quarta-feira, 2 de julho de 2014

Histórias do Paraná - A feira humana

Histórias do Paraná - A feira humana

A feira humana
Reginaldo de França

Seção Paineira, Município de Assaí, 1960.
Poderia ser outro ano, não importa. O cenário se repetia, mudando apenas os figurantes.
O algodão, pronto para ser colhido, fazia da paisagem um autêntico campo de neve.
Aqui e ali, nuanças de verde ou do amarelo-escuro das folhas secas.
Na escola Estadual, a abnegada professora, Dona Célia, ensinava as matérias do curso primário às japonesinhas e japonesinhos.
Também dava aulas de religião, iniciando-os no catolicismo.
Nos batizados, a escola transformada em igreja, Dona Célia seria, depois, a madrinha da grande maioria dos novos cristãos.
Mas, era no campo de futebol, próximo à escola, que presenciávamos as cenas que indelevelmente ficaram registradas em nossa memória. O caminhão pau-de-arara, superlotado de nordestinos, ali aportava.
Era o ponto final de uma viagem iniciada dias antes, no interior de Pernambuco, Sergipe ou Alagoas.
Prova da resistência heróica de famílias que cruzam o país, amontoadas, dormindo sobre a carroceria, em condições sub-humanas, sem banho, comendo sanduíches de mortadela, escassos, fornecidos pelo transportador. A novidade se espalha velozmente, como se levada pelo vento. Não existia telefone, rádio ou outro meio de comunicação.
Mesmo assim, rapidamente chegavam os donos da terra.
Japoneses, com seus tratores, jipes ou caminhonetes, acorriam à "compra" da mercadoria humana.
Famílias com vários "braços" eram mais caras.
Centenas de arrobas de algodão seriam colhidas sem demora, não se perdendo ao sol ou pelas intempéries. O peão jovem e forte era disputado.
Regateava-se no preço para a compra de um lote maior.
Os últimos a serem "vendidos" tinham preços de liquidação.
Terminada a "feira humana" os nordestinos levados aos sítios dos compradores, o dono do caminhão contabilizava os lucros e retornava à origem.
Tráfico ilegal de seres humanos? Talvez.
Mas era, sem dúvida, a única forma de retirar do sertão do nordeste, castigados pela seca, fome e sede, famílias desesperadas, sem alento e sem opção, suprindo o Paraná de trabalhadores intrépidos, fortes, capazes de extrair da terra o seu sustento e a riqueza que construiu o nosso progresso.
Muitos aqui ficaram para sempre.
Fincaram raízes na terra que os acolheu. E continuam, até hoje, na agricultura, no comércio, na política, a engrandecer, com sua faina, a história de lutas e de conquistas que marcaram o desenvolvimento da Paraná.

Reginaldo de França, advogado e agente fiscal da Receita Estadual em Curitiba


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