quarta-feira, 30 de julho de 2014

Histórias do Paraná - Um certo Senhor Figueiredo

Histórias do Paraná - Um certo Senhor Figueiredo

Um certo Senhor Figueiredo
Túlio Vargas

O historiador Vicente Nascimento Júnior, autor da expressão "paranista", (e não Romário Martins, como se apregoa) costumava contar aos seus contemporâneos insólito episódio ocorrido em Paranaguá, por volta de 1860, para comprovar que o mundo é dos espertos.
Desceu por lá, como inspetor da Alfândega, um senhor Figueiredo, malcriado e energúmeno, que supondo pisar terra conquistada, começou primeiro a maltratar os funcionários aduaneiros, seus subalternos, injustamente.
Chegava a exigir dos funcionários, quando os chamava ao gabinete, que se perfilassem marcialmente à sua frente curvados em reverência e recuando até desaparecerem por detrás do reposteiro.
O ridículo dessa exigência despertou a veia satírica dos parnanguaras, que começaram a criticá-lo.
Este, em represália, maltrarava os comerciantes e despachantes que se dirigiam à Alfândega.
Como não existia imprensa, circulavam em pasquim os versos irreverentes e maldosos de menoscabo e desapreço à sua presença na cidade.
Nascimento
Júnior publicou alguns desses epigramas carregados de mordacidade no seu livro "Histórias, Crônicas e Lendas".
O Inspetor não se livrou da poesia de cordel, nem da malquerença parnanguara, que incorporou ao seu anedotário de rua a sentença definitiva e anônima:

O Figueiredo supõe, estulto, que todos dele tem medo.
Ai Figueiredo! Ai Figueiredo! Pensas tú ser grande vulto, quando és simples badaneco;
Pois não passas de um boneco! Faíçe a trouxa e vai-te embora,
E que te leve o rei do Averno,
O fazendo em boa hora,
Para a Corte ou para o inferno!

Mesmo o desabafo popular não impediu que, em dia de grande gala, parece que num 7 de Setembro, ele se apresentasse à porta do teatro, pretendendo entrar sem ser convidado.
Com efeito, tendo a diretoria do Teatro Paranagüense convidado todas as autoridades, fez questão de esquecê-lo para significar que era indesejável.
O porteiro barrou-lhe a entrada.
Entro! — Não entra! — Sou o Inspetor da Alfândega! - Tenho ordens para impedir a sua entrada!
E desse bate-boca resultou o maior escândalo.
As famílias presentes se alarmaram, receosas de uma briga.
O presidente da Sociedade Teatral acudiu e declarou peremptoriamente que ali só entrava quem fosse convidado.
Quem não portasse convite que se resignasse e fosse dormir em paz.
Ampliou-se o conflito porque Figueiredo berrava a todo pulmão, bradando até obscenidades. O presidente já estava pensando em suspender a sessão e fechar o teatro, quando um moço, dos artistas que deviam representar, declarou que se negaria a desempenhar o papel se não fosse permitido o ingresso do Inspetor.
Estava, pois, entornado o caldo. Não havia outra alternativa.
Permitir a entrada ou evacuar o teatro, repleto de seleta platéia.
Por amor à ordem, o presidente cedeu à imposição do ator.
Figueiredo entrou, gloriosamente. O jovem artista que pleiteava, de há muito, emprego fixo, obteve a recompensa.
Uma semana depois estava nomeado na Alfândega...

Túlio Vargas, ex-deputado, membro da Academia Paranaense de Letras


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