domingo, 20 de julho de 2014

Histórias do Paraná - Rua XV, ou Um aprendizado

Histórias do Paraná - Rua XV, ou Um aprendizado

Rua XV, ou Um aprendizado
Rubem César Keinert

Pela Rua XV fazia-se a travessia curitibana para o mundo adulto.
Ah, rua onde passei minha adolescência e passeavam as adolescências da cidade em flor.
Final dos anos 50, Curitiba ganhando corpo, o Centro Cívico, a Biblioteca Pública, os primeiros arranha-céus.
Acabavam-se os bondes, começavam a aparecer-nos letreiros dos ônibus e lotações — nomes de bairros que não se sabia onde ficavam.
Santa Quitéria.
Santa Cândida.
Pinheirinho. A cidade espichava, adolescentemente.
Na Rua XV ouviam-se e discutiam-se assuntos "adultos": adultérios reais ou presumidos, sobretudo presumidos, acertos e desacertos do governo (fosse qual fosse), o que tinha feito o Dr. Bento, o que deixava de fazer, a volta do lupionismo, a ascensão do braguismo, a roubalheira, as mamatas.
Reais ou presumidas.
Falava-se. Cochichava-se. Inventava-se.
A cidade fervia.
Muito dinheiro correndo com a construção de estradas e obras públicas, com a venda de terras no Norte, com a serraria e exportação de madeiras, com café; algum dinheiro, ainda, com gado, com mate. E esse dinheiro passava pela Rua XV. Nos carrões, nas roupas e bugigangas importadas, nas jóias e penteados das senhoras e mocinhas, nas compras da família (as famílias iam às compras na Rua XV nos horários adequados; e depois tomavam lanche na Schaffer, na Confeitaria das próprias, nas Lojas Americanas.
Como hoje? Olhares gulosos, cobiçosos. E comentários jocosos.
Maldosos.
Alguém escreveu sobre a maledicência curitibana como entrave ao desenvolvimento local.
Delícia.
Todos falavam, todos ouviam.
Estava lá o imenso repertório de informações, mexericos, opiniões comuns ou desencontradas de cada momento, o corpo de conhecimento que tornava cada um em cidadão curitibano. O diz-que-diz da cidade como moeda de troca para o ingresso na vida adulta. E como matéria para discussão que se estendiam pela noite e obrigavam a chegar tarde em casa.
Inesquecíveis noites frias de luar em Curitiba.
Os pais não sabiam que elas existiam e como eram incríveis apreciadas das ruínas do Alto de S. Francisco.
Rua XV. Da Boca, na Avenida ao Alvoradinha, perto do Correio velho.
Que mundo, que tipos: Bataclã, gentleman e propagandista de rua; o outro propagandista (que fim levaram os propagandistas?) que andavam sobre imensas pernas-de-pau e quando em trajes civis levava sempre um guarda-chuva fechado e apontando para cima, compenetrado como quem carrega um círio em procissão; o Esmaga, honorável funcionário público e vagabundo convicto; a Maria Marcha Lenta, sempre com um sorriso para a recusa de compra dos seus bilhetes e com uma história triste para contar; o dono da casa lotérica do "fim" da rua que um dia saiu distribuindo dinheiro a quem encontrasse, talvez cansado de ver tantas esperanças frustradas passando pelo seu balcão.
Rua XV dos tipos falantes, onipresentes em todas as rodas, atiçando as discussões.
Polemizando, sempre dispostos a conseguir adeptos para a causa do dia ou de todos os dias.
Rua XV: primeira lição de humanidade.

Ruben César Keinert, sociólogo pela UFPR, professor na Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da FGV


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