segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Histórias do Paraná - A bandeira que foi tapete

Histórias do Paraná - A bandeira que foi tapete

A bandeira que foi tapete
Josué Corrêa Fernandes

Ouvia de meu pai que o Major Fidêncio Leme do Prado, voluntário na Guerra do Paraguai, curitibano, que viveu a maior parte da sua vida no interior do município de Imbituva, fora quem arrebatara do gabinete presidencial de Solano Lopes, em Assunção, a bandeira brasileira que ali servia de tapete e que se constituía em troféu de guerra, tirada que havia sido do navio "Marquês de Olinda".
A família Leme do Prado, rebatizada para Lemos do Prado, é muito grande, espalhando-se por várias cidades, principalmente no sul do Paraná. Em Prudentópolis mesmo, há o vereador de segundo mandato, Gilberto Leme do Prado, sucessor direto de Fidêncio.
A história que desde criança me comovia, vim a confirmá-la muitos anos depois, no Museu Histórico Nacional e nos arquivos do "Jornal do Comércio", do Rio de Janeiro.
Com vinte e um anos de idade, Fidêncio apresentou-se espontaneamente na 4a Cia. do 27° Corpo de Voluntários da Pátria.
Seu batismo de fogo, desembarcando em S. Francisco do Uruguai e cruzando o Rio Paraná, foi nos combates de 22 e 24 de maio de 1866, onde saiu ferido, o que, no entanto, não impe-
diu que retornasse ao campo de batalha por três vezes no mês de julho do mesmo ano, participando do assalto de Sauce, das lutas de Lomas Valentinas, Peribebuy, Nieguassú e da rendição de Angustura.
Seu feito mais importante, porém, ocorreu quando o Exército Nacional, sob o comando do General Osório, entrou em Assunção, em 5/1/1869.
Diz Fidêncio, em entrevista ao "Jornal do Commercio" (ed. de 13/9/1922), que, uma vez aquarte-lados, ele, mais Clarindo José da Silva e Antônio Roberto, corneteiro-mor, dirigiram-se ao palácio de Lopes, nele adentrando sem encontrar resistência.
Enquanto seus companheiros permaneciam no andar térreo manipulando papéis de música, Fidêncio subiu ao último andar, ali encontrando o gabinete de Solano e uma bandeira brasileira estendida no assoalho, defronte à cadeira do governante paraguaio.
Imediatamente recolheu o pavilhão que se prestava de tapete, guardando-o na mochila e contando o fato aos que o acompanhavam.
Horas mais tarde, três prisioneiros esclareceram que não só aquela bandeira como também outra, ambas trazidas do vapor "Marquês de Olinda", estavam sendo utiÚza-das daquela mesma forma: uma, no Quartel General de Humaitá; e outra, no Palácio de Lopes.
Terminado o conflito, Fidêncio, elogiado por seu destemor nos cinco longos anos de campanha, promovido a Alferes, voltou ao Paraná, guardando, no entanto, a bandeira que considerava relíquia e que desejava usar como mortalha.
Nas comemorações do centenário da Independência, já com 78 anos de idade, Fidêncio resolveu embarcar para o Rio de Janeiro, levando o histórico pavilhão que por mais de meio século guardara, a fim de entregá-lo em mãos do Conde d’Eu, a quem chamava Marechal da Vitória.
Acondicionou o precioso símbolo numa caixa de madeira, onde fez inscrever em letras douradas: "A memória de D. Pedro II - O valor e a Constância".
O Conde d’Eu, no entanto faleceu antes da chegada de Fidêncio, e este, afirmando que o símbolo da pátria resgatado das mãos do inimigo devia ficar em local onde todos os brasileiros pudessem vê-lo e venerá-lo, encaminhou-o, através do "Jornal do Commercio", ao Museu Histórico Nacional, onde se encontra até hoje!

Josué Corrêa Fernandes, advogado, é secretário de Administração e Negócios Jurídicos de Ponta Grossa

domingo, 9 de novembro de 2014

Histórias do Paraná - Corpo de Saúde, 1930

Histórias do Paraná - Corpo de Saúde, 1930

Corpo de Saúde, 1930
Manoel Dória Guimarães Filho

Vivemos a revolução Em Curitiba, jovens médicos e acadêmicos de medicina alistam-se como voluntários no Corpo de Saúde.
Esta é a forma encontrada para poder constribuir com aqueles soldados que, menos favorecidos pela sorte, tombam nos campos de lutas.
Incorporados, recebem instruções para se apresentar ao Hospital D. Isabel na cidade de Jaguariaíva.
Domício Costa, Osires Rego Barros, Manoel Dória Pinheiro Guimarães, José Saldanha Faria, Isaac Goldstein Paciornick e Iracy Ribeiro Vianna, deixam Curitiba no dia 14 de outubro.
O relógio marca 1 hora da tarde de uma terça-feira em plena primavera de 1930.
A composição férrea fazia sua primeira parada, Porto Amazonas, onde chega às 5:30 da tarde.
O médico Bernardo Vianna, ao saber do alistamento de seu filho Iracy, também se alista:
- Se meu filho vai para a guerra, eu também vou!
Às 9 e meia da noite chegam à Princesa dos Campos.
Praticamente vencido o primeiro dia, é preciso aguardar uma nova composição para baldeação e dar continuidade à viagem.
Por volta das 10 horas, chega a Ponta Grossa o novo comboio, que lotado transporta a 1a CIA. do 15° Batalhão de Caçadores, sob o comando do Ten.
João Gualberto, que com sua tropa faz pequena parada na estação e prossegue viagem às 10 e meia. A Ordem é permanecer em Ponta Grossa e aguardar o trem das 9 e meia da manhã. Pernoitam no Hotel Dáros, em frente à estação.
Na manhã seguinte, como não conseguem usar o telegrafo, passam no Correio para algumas notícias, t na Igreja para algumas orações. Às 9 e meia embarcam na nova composição, que também leva o Ten.
Laurentino, de Santa Catarina.
Travam conhecimentos com vários oficiais e soldados.
Meio dia chegam a Castro, e de caminhão são conduzidos para almoço no Hotel Rondinelli.
Reiniciada a viagem à 1 e meia da tarde, chegam a Piraí por volta das 4 horas, quando então encontram 200 homens de Rio Azul, fortemente armados, que seguem para o campo de batalha.
No desvio da linha, o comboio aguarda a passagem de outro que transporta feridos para serem atendidos em Ponta Grossa.
Os feridos estão sendo conduzidos pelo acadêmico Lineu Madureira Novaes, também voluntário.
Violentos combates são registrados em Sengés. A baixa é impressionante, perto de 140 homens.
Diariamente um avião bombardeia Jaguariaíva.
- Avião... avião... avião! - é o grito que anuncia a chegada de mais um ataque aéreo.
Todos procuram abrigos.
Bombas explodem em todos os lugares, e também muito próximas do Hospital.
Num único ataque, o avião consegue jogar 8 poderosas bombas, para o desespero da população. A fuzilaria é intensa. A correria também.
No poder de fogo de terra, até tiros de revolver procuram acertar o avião, que mais uma vez vai desaparecer na linha do horizonte.
O trem chega a Jaguariaíva quase às 10 da noite.
As 6 e meia da manhã de 18 de outubro de 1930 os bravos voluntários do Corpo de Saúde, Domício, Osires, Dória, Saldanha, Parciornick e Iracy, se apresentaram e iniciam seus trabalhos na Ambulância Mista de Jaguariaíva.

Manoel Doria Magalhães Filho, publicitário e artista plástico

sábado, 8 de novembro de 2014

Histórias do Paraná - A Baronesa do Tibagi

Histórias do Paraná - A Baronesa do Tibagi

A Baronesa do Tibagi
Astrogildo de Freitas

A atual cidade de Palmeira, distante cerca de setenta quilômetros desta capital, é a evolução da Freguesia Nova de Nossa Senhora da Conceição de Palmeira, criada em 1819, em terras doadas pelo Tenente Manoel José de Araújo, casado com Anna Maria da Conceição e Sá, proprietário da Fazenda da Palmeira, cujo solar, edificado em meados do século dezoito, continua firme, habitável, e é atualmente conhecido como Chácara da Palmeira.
Dentre os seus filhos, queremos focalizar neste esboço Cherubina Rosa Marcondes de Sá, casada com José Caetano e Oliveira, na capela do Tamanduá, no dia 27 de novembro de 1814. Por ocasião do falecimento do seu pai, em 1825, e conseqüente partilha dos bens, coube a Cherubina o Rincão da Cria, onde já residia. Mãe de vasta prole, oito filhos, criados com todo o carinho, dentre os quais se destacoujesuíno Marcondes de Oliveira e Sá que, apresentando mais inclinações para os livros, já aos sete anos de idade passou a freqüentar escolas em Curitiba, visando novos horizontes.
Em conseqüência de um episódio funestro que vitimou uma das filhinhas do casal, talvez uma inflamação do apêndice, determinou-se
o corte de todos os pessegueiros do
Sitio, pois se atribuiu a causa da morte à ingestão de pêssegos verdes.
Quando da visita, em 1820, de Henri de Sant Hilaire à Quinta Comarca, este cientista francês esteve acantonado no Rincão da Cria, demorando-se ali por algum tempo.
Nessa ocasião, como hospedeira e dever social, manteve conversações com aquele itinerante sobre diversos assuntos.
Com a instrução acima do saber ler e escrever, pois quando mocinha freqüentara aulas de escolaridade nas cidades de Sorocaba e São Paulo e acostumada aos contatos sociais, teve assim condições de manter diálogos com tão ilustre visitante.
Nas prolongadas ausências do marido, em viagens de negócios de compras, vendas e transporte de gado vacum, cavalar ou muar, assumia também a direção do Sítio, promovendo todos os trabalhos normais, inclusive o feitio e roça no Pi-nheiral, onde existiam terras apropriadas para essa modalidade de lavouras.
Em 4 de agosto de 1858. o Alferes de Milícia José Caetano de Oliveira recebeu o titulo de Barão do Tibagi, em recompensa pelas suas atitudes conservadoras em face da revolta de Sorocaba e da emancipação política do Paraná. Esse provecto cidadão já possuía as Comendas da Rosa e de Cristo.
Assim, Baronesa, Cherubina não modificou as suas atividades, prosseguindo a vida normal de há muito estabelecida.
Quando da vinda do imperador D. Pedro II e a Imperatriz à província do Paraná, nas suas estadias em Palmeira, o casal foi hospedado pela Baronesa.
Em recompensa por este e outro atos, inclusive libertação de escravos, e já na viuvez, foi agradecida com o titulo de Viscondessa do Tibagi.
Para os palmeirenses, todavia, ela continuou recebendo o carinhoso tratamento de baronesa até sua morte, ocorrida em primeiro de outubro de mil oitocentos e oitenta e nove.

Astrogildo de Freitas, membro do Centro de Letras do Paraná e do IHGEP

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Histórias do Paraná - Nascido num atoleiro

Histórias do Paraná - Nascido num atoleiro

Nascido num atoleiro
Tadeu de Souza Barião

O caixão do pai mal tinha baixado à cova e Darci Balestro já estava procurando quem quisesse comprar sua parte no sítio pequeno em Vila Nilza, lugarejo perdido no município de Iporã. "Quero fazer a vida em Rondônia", dizia.
Como ele, milhares de agricultores paranaenses agarraram o rumo de Mato Grosso e Rondônia na década de 70, na esperança de melhorar de vida.
Curioso foi a desculpa que Darci inventou para a aventura, quando desculpa nenhuma era preciso.
"Tão falando que o asfalto não demora a chegar na vila, e eu não gosto de asfalto", disse.
Ele gostava de contar que nasceu no corredor de um ônibus, durante um encalhe gigantesco.
Foi num atoleiro de Cianorte Cruzeiro do Oeste, "a estrada mais perebenta do Brasil", no dizer do escritor Domingos Pellegrini. A mãe, que voltava de ônibus de Maringá, grávida de oito meses e meio, recusou a carona de jipe achando que o atoleiro secava logo ou que uma patrola ia conseguir abrir desvio. Õ encalhe durou quatro dias.
No segundo, bem cedo, depois de uma noite mal dormida, a mulher entrou em trabalho de parto.
Foi acudida uma freira vicentina que também viajava no ônibus. E ali mesmo, no corredor forrado com duas mantas, nasceu Darci Balestro.
Na rodoviária, já embarcado no "União Cascavel", Darci Balestro se despediu dos irmãos com sua frase predileta: "Quem nasceu num atoleiro, carece de mato prá viver". E lá foi ele.
Sonhando, quem sabe, com uma estrada barrenta e um enorme atoleiro.
Chuva, lama empoçada, um caminhão enfiando as rodas no barro e atolando de atravessado no meio da estrada, afundando mais e mais a cada tentativa de sair.
Mais provável sonhasse com a nova vida em Rondônia.
Pelo preço de um alqueire no oeste do Paraná dava para comprar cinco, oito, dez alqueires lá para cima.
Ainda indeciso se entrava na fila dos assentamentos do Incra ou comprava direto uma terrinha.
No estomago, o azedo da insegurança — plantar o quê por aquelas bandas? Cacau? Nunca nem vira pé.
O ônibus sacolejou dias.
Até Cuiabá ainda foi suportável.
Mas depois, pela barrenta BR-364, quase um rastro no meio da mata, foi demais até mesma para quem nasceu num atoleiro.
Em Vilhena, portal de entrada de Rondônia, mentiu que não tinha dinheiro algum — medo de roubo — e os funcionários do Incra tentaram desacorçoá-lo de seguir viagem.
Foi em frente.
Até Cacoal, mais ou menos no meio do Estado. A terra ali era roxa, o sotaque do povo, familiar.
Tudo paranaense ou gaúcho.
Darci Balestro achou que era um bom lugar pra ficar e ficou.
Daí para a frente, é a historia de um pioneiro bem sucedido.
A compra do primeiro lote de terra, a abertura do primeiro roçado, a primeira malária, outro lote de terra, outra malária, um olho na filha do gaúcho, Vicente Basso, a terceira malária, a primeira colheita de cacau...
Para resumir as coisas, nesses quase vinte anos Darci Balestro pegou suas malárias, casou com Irma Basso,
fez quatro filhos, tem cinco grandes fazendas — cacau, café, gado
- , três lojas de material de construção em Cacoal, uma concessionária Ford, um casarão plantado no meio de uma quadra toda, quase no centro da cidade, piscina de 200 metros, e duplex com três suítes em Porto Velho.
Dia desses, Darci pegou a F1000, cabine dupla, e desafiou o filho mais velho:
- Junior, topa um partidinha de bocha lá em Vila Nilza?
Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná... Diferente essa viagem de volta.
As estradas todas asfaltadas.
Menos na chegada de Vila Nilza, que continua um lugarejo perdido no município de Iporã.
Um dos últimos lugarejos deste Paraná que ainda não conhece o asfalto.
Mas quem diz que o Darci Balestro se arrepende de ter saído de lá?

Tadeu de Souza Barião, professor secundário em Cascavel

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Histórias do Paraná - Tapera dos pessegueiros

Histórias do Paraná - Tapera dos pessegueiros

Tapera dos pessegueiros
Reginaldo de França

Dia 13 de abril de 1949. Serraria São João, Município de Jaguanaíva.
Inicio da noite.
Mamãe, deitada em seu quarto, não passava bem.
Rubens nascera pela manhã. Parto difícil, complicado, assistido pela parteira do local que, com suas limitações, fizera o possível.
A porta do quarto se abriu.
Passos.
Mamãe virou-se.
No lusco-fusco viu aproximar-se de seu leito um homem.
Baixo, de chapéu de abas largas, falou:
- "Viu! Na Tapera dos Pessegueiros tem um dinheiro enterrado.
Pode ficar c’o dinheiro. Só leve meu corpo pro campo santo".
O desconhecido virou-se e saiu pela mesma porta que entrara.
Surpresa, susto, depois o pânico.
Mamãe gritou pela vovó Isabel, sua sogra e companheira dedicada, sempre presente cada vez que um novo neto vinha ao mundo.
Disse-lhe que havia um homem dentro de casa.
Vovó, apavorada, de lamparina na mão, rezando em voz alta o Credo, o Pai Nosso, a Ave Maria e todas as orações que conhecia, vasculhou todos os cômodos.
Nada. A recaída.
Papai, chamado às pressas na serraria.
Providenciado um veículo, mamãe foi levada ao hospital em Itararé.
Refeita, dias depois, retornou.
Pediu a uma dos meninos, o mano Domicel, que a levasse até a Tapera dos Pessegueiros. A Tapera, casinha de barro e sapé, abandonada, era cheia de pessegueiros que se projetavam inclusive do interior das ruínas.
Viu e silenciou.
Tempos após, papai foi transferido para Itararé. Mamãe então resolveu contar-lhe o episodio vivido.
Papai e Tio Dito programaram "uma pescaria" para ir em busca do dinheiro.
Temporada de chuvas, acesso impossível.
Era necessário aguardar um dos caminhões que viesse da serraria depois que firmasse o tempo.
Com o primeiro caminhão, a notícia. O foguista da serraria, homem humilde, prole numerosa, encontrou enterrado sob a taipa da Tapera um pote de barro cheio de moedas de ouro e prata.
Estava rico.
Depois adquiriria fazendas e outros negócios.
Acabara o sonho.
Porém a confirmação. Não era um delírio puerperal.
No campo santo, alcançara o descanso eterno o baixinho de chapéu de abas largas.

Reginaldo de França, advogado e agente fiscal da Receita Estadual