domingo, 20 de julho de 2014

Histórias do Paraná - As botas das moedas de ouro

Histórias do Paraná - As botas das moedas de ouro

As botas das moedas de ouro
Túlio Vargas

Não se trata de um conto de Grimm, nem de Andersen, mas de uma história realmente verdadeira. E sabido que os antigos não confiavam nos brancos para depositar dinheiro.
Usavam dos mais ardilosos artifícios para esconder as economias, longe dos olhos cobiçosos dos estranhos.
Conta o livro "Tenório — o homem e o mito", de Do Carmo Fortes, que o coronel Felino Tenório, parente e protetor do seu pai, costumava guardar a pecúnia em grandes baús, no porão da sede da fazenda, autênticos cofres-fortes vigiados por fiéis serviçais, armados até os dentes.
Aconteceu, certa vez, que a insalubridade do porão fez apodrecer o dinheiro em papel e as moedas perderam o valor, já fora de circulação.
Era assim que funcionava o sistema financeiro particular da época, apesar desses descuidos e prejuízos.
Era a rotina do sertão nordestino.
Havia outros ricos, todavia.
Desses exemplos, conta-nos Ermelino de Leão a morte de José Luiz Gomes, em Antonina.
Português trabalhador, bafejado pela fortuna, conquistou logo posição de relevo no comércio e na incipiente indústria do litoral.
Encontrava-se entre os homens mais ricos da
Província do Paraná.
Apesar de toda abastança era infeliz. Não gozou a ventura da paternidade e sofreu o desgosto de perder a esposa ainda jovem.
Direcionou todo seu afeto pela família restante.
Amparou o velho pai e a madrasta, mesmo quando viúva.
Preocupava-lhe o vulto dos seus haveres, entretanto.
Quase sozinho, sabia que despertava a inveja e a ambição dos que lhe cercavam.
Servia-lhe de cofre uma bota cheia de moedas de ouro.
Percebia os olhos compridos e atentos da criadagem.
Resolveu precaver-se.
Ocultou a bota, encravada em grossa parede, rebocada de novo.
Era esconderijo seguro.
Assim pensava.
Passaram-se os dias e semanas.
Certo domingo, ausente da fazenda os familiares, José Luiz praticamente só, aconteceu o assalto.
Os escravos assassinaram-no e fugiram depois do saque, levando tudo.
Desapareceu a poupança acumulada durante anos e anos.
Descoberto o crime, dona Dorothéia, a sogra, providenciou que, ao encalço dos criminosos, seguissem escoltas. E prometeu vultuoso prêmio a quem lhe trouxesse as cabeças.
O bandido homicida foi encontrado na ilha do Goulart.
Cercado, não resistiu.
Procedeu-se, então, a execução sumária.
Os cadáveres foram conduzidos para Antonina e depois para a fazenda de José Luiz.
Esquartejados e expostos em postes, como lição.
O desditoso lusitano deixou testamento, legando aos pobres parte de suas propriedades. O sítio do Pinheiros, com os engenhos, ao seu sobrinho e afilhado Francisco Cordeiro Gomes.
Esse crime, que abalou a população litorânea, modificou por algum tempo os hábitos em voga de guardar dinheiro em casa.

Túlio Vargas, ex-deputado, membro da Academia Paranaense de Letras.


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