quarta-feira, 30 de julho de 2014

Histórias do Paraná - Juiz Gramático

Histórias do Paraná - Juiz Gramático

Juiz Gramático
Oney Barbosa Borba

O bacharel baiano José de Sá Nunes foi, por algum tempo, juiz de direito da Comarca de Castro.
Sua judicatura possuía característica especial.
Nos despachos e sentenças sobressaía sua preocupação gramatical.
Em seu tempo de juiz não se usava máquina.
Os processos eram escritos manualmente. A caligrafia do juiz era graúda, de fácil leitura.
Ele escrevia arredondando as vírgulas, distinguindo com a devida inclinação o acento e até fazendo com capricho aquela ondinha do til.
Sá Nunes interrompeu cedo a carreira na magistratura. Não servia para o oficio.
Suas sentenças eram inexpressivas, mecânicas, sem vida.
Conseguira o emprego apenas com o diploma de "Bacharel do Norte" e fora nomeado para uma das comarcas mais frias de estado. O ganho era pouco e ele resolveu dar aula de português, em casa.
No inverno, em trajes menores, envolvia-se num cobertor e assim se apresentava para seus alunos particulares e recebia os funcionários da justiça.
A oportunidade de melhorar de vida surgiu com a publicação de editais do concurso para provimento da cadeira de português no antigo Ginásio Paranaense, em Curitiba. Sá Nunes se inscreveu e concorreu com outras duas celebridades lingüísticas da terra: o padre Eurípides Olímpio de Oliveira e Souza, mulato lapeano com vasta cultura geral e orador emérito, e o professor Fernando Moreira, auto-didata e pedagogo nato.
O concurso teve grande repercussão. A banca examinadora ficou totalmente confusa.
Os três candidatos eram gigantes na matéria.
Como decidir? Optaram sair pela tangente: possuir títulos... (velho recurso das emboloradas ordenações do reino)...
Na verdade, o bacharel Sá Nunes era um grande conhecedor de português.
Após o concurso, o Dr. Sá Nunes fixou residência em Curitiba, deixando a magistratura de lado para ser lente de português do Gymnásio Paranaense, como se escrevia então.
Os ex-alunos que não freqüentavam suas aulas particulares eram penalizados nas provas do ginásio.
Afirmavam abertamente que o lente baiano era mesquinho e perseguidor.
Posteriormente, Sá Nunes transferiu-se para o Rio, onde prelecionou português no Colégio Pedro II. E na antiga capital veio a falecer.
A preocupação com a gramática e a falta de equilíbrio no bom senso para julgar amarrava o estilo de Sá Nunes.
Escolhemos por acaso os autos de inventários dos bens deixados por Mariana da Luz, no cartório cível da comarca de Castro, processo no ano de 1920. Ali, às folhas cinco, Sá Nunes está em boa caligrafia despachando: "Passa-se mandado de citação, na forma da lei, para serem citados os herdeiros em sua residência, para, na audiência do dia 14 do corrente, dizerem sobre as declarações e para se louvarem em um arbitrador para proceder à avaliação e em um partidor para proceder à partilha dos bens do episódio da de cujus.
Castro, 7-VII-1920. Sá Nunes".
Em apenas oito linhas manuscritas, seguem-se os "para-para", numa enfadonhada seqüência do juiz filólogo.

Oney Barbosa Borba, escritor


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