quinta-feira, 3 de julho de 2014

Histórias do Paraná - Hora da verdade

Histórias do Paraná - Hora da verdade

Hora da verdade
Francisco Brito de Lacerda

João Maria cuidava de suas irmãs, uma de sete, a outra de nove anos.
Os pais estavam na roça, quebrando milho.
O menino tinha muito medo de Nicola, um andarilho que costumava entrar ali de manhã, quase sempre embriagado, falando bobagens.
Quando isso acontecia, o pai longe, só a mãe em casa, passando a roupa ou mexendo o tacho, Nicola obrigava a pobre mulher a preparar-lhe cigarros.
Exigia o palheiro acesso.
Pela lentidão no preparo do cigarro, só de nervosa com o jeito dele, a mãe ouvia ameaças, palavrões.
Deitado no único quarto da casa, João Maria amanhecera com febre, tremelicante.
Nem podia cochilar direito.
Imbuído da condição de hominho da casa, recomendara às irmãs que não fossem lá fora, não abrissem a porta a ninguém.
Posta em toda a extensão da porta, uma tranca vedava o acesso de visitas.
Ainda assim, o menino não se sentia seguro.
Achando-se a morada na boca do mato, lugar ermo, em caso de precisão não havia como pedir socorro.
A fim de espiar se alguém chegava, duas vezes João Maria ficou em pé na cama, batendo o queixo.
Unindo os dedos da mão direita, esfregava-os no vidro da janelinha, embaçado.
Como acudir a febre, que subia demais? A mãe lhe deixara uma cápsula das três misturas.
Para poder engolir o remédio, pediu à irmã menor que lhe trouxesse uma caneca de chá bem quente. Só assim sossegou. A febre foi baixando.
Veio o sono.
Acordou com barulho de vozes, duvidoso se era sonho ou algo verdadeiro. O ruído vinha do outro cômodo.
Uma das meninas chorava.
Chorava de medo.
Levantou-se João Maria para apurar a ocorrência.
Sentado, Nicola prendia a de nove anos pelo vestidinho. Pôr a menina no colo era seu intento.
Agarrando um rachão, à toa no soalho, perto do fogo, João Maria deu duas bordoadas no homem, que caiu.
Mal quis erguer-se, o menino acertou-lhe outra bordoada, desta vez com o olho da enxada. A feição de quem ia morrer, o andarilho esmoreceu.
Na cozinha, forte aroma de alho desprendia-se do caldo de feijão, a concorrer com o cheiro suave da salsa crespa que enfeitava a salada de tomate.
Certo de que tinha cumprido acabrunhante dever, o menino pegou as irmãs pelas mãos.
Puxou-as em demanda do terreiro.
Sob efeito da cena terrível, elas não falavam, olhos unidos no homem que jazia estatelado ao pé da cadeira.
A caminho do rancho do avô, no outro lado do rio, os fugitivos a cada passo voltavam as cabecinhas. E viam a porta entreaberta, a fumaça saindo pela chaminé. De gorro, protegendo-se da friagem, João Maria parecia mesmo um hominho.

Francisco Brito de Lacerda, advogado


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