, o relatório de um dos professores, com a seguinte observação. ‘Os bebes já estão compreendendo o significado do chamado para lavar as mãozinhas antes do lanche’. E as histórias lidas para as crianças de 4 a 6 anos, eventual instrumento para doutrinação, ostentavam títulos como ‘A Cabra Cabrez’ e o ‘0 Bicho da Folha Seca’... "
Os intelectuais e professores foram soltos dias depois e, mais tarde, o inquérito engavetado.
Afinal, nem o zeloso guardião da segurança nacional de Tubiacanga, o espaventoso Major Bentes, acreditaria ser possível ensinar marxismo a crianças de dois ou seis anos.

Adalberto S. Gomes, professor secundarista

domingo, 14 de dezembro de 2014

Histórias do Paraná - Getúlio e a Capital Cívica

Histórias do Paraná - Getúlio e a Capital Cívica

Getúlio e a Capital Cívica
Guísela V. Frey Chamma

Em outubro de 1930 chegava em Ponta Grossa a composição ferroviária que trazia a comitiva de Getúlio Vargas, vinda do Rio Grande do Sul.
Aqui parou, pois não poderia passar para São Paulo, porque tropas do Exército, fiéis ao governo, haviam dinamitado a ponte sobre o rio Itararé, e estavam de prontidão para impedir quem ousasse passar pelo território paulista vindo do sul.
Tudo isso ocorria porque grande parte do país estava descontente com os acontecimentos políticos da época, em virtude das fraudes comprovadas nas eleições para presidente da República, nas quais o candidato paulista, Júlio Prestes, havia sido vitorioso.
Seu antagonista, Getúlio Vargas, e seus correligionários já haviam se conformado, quando o assassinato de João Pessoa, na Paraíba, reascendeu as paixões.
João Pessoa havia sido companheiro na chapa de Getúlio Vargas.
Seu enterro, no Rio de Janeiro, deu impulso no movimento revolucionário que estava latente em grande parte do Brasil.
Com todo o Rio Grande do Sul a favor de Getúlio Vargas, que teria sido o verdadeiro vencedor das eleições, e com o apoio do Exército do Sul, o candidato gaúcho chegava à Ponta Grossa, com grande número de companheiros.
Aqui permaneceram aguardando ordens para seguir viagem.
Em Ponta Grossa, o 13° Regimento de Infantaria já havia enviado alguns contingentes como apoio de outros da capital para a região da Ribeira, limite com São Paulo.
Outra parte do 13° R.I. foi para a fronteira com Itararé. O militar mais entusiasmado na ocasião, o Capitão Ayrton Playsant, enviava as mensagens para a comitiva estacionada em Ponta Grossa, aconselhando a espera os acontecimentos, para evitar um choque com as tropas do lado paulista.
Enquanto o impasse perdurava, Getúlio Vargas realizava encontros e reuniões políticas no Cine Renascença e no Clube Pontagrossense.
Ele não aceitou nenhum dos convites dos moradores mais importantes da cidade e preferiu continuar instalado no seu vagão dormitório, no pátio da estação ferroviária.
Durante o dia aceitava almoçar e jantar na casa de um e de outro.
Nestes dias de permanência em Ponta Grossa, Getúlio Vargas ficou impressionado com a vibração e entusiasmo do povo.
Foi numa das reuniões, no Cine Renascença, que a comitiva recebeu o telegrama vindo do Rio de Janeiro, que comunicava a renúncia de Washington Luís, e a posse de uma Junta Governativa composta pelos Generais Mena Barreto, Tas-so Fragoso e o Almirante Isaias de Noronha, que haviam decidido entregar o govemo a Getúlio Vargas, considerado desde já o novo Presidente do Brasil.
O regozijo foi enorme entre os presentes, Getúlio Vargas, aplaudido e cumprimentado, fez um emocionado discurso, e nessa ocasião referiu-se a Ponta Grossa, como "a Capital Cívica do Paraná". O título pegou.

Guísela V. Frey Chamma, historiadora e professora titular da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Histórias do Paraná - Sociedade de São Cornélio

Histórias do Paraná - Sociedade de São Cornélio

Sociedade de São Cornélio
Túlio Vargas

Ninguém desconhece o papel desempenhado pelos estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo na propagação das correntes literárias, publicadas na "Imprensa Acadêmica" ou no "Radical Paulistano", onde pontificaram Fagundes Varela, José Bonifácio "O Moço", Álvaro de Azevedo, Castro Alves, para citar apenas alguns.
Ou ainda a "Escola do Recife", na qual Gonçalves Dias, Tobias Barreto, Castro Álves, outra vez, absorveram as idéias do intelectualismo de Renan, cuja primeira fase foi eminentemente poética na batalha do realismo contra o romantismo.
Esses estudantes se reuniam em "repúblicas" ou clubes acadêmicos para estudar leitura, compor versos, armar "trotes" e traduzir textos franceses.
Adoravam o ritual das sociedades secretas que adaptavam nas suas liturgias improvisadas.
Os acadêmicos de Curitiba não fugiram à regra.
Integrantes da turma de 1937 da Faculdade de Direito (Cordovan, Mário, Hermenegildo, Hugo, Edgard, José Elias, Murilo, Hélio, Levy, Brasilino, Kiyossi), a que se juntaram acadêmicos de outras turmas ou Faculdades (Dutra, Ruy, Aramis, César, Ayron), cansados, talvez, das "futri-cas" das políticas universitária e nacional, esta submetida à ditadura getuliana, e dos galanteios às meninas na saída das matinês de sábado do Cine Avenida e no "footing" dos domingos na Rua XV de Novembro, fundaram a "Sociedade de São Cornélio" (o nome do patrono disfarçava uma ironia). E, a exemplo das rodas boêmias dos cafés "literários" do Rio de Janeiro, onde, como narra Brito Broca, no fim do século 19 e início do atual, "nada se resolve sem versos ou pelo menos sem trocadilhos" que envolviam Olavo Bilac, Guimarães Rosa, Martins Fontes, Lima Barreto e muitos outros literatos, que reuniam-se no Café Belas Artes e, depois, no Café Brasil, sob a presidência de Cordovan Frederico de Mello, perfeito "gozador", extrovertido, brincalhão e em cujos olhos nunca reluziu a tristeza, para disputar o cafezinho nos "palitos" e fazer de versos a regra de linguagem e das brincadeiras que visavam elogiar, censurar ou ridicularizar comportamentos e em que o alvo predileto eram os próprios integrantes da turma, protagonistas de romances mal sucedidos...
A maioria versejava com domínio da técnica e da retórica, embora distante da perfeição, com que se expressariam os verdadeiros Poetas da turma de 1937: Heitor Stockler de França, Florentina Vitel de Macedo e Manoel Thomaz Pereira, destacando-se, inspirados nos Poetas maiores, particularmente da fase romântica em plena efervescência, Cordovan, José Elias Küster e Kiyossi, o chamado introdutor diplomático, autores de mais de uma centena de sonetos, alguns líricos e outros satíricos, ou de acrósticos sentimentais em voga na época, dedicados a Zilá, Flori, Neide, Sarita, Dulcinda, Circe, Maria, Felícia, Celeste, Rosette e outras "musas". Onde estarão elas?
Essa sociedade sobreviveu poucos anos após 1941, ano da colação de grau da Turma "Clóvis Beviláqua", havendo quem, às vésperas da formatura, confessasse: "Tornar-se bacharel era um anseio/ Incomparavelmente sedutor/ Dinheiro, posição, glória e amor/ Vinham do nome ao rápido meneio/ Hoje, porém, que tétrico receio/ Nos causa a hora de virar "doutor"/ falta o "smoking", a beca, o anel (que horror)/ Falta o sapato e a roupa de passeio..."
Alguns dos membros já partiram... Outros estão aí a curtir a nostalgia, recordando os versos dos bons tempos: "Por fora, a chuva na janela traça/ Filigranas exóticas, enquanto/ Ante meus olhos unidos de encanto/ A caravana da saudade passa...

Túlio Vargas, ex-deputado e titular da Academia Paranaense de Letras

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Histórias do Paraná - Aposta perdida

Histórias do Paraná - Aposta perdida

Aposta perdida
José Cadilhe de Oliveira

Paranaguá, como toda cidade litorânea, tem seus hábitos que só acontecem à beira-mar onde, tudo indica,
seus moradores, dotados de verve acurada e simpática, traduzem, no cotidiano, alegria contagiante que faz de cada habitante um privilegiado fácil de ser admirado. Não há, em terras parnanguaras, quem não seja alcunhado e, via de regra, de modo jocoso.
Apelido lá pega para valer.
Famosas as alcunhas: "Caroço de Manga", "Esmaga Saco" "IPTU de Casinha de Cachorro", "Deixa que Eu Chuto",
"Pinto de Rodapé", "Cara Mijada" e tantas outras que alinhavam e retratam os motejados da terra banhada pelo Itiberê.
O mesmo acontece com qualquer histórieta contada ou vivida por esses moradores ou simples visitantes.
É um dos lados jocosos e pitorescos da cidade.
Tentarei, de modo resumido, narrar dois fatos pitorescos lá passados e que demonstram o feito desse festejado povo.
Simples fato, mas verdadeiros, garantem os de lá.
O primeiro deles conto em forma de diálogo.
Um estranho, chegando à cidade, logo que desceu do trem, ainda na gare ferroviária, deparou com um cidadão postado na plataforma e lhe perguntou:
- O senhor conhece o Doutor Jorge Curi?
- Não. Só uma das irmãs dele.
- Qual?
- A "manicuri"...
Outros, que teve como palco conhecido hotel situado à Praça Fernando Amaro, alinhou um visitante que havia, com amigos de Curitiba, feito um desafio, afirmado que ficaria em Paranaguá por três dias das seguidos e não receberia qualquer apelido.
Para conquistar a aposta casada, seguiu viagem e lá se hospedou no estabelecimento hoteleiro antes referido, que tem janelas voltadas para a praça fronteiriça.
Do departamento não arredou pé durante os dias lá permanecidos.
Por telefonemas internos, solicitava suas refeições que fazia no aconchego do seu aposento.
Salvo pedidos à Portaria, não falou com viva alma que fosse.
Invariavelmente, para passar o tempo, se postava à janela e dela saia inúmeras vezes, tanto durante o dia como no período noturno.
Assim, outra coisa não fez no espaço de tempo lá permanecido. A janela foi sua única companheira.
Findo o prazo estabelecido no ajuste, nosso homem, certo de que havia ganho a aposta, resolveu retornar a Curitiba.
Pelo telefone, como sempre, pediu sua conta.
Logo desceu para resgatá-la e empreender viagem de retorno.
Na portaria, após o pagamento, solicitou à gerência que mandasse apanhar suas malas no apartamento. Aí, deu-se a "melodia", e seu desafio foi por água abaixo...
O gerente, ordenando, disse ao "boy": "Tonico, vá buscar as malas do Cuco no 202". Ante o fato de apresentar-se, sistematicamente, à janela durante sua estada no hotel, o pessoal parnanguara, que bem notava esse estranho habito do inusitado hóspede, sapecou-lhe, com muita propriedade, a alcunha de Cuco, que outra coisa não faz na vida do que aparecer e desaparecer da janelinha de sua morada...
Aposta perdida.
Paranaguá, esse encanto de cidade, é, definitivamente, um recanto feliz para alegria de sua boa e simpática gente e do visitante, este que não tem como esquecê-la jamais.

José Cadilhe de Oliveira, advogado

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Histórias do Paraná - O milagre

Histórias do Paraná - O milagre

O milagre
Luiz Cláudio Mehl

Todos lamentamos o estado da saúde pública no Brasil. Há quem diga que os recursos são mal distribuídos, desviados para outras atividades ou que simplesmente não existem.
Falta de vontade política, recessão econômica, incompetência gerencial e corrupção são outras razões apontadas.
Enquanto isso, o descrédito se multiplica nas filas dos hospitais, e a saúde privada é privilégio de poucos que podem suportar os altos custos. E também verdade que este descrédito já foi maior.
Menos pela deficiência dos serviços do que pela sua absoluta inexistência.
Os médicos daqueles tempos eram tratados com desconfiança, não pelas consultas que não conseguiam cobrar, mas pela concorrência dos curandeiros e da medicina caseira.
Estes tempos foram vividos pelo "seu" Eduardo Sponholz, que já passeou por estas linhas.
Morador da então pequena vila de Imbituva nos anos cinqüenta, chefe político do velho PSD, foi advertido por diversas vezes pelo médico e prefeito local, o Dr. Nuna, sobre a necessidade de repetir um exame para avaliar a extensão de uma infecção urinária.
Homem cioso da sua masculinidade, "seu" Eduardo temia por um provável exame da próstata, que agradava a muito poucos homens, mas o médico continuava insistindo.
Cansado das suas próprias negativas, "seu" Eduardo chamou o neto de 11 anos de idade para seu quarto.
Prudentemente trancou a porta e ordenou ao menino:
- Faça xixi nesta garrafinha!
No primeiro ônibus a
garrafinha seguiu viagem para os exames em Ponta Grossa.
No dia seguinte, o laboratorista irrompeu na sala dos médicos.
- "Milagre!" — exclamou.
- "Um milagre!" — repetiu.
- "A urina do paciente parece a de um menino!"

Luiz Cláudio Mehl, engenheiro civil